Os participantes do evento: Roberto Lent, Luisa Massarani, Ricardo Gazzinelli e Jailson Bittencourt.

No dia 21/6, ocorreu a quarta e última edição dos Webinários ABC/CNPq, uma ação conjunta da Academia Brasileira de Ciências e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) para promover a divulgação das realizações do Programa Institutos Nacionais de Ciência, Tecnologia e Inovação (INCTs). Os INCTs são redes nacionais e/ou internacionais de cooperação científica que desenvolvem grandes projetos de pesquisa de longo prazo, de alto impacto científico e de formação de recursos humanos, envolvendo pesquisadores e bolsistas das mais diversas áreas.

Neste último encontro, dois temas foram debatidos: “INCT, Ciência e Sociedade” e “O Futuro é Hoje – Pesquisas de Fronteira”. O primeiro painel contou com a participação da cientista Luisa Massarani (Fiocruz),  dos Acadêmicos Roberto Lent (UFRJ/Rede CpE) e Ricardo Gazzinelli (UFMG/Fiocruz) e foi moderada pelo vice-presidente da ABC, Jailson Bittencourt de Andrade. 

Divulgação científica em tempos de pandemia  

Luisa Massarani, pesquisadora da Fiocruz, apresentou alguns dos recentes desdobramentos do Instituto Nacional de Comunicação Pública da Ciência e Tecnologia (INCT-CPCT), que tem como objetivo investigar, desenvolver, aplicar e testar um conjunto de metodologias, instrumentos e ações relacionados com a divulgação científica que contribuam para a melhoria das atividades nessa área. Massarani é jornalista de ciência e pesquisadora do Núcleo de Estudos da Divulgação Científica do Museu da Vida, da Casa de Oswaldo Cruz da Fundação Oswaldo Cruz, e coordenadora da seção latino-americana do portal SciDev.Net. 

Atualmente, as principais linhas de atuação do CPCT são: pesquisa, formação de recursos humanos e elaboração de atividades práticas de divulgação científica. O público-alvo do curso é extenso, compreendendo desde jovens pesquisadores e mediadores até mestrandos e doutorandos. A formação visa capacitar tais profissionais para a área de comunicação pública em pesquisa e divulgação científica. O projeto conta com mais de 100 pesquisadores do Brasil e de outros países da América Latina, Europa, África e EUA. Os eixos de pesquisa compreendem ciência e mídia, museus de ciência, políticas públicas para popularização de ciência tecnologia e percepção pública da ciência. 

Segundo a jornalista, a divulgação científica existe como campo acadêmico ainda é uma área emergente. “Como área acadêmica ela existe há, no máximo, quatro décadas. Por isso, uma das nossas missões é atuar visando a construção desse campo acadêmico em uma escala global.”  

Antes mesmo da existência do INCT, a Fiocruz já atuava realizando estudos em iniciação científica em âmbito internacional: o primeiro foi realizado em 1987 e, após 2006, passaram a ser realizados periodicamente. “Desde 2019, os estudos ganharam uma nova roupagem, voltado para analisar o que os jovens brasileiros pensam de ciência e tecnologia”, comenta Massarani. Segundo ela, a relação entre jovens e ciência é movida por muito interesse, mas pouco sentimento de pertencimento. “A ciência é vista como algo muito legal e bacana, mas distante da realidade deles”, explica a especialista. “Mesmo assim, o interesse e o respeito pela ciência existem, apesar do pouco conhecimento dos cientistas e da ciência brasileiros.” 

Diante da infodemia que seguiu a pandemia de Sars-Cov-2, Massarani divulgou o projeto de divulgação científica sobre a doença realizado pela Fiocruz. O projeto, que contou com apoio do CNPq, perdurou por quase 2 anos e estimulou a divulgação científica sobre covid-19, tendo atingido mais de 5 milhões de pessoas. O resultado foi um impacto fundamental na disseminação de conteúdo informativo. 

Entre os conteúdos já lançados pelo CPCT, Massarani lista guias práticos para como melhorar a mediação nos museus de ciência e para melhorar a capacitação de cientistas e divulgadores e séries de vídeos no Youtube. “Precisamos claramente criar estratégias para comunicar esse assunto com o público, especialmente com o público jovem, que é quem mais precisa ter acesso à esse conhecimento científico”, decreta a pesquisadora. 

Ciência do cérebro e futuro 

O diretor da ABC Roberto Lent é também fundador da primeira revista de divulgação científica do país, a Ciência Hoje. Para ele, o programa dos INCTs é “uma ponte entre dois mundos”, que liga ciência e sociedade. “É uma ponte que começa na ciência básica e vai até o leito hospitalar, as indústrias, a operação dos robôs”, exemplifica o coordenador do Instituto de Ciências Biológicas da UFRJ. “Essa ponte está ainda em construção. Ela precisa se concentrar em atender as necessidades da sociedade; ou seja, cada grupo necessita de uma série de ações. Gerar conhecimento e retornar para a sociedade, ser capaz de difundir conhecimento, é obrigação das instituições de pesquisa. É preciso propor avaliações para aplicar na prática – isso é algo que se tornou ainda mais notório na pandemia, por exemplo, no caso dos imunizantes.” 

