
O Acadêmico Edgar Dutra Zanotto, professor da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e referência na pesquisa sobre vidros, esteve em fevereiro na Universidade de Tecnologia de Wuhan (WUT), China, uma das cinco maiores produtoras de pesquisa em vidros do mundo. Lá ele recebeu uma inesperada homenagem: um novo laboratório que levará seu nome.
Tudo começou em novembro de 2024, quando Zanotto foi convidado para lecionar na tradicional escola de inverno da International Commission on Glass (ICG), em Wuhan, pelo professor Jihong Zhang, da WUT. A colaboração foi frutífera e Zanotto retribuiu o gesto, convidando Zhang a participar da 3ª Escola de São Carlos sobre Vidros e Vitrocerâmicos, em abril de 2025. “Ele não quis dar aulas, apenas assistir como nós nos organizávamos e interagir com o grupo”, lembra o Acadêmico.
Foi nessa visita que o professor Zhang trouxe a proposta: um projeto na China, financiado pelo governo chinês e coordenado por Zanotto. Com o aval do brasileiro, a ideia foi submetida e meses depois aprovada, mas com uma condição, o Acadêmico precisaria ir pessoalmente assinar. “Com alguma relutância aceitei viajar, porque estou ocupadíssimo esse semestre. Chegando lá descubro que era para inaugurar um laboratório com meu nome”, conta.
Um novo espaço para intercâmbio Brasil-China
O Edgar Zanotto Global Laboratory of Advanced Disordered Materials (EZ-GLAD) será hospedado no State Key Laboratory of Silicate Materials for Architectures (SMART), uma mega infraestrutura científica de mais de dez andares dentro da WUT. Coordenado por Zanotto, que está responsável pela compra de equipamentos, definição da linha de pesquisa e escolha de pessoal, o EZ-GLAD não só produzirá pesquisa de fronteira, como servirá de ponto focal para aprofundar a interação entre a ciência brasileira e chinesa.
Montar um laboratório na China tem sido uma experiência interessante, Zanotto ficou positivamente impressionado com como as coisas são feitas por lá. “Os projetos são super flexíveis, muito mais do que no Brasil onde os recursos vêm separados por tipo de gasto. Lá você usa o dinheiro como quiser, desde que dentro de uma ética de pesquisa. Os pós-doutorandos são funcionários da universidade, não bolsistas”.
O EZ-GLAD funcionará sob a supervisão de pós-doutorandos brasileiros, escolhidos por Zanotto, que trabalharão junto aos alunos do professor Jihong Zhang. As linhas de pesquisa do laboratório dependerão da definição de quais serão os cientistas escolhidos, mas já é possível adiantar que alguns serão na área de cristalização de vidros e desenvolvimento de novos vidros multifuncionais.
Possíveis linhas de pesquisa e próximos passos
“Os vidros são materiais com a estrutura atômica amorfa, desorganizada, diferente dos materiais cristalinos, cujos átomos têm posição definida. O que eu tenho feito há 50 anos é pesquisar sobre como podemos reorganizar a estrutura dos vidros, cristalizando-os, e entender as propriedades resultantes desses novos materiais, chamados vitrocerâmicos, obtidos da cristalização controlada”, explica Zanotto.
Dentro dessa área, muitas aplicações são possíveis. Uma delas é o desenvolvimento de telas de celulares mais resistentes, sem prejuízo a sensibilidade ao toque do usuário. “Uma das opções é, ao invés de usar vidro, usar vitrocerâmicos. Essa provavelmente será uma das linhas do laboratório, pois é algo que eles já pesquisam. A China é a maior produtora de celulares do mundo”.
Outra tecnologia possível de ser levada para o EZ-GLAD é o fortalecimento químico de vidros com íons potássio. “O potássio é um íon bem maior do que o sódio, presente na maior parte dos vidros. Então, ao colocar o vidro num banho de nitrato de potássio fundido, por um processo de gradiente químico o potássio entra e o sódio ou lítio (do vidro) sai. Devido ao potássio ser maior, a superfície do material fica comprimida e sua resistência mecânica aumenta”, explicou.
Uma aplicação possível dessa técnica está nos vidros à prova de balas. “Um carro blindado hoje tem vidros de sete centímetros de espessura, o que torna os carros pesadíssimos e muito mais custosos. Então, também pensamos em vitrocerâmicos para alta resistência balística”, projetou Zanotto. “Finalmente, outra ideia que temos praticado desde 2018, é utilizar algoritmos de inteligência artificial para entender a correlação entre composição química e propriedades para desenvolver novos vidros“. Mas é importante ressaltar: essas são ideias iniciais e tudo dependerá de quem serão os escolhidos e do aval dos chineses.
O EZ-GLAD deverá começar a funcionar no final de 2026, uma vez que esteja equipado e com a equipe de cientistas definida. Edgar Zanotto já está com viagem prevista para outubro. “Tenho grandes expectativas, é um desafio novo que eu não esperava aos 71 anos. Será um contrato de cinco anos, mas, se eu estiver entusiasmado, quem sabe não vamos para dez ou quinze anos. Vamos ver …”, brincou o Acadêmico.
