Desenvolvendo tecnologias à serviço dos especialistas

14 de dezembro de 2022 Por (Carol Telles para AC)

Pedro Pedrosa Rebouças Filho tinha tudo para trabalhar com engenharia, matemática ou física. Por ter facilidade com números e raciocínio lógico, era natural que seus parentes e professores o incentivassem a seguir por essas áreas. No entanto, toda a pressão acabou afastando o jovem dessas carreiras, que acabou descobrindo outra paixão: consertar coisas.

“Me distanciei das áreas que me recomendavam, pois comecei a achá-las entediantes. Nunca gostei de uma área específica, sempre achei que as profissões nas quais se faz sempre a mesma coisa são enfadonhas”, comentou. “Ao mesmo tempo, eu gostava de analisar o porquê de as coisas funcionarem e porque quebravam, por exemplo. Consertei muitos eletrodomésticos na adolescência, até mesmo televisores.”

Esse gosto o levou a procurar novos cursos e assim conheceu a mecatrônica, área na qual se formou e na qual se dedica principalmente ao desenvolvimento de software e inteligência artificial. A escolha por ciência e pesquisa ocorreu de forma natural, muito por conta de seu interesse em temas diversos e pela vontade de se manter em constante aprendizado. Rebouças lembra do preconceito que sofreu por contrariar as expectativas, não apenas em relação ao curso, mas também em relação à carreira. “Faziam com que eu parecesse um louco por querer me dedicar a fazer o que poucos faziam, que era pesquisa.” Ele confidenciou ter muitas histórias marcantes, todas relacionadas a pessoas o incentivando a seguir por outras áreas ou desistir de fazer ciência e ser apenas professor. “Talvez sejam as mesmas histórias diárias que todos que fazem pesquisa relevante no Brasil contem”, palpita.

Nascido em 1984, na capital cearense de Fortaleza, Pedro passou a infância na rua e nas praias, principalmente na Praia do Futuro, ponto turístico da cidade – quando não estava estudando. Hoje, aos 38, se considera um “nerd diferente”, pois é ativo em atividades físicas como futebol, jiu jitsu, crossfit e musculação. Trocou os muitos livros que lia na juventude por filmes e séries, e não dispensa a companhia dos amigos nas festas de forró. Pedrosa é casado há mais de 12 anos e tem uma filha de quatro anos, a quem dedica boa parte de seu tempo livre.

Com a morte do pai, aos 14 anos de Pedro, ele que era o filho caçula tornou-se o único homem da família, de forma precoce. “Estaria mentindo se dissesse que não mudou nada”, desabafou. “Comecei a me mudar muito, bem como ter mais foco nos estudos, sem deixar de me divertir e fazer coisas de adolescente.” As duas irmãs mais velhas seguiram o padrão familiar de trabalhar na área rural: uma ingressou na faculdade de agronomia, que não concluiu; a outra optou por cursar zootecnia, no que se formou.

Pedro Rebouças ingressou no Instituto Federal do Ceará (IFCE) em 2004, quando deu início à graduação em mecatrônica industrial. Na faculdade, sempre fez iniciação científica; no entanto, o valor da bolsa era muito baixo, então, ele buscou outras fontes de renda no mercado. “Mantive a rotina de estudar em um turno, fazer pesquisa em outro e aplicar em empresas em outro, o que com certeza construiu o perfil que tenho hoje após tantos anos”, comenta.

Após concluir a graduação em 2007, o cientista concluiu o mestrado (2009) e o doutorado (2013) em engenharia de teleinformática pela Universidade Federal do Ceará (UFC). “O mestrado e doutorado foram épocas de crescimento em diversos níveis, não só de conteúdo. Posso dizer que a coisa mais importante foram as dificuldades passadas pela imposição de pessoas e pelo sistema, pois me fizeram ver o que de fato queria fazer e seguir na minha carreira. Ser cearense e ver a vida com bom humor ajudam quase sempre, então acredito que isso seja importante também.”

O Acadêmico atua com o desenvolvimento de tecnologias, assim como o aprimoramento das já existentes, voltada para o auxílio à especialistas usando inteligência computacional aplicada à análise de dados (som, texto, vídeo, imagem, gráficos, tabelas, exames clínicos). “Percebi que tão importante quanto propor tecnologias, desenvolver produtos para melhoria do dia a dia dos especialistas possui às vezes mais impacto a curto prazo”, comentou. “Então, tenho focado no desenvolvimento de aplicações web, mobile e embarcadas para fechar o ciclo de tecnologias aplicadas ao auxílio aos especialistas.”

Alguns dos exemplos de áreas em que é possível aplicar seus estudos são os processos de diagnóstico médico por imagem, tema que o Acadêmico estudou em seu pós-doutorado realizado na Universidade do Porto (FEUP), em Portugal, entre 2015 e 2016.

Atualmente, Rebouças é professor associado do IFCE, onde leciona nos cursos de mestrado acadêmico em ciências da computação e nos cursos superiores de engenharia mecatrônica e engenharia da computação. também é pesquisador e líder do Laboratório de Processamento de Imagens, Sinais e Computação Aplicada (Lapisco), onde realiza suas pesquisas acadêmicas e de desenvolvimento tecnológico desde 2012, executando projetos junto a empresas e órgãos de fomento. É docente dos cursos de mestrado e doutorado acadêmico em engenharia de teleinformática e engenharia elétrica da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Um de seus objetivos no magistério é justamente quebrar os paradigmas de ensino que a área de exatas carrega, como ter professores menos comunicativos e focados em geral apenas no conteúdo, não no aluno.

Ainda hoje, meses após sua eleição, o pesquisador conta que ainda não conseguiu processar por completo o título de membro afiliado da ABC. “Ser eleito soa como incentivo, diz que estamos num caminho certo. Desejo me aproximar dos demais membros e traçar caminhos em conjunto, junto com a ABC”, refletiu.

Apaixonado pela sua área de atuação, Pedrosa afirma que o que o encanta na ciência é a discussão embasada em conceitos consolidados, onde cada especialista enxerga características distintas no objeto de estudo e descreve de maneira única o que a priori seria um conceito padronizado. “A mente aberta, a necessidade de colaboração e empatia nas discussões que geram muitas vezes tecnologias de alto nível, isso é o meu maior encanto”, afirmou. “Trabalho desenvolvendo robôs [físicos ou conceituais], mas saber que preciso desenvolver humanos para realizar isso com sucesso é uma narrativa ambígua e cativante.