O neurocientista coordena o Instituto Nacional de Neurociência Translacional (INCT-INTT), um dos poucos INCTs que possuem seu próprio programa de pós-graduação. Pioneiro, o Programa de Pós-Graduação em Neurociência Translacional (PGNET) oferece apenas o programa de doutorado, com objetivo de ser o mais exigente possível na formação de recursos humanos qualificados. É sediado no ICB-UFRJ e foi aprovado em 2016 pela Capes com nota 5. Durante seus poucos anos de existência, visou uma intensa internacionalização, propondo colaborações com pesquisadores da França, Alemanha, Espanha e EUA. Atualmente, o projeto conta com 14 orientadores, sendo sete deles pesquisadores 1A do CNPq e 16 alunos. Com apenas seis anos de existência – sendo dois deles de pandemia -, o grupo já conta com 42 artigos científicos produzidos, um número que Lent exibe com orgulho.  

O pesquisador destaca o valor dos INCTs de neurociências para muitas outras áreas que a sociedade nem imagina que são correlatas, como ética, direito, sociologia, artes, psicologia. “A neurociência impacta na arte, nos estudos sobre comportamento e no ensino”, diz o cientista. Para ele, é importante que hajam propostas de INCTs que possam aplicar todas essas áreas de conhecimento sobre o cérebro. “Estamos ainda distantes de definir questões que também se relacionam com a ética, como por exemplo, como definimos a morte do cérebro?” 

Os INCTs das neurociências, de uma forma geral, dividem seus estudos em diversas áreas como, por exemplo, estudo dos efeitos da zika no cérebro, doença de Parkinson, epilepsias e esquizofrenia. Outro assunto que preocupa os pesquisadores da área é a inversão da pirâmide etária e o consequente aumento dos casos de Alzheimer: “Apesar das desigualdades sociais, a pirâmide está se invertendo. O número de idosos está se tornando cada vez maior e com isso, o Alzheimer e outras neuropatologias musculares e cerebrais estão surgindo”, analisa o cientista. Segundo Lent, o Mal de Alzheimer é hoje uma das principais fontes de incapacitação dos indivíduos – muitas vezes, precocemente – e é um problema de saúde emergente em inúmeros países, incluindo o Brasil. O especialista espera que, no futuro, os INCTs sejam capazes de determinar biomarcadores para Alzheimer e, assim, desenvolvere tratamentos inovadores para a doença. 

Lent concluiu sua apresentação afirmando que é uma urgência associar os INCTs de neurociência à outros temas essenciais para a sociedade, aumentando a atuação social da pesquisa na área e seu potencial de enriquecimento para o país. “A mensagem final que eu deixo é: temos INCTs de grande potência e valor na área, mas precisamos ter ainda mais destaque, por conta da importância desse assunto. A ciência do cérebro estuda o amanhã e, principalmente, o futuro dos cidadãos”, finaliza o especialista. 

 INCTs e produção de vacinas 

O Acadêmico Ricardo Gazzinelli apresentou o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Vacinas (INCTV), coordenado por ele em parceria com Maurício Rodrigues (Unifesp). A principal missão do Instituto é atuar no desenvolvimento de vacinas contra doenças infecciosas, dando prioridade àquelas que têm sido negligenciadas pela indústria farmacêutica. Um dos objetivos é contribuir para a pesquisa básica e tecnológica nas áreas de imunologia e vacinas num patamar internacional. O projeto foi oficializado como INCT em 2009 e mantém uma relação com outros INCTs da área de saúde, especialmente com o INCT de Investigação em Imunologia (INCT-III) e o INCT de Doenças Tropicais (INCT-DT). 

Atualmente, o grupo conta com cerca de 30 pesquisadores e tem como prioridade a formação de recursos humanos. Gazzinelli aponta que as principais áreas de atuação do programa de pesquisa são doenças infecciosas e imunologia, assim como tecnologia e desenvolvimento de vacinas. O conteúdo produzido pelo grupo é de alta relevância, com destaque para o artigo sobre o papel dos inflamozamas na covid-19 e também a LeishTech, vacina recombinante para prevenção de leishmaniose visceral canina, há mais de dez anos no mercado. “Esses são alguns dos exemplos de trabalhos que deram muito certo, servindo de modelo de como a interação da academia com o setor privado podem funcionar”, comenta o professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

O pesquisador apresentou também o Centro de Tecnologia de Vacinas (CTVacinas), resultado de iniciativas conduzidas por pesquisadores da UFMG e Fiocruz ligados ao INCT-Vacinas. O grupo conta com apoio do Rede Vírus do MCTI e já produziu um alto retorno para a sociedade, como testes de diagnóstico prototipados e a idealização de uma vacina contra covid-19 totalmente nacional, a SpinTec, que promete induzir proteção contra as variantes delta e ômicron. Os lançamentos futuros esperados pelo Acadêmico incluem imunizantes em estágio de produção e boas práticas de laboratórios contra a malária, leishmaniose humana e doença de Chagas.  


Assista à gravação completa do evento.