O destaque agropecuário brasileiro esconde uma falta de autossuficiência perigosa. Cerca de 85% dos fertilizantes usados no país são importados, resultado de uma tendência de crescimento que já dura três décadas. Essa dependência externa expõe o Brasil às flutuações – comuns nesse mercado – e a crises internacionais. O preço de aditivos está em alta desde o ano passado, e a guerra na Ucrânia cria um sério risco de desabastecimento.

Mariangela Hungria, membro titular da ABC.

Em meio a esse cenário, uma oportunidade surge para o uso de insumos biológicos. O Brasil já é liderança mundial em aplicação de microorganismos na agricultura, graças a um século de pesquisas na área. Apesar de ainda representarem uma parcela minoritária dos aditivos utilizados, o mercado de bioinsumos no país cresce cerca de 30% ao ano.

Para debater esse assunto, a Academia Brasileira de Ciências (ABC) convidou para o webinário “Fertilizantes e Bioinsumos para a produção de alimentos no Brasil” a engenheira agrônoma Amália Piazentim Borsari, diretora de Biológicos da CropLife Brasil; o agrônomo José Carlos Polidoro, pesquisador da Embrapa Solos; a engenheira agrônoma e membro titular da ABC Mariangela Hungria, pesquisadora da Embrapa Soja; e o ex-ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (2003 – 2006), Roberto Rodrigues, Coordenador do Centro de Agronegócio da Fundação Getulio Vargas (FGV).

 

Roberto Rodrigues, ex-ministro da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

Futuro da agropecuária

As projeções para o futuro do planeta indicam que os desafios da agropecuária brasileira serão ainda maiores. Até 2050, estima-se que a população mundial atingirá 10 bilhões de pessoas, o que demandará um aumento de 50% na produção de comida. Como muitos países não são autossuficientes nessa área, isso significa um crescimento ainda maior do que a média em grandes produtores. “Para que em 10 anos a produção mundial cresça 20%, o Brasil terá que crescer 40%”, afirmou Roberto Rodrigues durante o evento.

Além disso, a mais recente avaliação do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC, da sigla em inglês) alerta que o aquecimento global deve causar perdas consideráveis na agropecuária, sobretudo em regiões tropicais. Segundo o relatório, a produção brasileira de milho e soja deve sofrer uma queda superior a 30%, e a quantidade de terras aráveis per capita no mundo diminuirá em 20%. Diante dessa situação, soluções inovadoras e sustentáveis se tornam cruciais. “A modernização da agricultura passa por otimizar tecnologias, sistemas de produção e gestão, e processos distributivos”, avaliou Amália Borsari.

Amália Borsari, Diretora de Biológicos da CropLife Brasil.

Agroquímicos x biológicos

Apesar de possuir pesquisa de ponta na área de bioinsumos há décadas, a produção agropecuária brasileira sempre dependeu mais de fertilizantes químicos. Até hoje existe a percepção entre agricultores de que aditivos biológicos são de menor qualidade e eficácia nos cultivares tradicionais. “No passado, o biológico era pra ser combatido, atitude estimulada pela indústria de químicos”, disse Borsari.

Entretanto, isso vem mudando nas últimas décadas. Investimentos em inovação permitiram ao setor crescer num ritmo mais acelerado que o da indústria química, gerando produtos cada vez mais tecnológicos. Os números também mostram que a resistência dos produtores está diminuindo. “Estamos entrando na terceira geração de biológicos”, acrescentou a palestrante.

Para ilustrar esse desenvolvimento, a Acadêmica Mariangela Hungria falou sobre casos brasileiros de sucesso. “Um bom exemplo é o nitrogênio, que no Brasil é 90% importado, tem uma eficiência de absorção pelas plantas de, no máximo, 50%, e o resto é perdido para o ambiente”. Algumas bactérias, porém, conseguem capturar esse elemento do ar e transformar em amônia para as plantas. Esse processo é tão eficiente que os genes envolvidos foram transportados para outros procariontes, de forma a serem usados em associação a outras plantas. “Isso é o que torna a soja brasileira a mais competitiva do mundo”, explicou Hungria.

A pesquisadora avaliou também que a agricultura brasileira ainda desperdiça muitos recursos com adubação química em plantas que não precisam. “Existe um pensamento entre agricultores de colocar ‘só’ 30 kg de nitrogênio na soja para dar um arranque, mas isso é antiquado, não precisa”, exemplificou, citando também a combinação de microorganismos e a reinoculação como inovações pensadas pela pesquisa agropecuária brasileira.

José Carlos Polidoro, pesquisador da Embrapa Solos.

Uma estratégia nacional para fertilizantes

No dia 11 de março, o Brasil lançou oficialmente o novo Plano Nacional de Fertilizantes e Nutrição de Plantas, que planeja o desenvolvimento do setor até 2050 com o objetivo de reduzir a dependência externa. O agrônomo José Carlos Polidoro fez parte do grupo de trabalho interministerial que elaborou o Plano, e apresentou um pouco mais de seu conteúdo.

A estratégia se sustenta em cinco pilares: adequar a infraestrutura para integrar polos de produção; aumentar investimento em pesquisa e inovação; reativar e modernizar projetos existentes; melhorar o ambiente de negócios; e criar vantagens competitivas com insumos verdadeiramente tropicais. “O Brasil precisa diminuir o subsídio a insumos importados, temos uma longa história de projetos descontinuados nessa área, o que nos coloca na insegurança atual”, lembrou o palestrante.

O documento também sugere ações imediatas, como incluir fósforo e potássio na lista de minerais estratégicos, alocação de uma parte do FNDCT em pesquisas com aditivos rurais e programas de aproximação com agricultores, como a Caravana FertBrasil, que, nas palavras de Polidoro, ensina “como, quando, onde e porquê adotar cada fertilizante”. Outra decisão foi a criação de um Conselho Nacional de Fertilizantes, com técnicos representando os setores público e privado.

Outras preocupações para a agropecuária

Mas nem só a insumos se resume o desenvolvimento do agro brasileiro. Segundo o ex-ministro Roberto Rodrigues, os avanços que o setor obteve nas últimas décadas ainda podem ser maximizados em diversas áreas, sobretudo em segurança e infraestrutura para os produtores. “Na década de 70, o Brasil enviou muitos agricultores para o Centro-Oeste num grande plano de governo, mas a infraestrutura chegou em menor grau”.

Além da infraestrutura física, Rodrigues defende também uma infraestrutura burocrática que dê mais segurança jurídica aos agricultores, com simplificação tributária e uma política de renda que inclua seguro rural, crédito para tecnologia e preços de garantia. O palestrante defendeu também a integração de pequenos produtores em cooperativas. “Atualmente, temos 5 milhões de produtores no Brasil e apenas 1 milhão está no mercado. Precisamos organizar os 4 milhões restantes e trazê-los para esse circuito”, avaliou.

O ex-ministro terminou analisando a importância que o tema da segurança alimentar deve ganhar nos próximos anos e sugerindo que o Brasil dialogue mais com o exterior. Além de mais acordos comerciais e avanços diplomáticos, Rodrigues entende que o país precisa recuperar sua imagem e, para isso, é preciso combater ilegalidades. “O Brasil precisa se desenvolver tendo o alimento como ponto central”, finalizou.

Assista ao webinário completo no YouTube da ABC:

 

Repercussão na mídia:

Agrolink – Bioinsumos e fertilizantes foram debatidos na Academia Brasileira de Ciências