Presidente da ABC critica Câmara e considera “pífio” orçamento destinado ao CNPq

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No dia 1º de julho, a presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Helena Bonciani Nader, participou do workshop “Fortalecendo parcerias equitativas de longo prazo para ampliar cooperações internacionais”. Organizado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), com financiamento da British Academy e apoio do Conselho Nacional das Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa (CONFAP), o evento foi realizado na sede da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

Em sua fala, Nader lamentou que o financiamento à ciência no Brasil ainda seja feito em soluços, não permitindo planejamento de longo prazo para cooperações internacionais. “Hoje dependemos do FNDCT (Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e 50% deste é reembolsável (recursos para empréstimo). Do restante, não-reembolsável (investimentos diretos), 25% são direcionados especificamente para as Organizações Sociais (OS). Os recursos discricionários do MCTI desapareceram, o orçamento do CNPq hoje é pífio”, enfatizou Nader.

A presidente da ABC também criticou a decisão da Câmara dos Deputados de derrubar uma decisão do Senado que deixava investimentos em pesquisa fora do arcabouço fiscal. Olhando para o exemplo internacional, Nader, que acaba de voltar de uma visita à China a convite da academia de ciências daquele país, afirmou que o Brasil está indo na contramão e precisa estimular mais a cooperação dentro do próprio país.

“A China é o que é hoje porque investiu primeiro em educação e depois em ciência. E o fez de forma a espalhar os investimentos pelo país inteiro. Isso gerou desenvolvimento equitativo e reduziu a migração interna. Cabe uma reflexão, não somos cientistas apenas paulistas ou cariocas, somos parte de um todo chamado Brasil”, afirmou.

Nesse sentido, Nader defendeu a criação de um “Ciência Sem Fronteiras interno”, em referência ao famoso programa de intercâmbio internacional financiado pelo governo federal entre 2011 e 2017. Quanto à cooperação internacional, elogiou o Programa Redes para internacionalização Institucional – CAPES-Global.Edu que visa promover parcerias de instituições ao redor do país com atores estrangeiros. Para Nader, esse incentivo deve ser feito com foco em outros países emergentes e mirando desafios comuns da atualidade.

“Estamos num mundo onde todos querem colaborar com o Sul Global. A ABC organizou recentemente o Fórum de Academias de Ciências dos BRICS, no qual vimos que a colaboração dentro do bloco ainda é de apenas 7%. O Brasil não coopera com o Sul, nem mesmo com a América Latina. (…) Um relatório recente da Capes com a Elsevier mostrou que artigos em parceria com outros países latino-americanos têm impacto maior do que os com os EUA ou Europa”, alertou.

Nader também abordou as barreiras que ainda impedem um maior vigor da ciência brasileira, em particular na parte regulatória. Em sua visão, não faltam leis adequadas, mas incentivo para aplicá-las. “O Marco Legal de CT&I está aí, conseguimos colocar a importância de parcerias público-privadas na Constituição, mas gestores continuam com medo de fazê-lo valer. Continuamos presos a burocracias e regulações impeditivas. Precisamos lutar para que o Marco seja mais obedecido e menos interpretado”, afirmou.

Tais regulações precisam abrir espaço para a interdisciplinaridade. “Continuamos nos separando em dezenas de gavetas e cada vez criamos mais gavetas para nos encaixarmos.  Adoramos falar que somos interdisciplinares e integrados, mas na hora de criar um comitê continuamos defendendo que tenham restrições muito específicas”, criticou.

Tudo isso, concluiu Nader, deveria fazer parte de uma estratégia mais abrangente, um plano de Estado para a ciência, independente do governo de turno, que conecte instituições com o setor produtivo. “A colaboração cientifica é o caminho para um mundo mais justo sustentável e interconectado”, concluiu.

Assista à contribuiição completa de Helena Nader a partir das 3h00 no vídeo abaixo:

 

(Marcos Torres para ABC, 03/07/2025)