No dia 26 de julho, foi realizado em Brasília um ato público de lançamento de candidatos para as próximas eleições, com foco na formação de uma bancada de educação, ciência e tecnologia. Na ocasião, já havia sido lançado o manifesto “Educação e Ciência para Reconstruir o País” – e muitos dos signatários estavam presentes no ato público.

A mesa do evento foi composta pela presidente de honra da SBPC Helena B. Nader; o ex-ministro de CT&I e professor emérito da UFPE Sergio Rezende; os cientistas Aldo Zarbin (UFPR) e Isaac Roitman (UnB); a ex-secretária de C&T de Pernambuco, ex-presidente do CGEE e pesquisadora da Fundação Joaquim Nabuco, Lúcia Melo; a ex-reitora da Unifesp e coordenadora do SOU_CIÊNCIA Soraya Smaili e a reitora da UnB, Márcia Abrahão.

Isaac Roitman, Aldo Zarbin, Helena Nader, Sergio Rezende e Lúcia Melo

O químico Aldo Zarbin deu início à cerimônia de lançamento das candidaturas. Ele relatou que a força do movimento reside no fato dele ser suprapartidário. “A alma dessa futura bancada de cientistas e professores é o atual reitor da Federal de Goiás [UFG] Edwar Madureira”, ressaltou, provocando uma salva de palmas da plateia.

Zarbin afirmou que, na ocasião, estava sendo lançada uma semente, “que vai dar muitas flores e frutos, no sentido daquilo que acreditamos que seja o melhor para nós”. Ele observou que “nós”, nesse caso, seriam todas as pessoas que acreditam que a transformação do país deve se basear em ciência, tecnologia e inovação. “Nós, cientistas, já ouvimos muito que deveríamos nos engajar politicamente e lidar de perto com as decisões sobre CTI e educação no país. Agora, alguns de nós estão assumindo aqui esse compromisso”.

Leia o manifesto “Educação e Ciência Para Reconstruir o País” e saiba mais sobre as propostas e os signatários.

A ex-reitora da Unifesp Soraya Smaili destacou a posição da comunidade científica frente às candidaturas: “Vocês nos representam e tem o nosso apoio. Nossa luta pela universidade pública é, hoje, mais importante do que nunca, porque é das universidades que vai sair o projeto de reconstrução do nosso país. E nós sabemos que somos capazes. Até a vitória!”

Marcia Abrahaão vice-presidente da Andifes e reitora da UnB, concordou com Smaili: “A UnB está de portas abertas para vocês. Temos sofrido muitos ataques e precisamos mudar a lei da eleição de reitores, de modo que seja respeitada a vontade das comunidades universitárias. Precisamos de representação de vocês no Congresso.”

Isaac Roitman contou uma história. Ele relatou que há muitos anos atrás, ele e um grupo imaginaram ter uma sala no Congresso com um banco de dados de cientistas para assessorar os congressistas. “Falamos com o Ulisses Guimarães, que gostou da ideia e estava procurando o espaço, quando teve uma trágica morte, por acidente do helicóptero”. Depois, quando Roitman já integrava o movimento “2022: o Brasil que queremos”, este promoveu dez audiências públicas sobre diversos temas relacionados às ciências, transmitidas ao vivo na TV e Rádio Senado, com perguntas do público. “Essa oi uma maneiras da academia influenciar nos rumos desse país”, argumentou. Em 2020, ele escreveu um artigo intitulado “Seria uma boa ideia termos um cientista na Presidência da República?”, que foi publicado no Monitor Mercantil. Neste artigo, Roitman destacou que o Poder Executivo precisa procurar a ciência para desenvolver políticas com base em conhecimento. No referido texto, ele afirma: “É importante que os debates e propostas da SBPC e ABC sejam considerados pelos governantes, como também a participação dos cientistas no ambiente político.”

