Em mesa-redonda promovida pela Academia Brasileira de Ciências (ABC) no dia 15 de outubro, intitulada “Qual o impacto dos cortes em C&T e Educação para o Brasil e, em particular, para a Amazônia?”, o debate abrangeu mais do que excelentes análises do cenário atual

Coordenado pelo vice-presidente da ABC para a Região Norte, Adalberto Val (biólogo e pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – Inpa), que convidou para responder à pergunta-título Emmanuel Tourinho (reitor da Universidade Federal do Pará – UFPA), Sanderson de Oliveira (professor de linguística da Universidade Federal do Amazonas – Ufam), Camila Ribas (curadora da Coleção de Recursos Genéticos e vice-curadora da Coleção de Aves do Inpa) e Alfredo Lopes (escritor e filósofo, com 11 livros sobre a Amazônia e mais de 2 mil ensaios publicados), o evento foi bastante propositivo.

Pensando em como enfrentar a situação atual, Camila Ribas e Alfredo Lopes apresentaram propostas bem objetivas. 

Pesquisa nas instituições públicas precisa buscar novas parcerias, com novas regras

Ribas destacou que a pesquisa acadêmica pode se tornar mais transversal e buscar parcerias com setores do governo federal capazes de resistir à destruição da Amazônia, como o Ministério Público e órgãos ambientais.

“Podemos incluir, capacitar e apoiar setores da sociedade que também estão resistindo, como ONGs e organizações de populações tradicionais e indígenas, que lutam contra o desmatamento em suas terras”, sugeriu Ribas.

Ela aponta que essas populações tradicionais precisam se apropriar dos modos de avaliação de impacto ambiental reconhecidos pelo sistema governamental vigente. “Isso lhes dará argumentos quantitativos para mensurar e denunciar os impactos e também para poder interpretar previamente as ameaças ao seu território”, explicou a bióloga.

Ribas propôs também que não se repliquem dentro do Brasil relações colonialistas que estão sendo combatidas na ciência mundial.

“É preciso desenvolver e fixar ciência na Amazônia para protegê-la, e para isso talvez haja necessidade de financiamento a grupos ou PPGs locais com recursos provenientes de outros estados, com menos protecionismo e mais colaboração”, observou. “

Claro que colaborações são necessárias e que pesquisas feitas por instituições de fora da região são importantes, mas as colaborações precisam incluir ações efetivas de desenvolvimento da ciência local”, apontou Ribas.

No caso de colaborações internacionais, ela deixou clara a necessidade de inversão da lógica colonialista vigente.

“É preciso que os pesquisadores locais sejam os coordenadores dos projetos e que o material e os resultados beneficiem diretamente as instituições e cursos de graduação e pós graduação locais. Pode haver apoio externo aos PPGs Amazônicos em forma de doações, por exemplo, sem levar os discentes e o conhecimento embora.”

Por fim, Camila Ribas ressaltou que a comunidade acadêmica está aprendendo a duras penas que não é possível negociar com administrações e governos que não honram acordos.

“Temos que trabalhar em conjunto para mudar essas administrações e governos o mais rápido possível, bem como não retornar a um sistema de privilégios que historicamente exclui as instituições amazônicas. O futuro da Amazônia depende, como nunca, de um posicionamento forte dos pesquisadores e instituições de pesquisa, em um esforço mais coletivo.”

Amazônia precisa usar a Constituição a seu favor

Alfredo Lopes apreciou as iniciativas sugeridas por Camila Ribas e acrescentou contribuições. Explicou que pelo fato de o Amazonas ter uma economia baseada no Pólo Industrial de Manaus, o estado está em 5º lugar na lista dos Estados que mais recolhem impostos para a União, informação disponível no portal da Receita Federal. A Constituição prevê, no Artigo 146, que esses recursos sejam aplicados na região de origem.

Lopes relatou que há um projeto coordenado pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), em parceria com estados da região, para criar um Conselho Amazônico que assegure que essa aplicação regional dos recursos. “Temos que usar esses milhões de reais com ênfase na qualificação de recursos humanos e na implantação de institutos de pesquisa, desenvolvimento e inovação. Essa é a nossa saída”, apontou Lopes. Para tanto, segundo ele, será preciso mobilizar a bancada federal, criar uma bancada amazônica e defender que esses recursos vão para infraestrutura e para o desenvolvimento de uma bioeconomia sustentável.

Parcerias com indústrias do Pólo Industrial de Manaus

Lopes destacou mais uma iniciativa importante para integrar o protocolo de ação: a academia precisa interagir mais com a indústria local. “Para conseguir apoio da indústria, podemos oferecer em troca pesquisas de interesse deles. Podemos criar ração para tambaquis, que só comem frutas. Criar resinas, soluções cosméticas, energéticas etc. que sejam soluções para eles, que passariam então a financiar as pesquisas. Isso deveria ser prioridade absoluta”, afirmou Lopes. 

Os conhecimentos sobre a região amazônica já existentes e os que estão em construção dariam ao Brasil ou a qualquer nação civilizada e séria do planeta a oportunidade a um dar uma virada na história da humanidade”, diz Lopes. Ele ressalta: “A chave da compreensão da vida, da evolução, está aqui na Amazônia. Isso não sou eu que digo. Alfred Russell Wallace, [naturalista, geógrafo, antropólogo e biólogo britânico do séc. XIX] o pesquisador viajante, é que dizia.”

 

Qual o impacto dos cortes em CTI&E para o Brasil e, em particular, para a Amazônia?