À frente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o filósofo e ex-ministro da Educação Renato Janine Ribeiro esclareceu que a SBPC não tem partido, mas apoia e defende o movimento suprapartidário, tendo inclusive publicado um “Manifesto Pelas Eleições e Pelas Urnas Eletrônicas”, que pode ser assinado por quem quiser apoiar a causa, tão cara à grande parte da sociedade brasileira.

Janine informou que a SBPC vai oferecer aulas on-line, suprapartidárias, mostrando a diferença entre democracia e ditadura, informando sobre o papel do Legislativo e do Executivo e outros temas de fundamental interesse para uma sociedade democrática. Ele observou que embora o Brasil seja um país presidencialista, ele depende do Congresso para governar. “Precisamos de um Congresso representativos da ciência, tecnologia e inovação, assim como assembleias estaduais e municipais comprometidas com essas áreas. O governo que for eleito vai ter que reconstruir o país e temos que ser capazes de chegar ao povo vencendo o negacionismo, ambiental cientifico e ético. A tarefa de vocês não é simples e tem todo o nosso apoio”, acentuou.

A engenheira química Lúcia Melo concordou com Janine e ressaltou: “Quem integra essa bancada da ciência e da educação tem o compromisso com a inclusão social e o desenvolvimento do Brasil.” Ela observou que nosso país é muito grande, “muito rico, mas também muito pobre. É um país que alimenta o mundo, mas tem 30 milhões de pessoas passando fome.”

Referindo-se aos graves problemas que o país vem enfrentando, Melo apontou que o Brasil tinha autonomia em petróleo e na construção de plataformas. “Hoje, duas empresas constroem nossas plataformas de petróleo: uma de Singapura e outra da Coreia”, lamentou. Ela ressaltou ainda que os institutos federais e as universidades precisam ter compromisso e assumir de novo a interiorização do conhecimento, incentivando os arranjos produtivos locais. E defendeu que quem tem experiência acadêmica precisa contribuir com o seu conhecimento para definir quais são as atividades econômicas prioritárias, por exemplo.

“Há uma grande fração de parlamentares que ali estão apenas por interesses pessoais. As negociações, os acordos, são muitas vezes de difícil compreensão e a pressão das forças dominantes será grande. O primeiro ano de vocês será muito difícil”, alertou a pesquisadora. “Vamos torcer para que vocês todos sejam eleitos e que possamos trabalhar juntos. Se essa bancada se consolidar vai ser um grupo no Parlamento que vai fazer uma grande diferença.”

Helena Nader cumprimentou o reitor Edwar Madureira “por ter construído esse ambiente” e reiterou a mensagem de Lúcia Melo: “Não vai ser fácil. Vai ser difícil e agradeço a todos vocês que estão se disponibilizando a colocar a educação e a ciência como prioridade no Congresso Nacional.”

Ela relatou que diversas entidades parceiras que compõem a Iniciativa para a Ciência e Tecnologia no Parlamento (ICTP.Br) têm feito uma aproximação com congressistas que não são cientistas, mas são muito dedicados à causa. “O compromisso a que vocês se propõem é fundamental. Tudo começa com a educação, que gera conhecimento; este se transforma em ciência, que se transforma em tecnologia e em inovação. Rumo à vitória.”

“Tem que ter disposição para fazer campanha”, apontou o ex-ministro de CT&I, o físico Sergio Rezende. Ele relatou que já assumiu cargos políticos, mas sempre como convidado. “Tive sorte, pois trabalhei com dois políticos de alto nível: Miguel Arraes, em nível estadual, e Luiz Inácio Lula da Silva”. Quando cogitaram seu nome, nos últimos anos, para algumas candidaturas, contou que indicou outros três nomes: Ricardo Galvão, Renato Cordeiro e Aldo Zarbin. “Essa crise que se abateu sobre o país tirou vocês do seu conforto e os empurrou para entrar na luta. Um movimento como esse vai ganhar dimensão, porque vai estimular outras pessoas. O próximo governo vai precisar de vocês no congresso para a reconstrução do Brasil com base em ciência e tecnologia.”


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