Por ser um país com grande área agricultável, condições climáticas favoráveis e com a demanda mundial por alimento, a pressão pelo aumento da produção de alimentos no Brasil deverá crescer nos próximos anos. Em função disso, a prática adotada é desmatar para plantar alimentos e usar química para produzir mais. Assim, o país se tornou o maior consumidor de pesticidas do mundo. “Não se pensa no impacto desses produtos sobre os recursos hídricos”, observou Odete Rocha, professora do Departamento de Ecologia e Biologia Evolutiva da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar).
Odete destacou que muitos cânceres, hoje em dia, são causados pela água. “As cianotoxinas que ingerimos todos os dias causam danos circulatórios e cardíacos”, alertou. A bióloga defendeu o estímulo a pesquisas relacionadas à conservação de sistemas naturais, proteção de mananciais e água de qualidade. “A Alemanha e o Japão estão restaurando seus mananciais e nascentes, protegendo a água. Se preservarmos, o custo do tratamento diminui muito”. (O Tundisi tem números interessantes sobre o aumento do custo do tratamento em função da poluição) Ela explicou que, em outros países, as pesquisas são encomendadas. “Redes de monitoramento, planejamento, geração de bancos de dados; sabemos fazer tudo isso e podemos fazer, se houver incentivo.”
A pesquisa em biorremediação é muito importante para o país, por causa dos lixões e dos resíduos industriais.”Temos que avançar na recuperação dos ecossistemas. Sabemos fazer o diagnóstico, mas temos que dar soluções para os problemas”, disse o presidente do Instituto Internacional de Ecologia e Acadêmico José Tundisi, coordenador do evento.
Poucos fazendo muito
Tundisi avalia que a área de recursos hídricos gera um volume enorme de informação. “Mas a maioria dos profissionais brasileiros faz análise, muito poucos fazem síntese. Não existe no Brasil a cultura de síntese e isso está diretamente relacionado à visão sistêmica”. Ele alertou para a sobrecarga das lideranças. “Não conseguimos dar conta da carga burocrática nas universidades, da produção científica, das prestações de contas…”, relatou.

Estabelecer referências e padrões para o reuso da água é outro campo que precisa ser mais estudado. “No Brasil, as hortaliças são plantadas em áreas urbanas, irrigadas com água de rios poluídos. A Vigilância Sanitária diz que não há problema nisso, que basta lavar a hortaliça… mas com que água? E qual é o impacto disso na saúde humana?”, perguntou Tundisi. O Acadêmico contou que a cidade paulista de Franca está comprando esgoto doméstico das cidades vizinhas e conduzindo um projeto para tratá-lo. “Eles fazem a extração de fósforo, a esterilização e reusam.”
Diferenças regionais, problemas iguais
Embora as desigualdades regionais sejam acentuadas em termos de infraestrutura de pesquisa, para o Acadêmico Luiz Drude de Lacerda, da Universidade Federal do Ceará (UFC) os problemas são iguais. “Os contaminantes são os mesmos, normalmente ligados às indústrias”, explica. A problemática do Nordeste, segundo ele, é mais relacionada a quantidade de água do que à qualidade. “No Nordeste não há equipamentos sofisticados, então a pesquisa não tem como evoluir”. Quando alguma situação requer um especialista em qualidade, não há ninguém para indicar. “E aí constroem fazendas de camarão em locais sem tratamento de esgoto, por exemplo, e morrem todos. O prejuízo pela falta de informação sobre qualidade de água é grande.”
Na região Norte, realmente, são poucos os grupos de pesquisa em recursos hídricos, segundo Hillândia da Cunha, pesquisadora do Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia. “Mas entre esses poucos há alguns de excelência, como o grupo do Adalberto Val [diretor do INPA e vice-presidente regional da ABC]. O INPA, inclusive, abriga quatro INCTs”. Hillândia aponta problemas na distribuição de verba. “Deveria haver editais específicos para montar laboratórios na Amazônia. Os grupos da região só conseguem verba se tiverem parceria com grupos do Sul e Sudeste. No entanto, é uma região estratégica, que precisa de incentivo na pesquisa em recursos hídricos.”

Punir o errado, mas recompensar o certo
Para Eduardo Mediondo, engenheiro de recursos hídricos do Departamento de Hidráulica e Saneamento da Universidade de São Paulo (USP), é preciso desenvolver linhas de pesquisa interdisciplinares sobre valoração dos serviços ambientais, inclusive a água. “Temos que incentivar quem faz certo e multar quem faz errado”. Ivanildo Hespanhol, da Escola Politécnica da USP, concorda. “Quem pratica reuso deveria ter redução de tarifas, para incentivar. É preciso oferecer água segura, que vai além da potável”.
O pesquisador da Embrapa Silvio Crestana fez coro a essa proposta. “Quais são as boas práticas agrícolas que conservam e até produzem água? Não há estímulo a quem faz certo, só a punição para quem faz errado. Tem que premiar quem acerta”. Em sua opinião, a pior situação está em Mato Grosso, Tocantins, Maranhão e Piauí, que formam o novo corredor de desenvolvimento do país e onde há grandes companhias se instalando, como a Vale.”Vai ser uma região de grande estresse hídrico, em função desse crescimento.”
Linha de pesquisa prioritárias
O Brasil tem apenas 6% de sua área plantada irrigada, de acordo com o professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP) Marcos Folegatti. “É preciso cuidar da gestão dessas áreas. O que está nos faltando para o desenvolvimento dessa atividade? Trabalhamos com irrigação plena no Nordeste e irrigação complementar no Sudeste. Falta desenvolver irrigação com déficit [quando se planeja atender somente uma fração da demanda hídrica da cultura]. Esta área ainda está fraca.”
Segundo o Acadêmico Luiz Martinelli, do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (CENA-USP), há expertise em toda as áreas, mas são poucos. Precisamos multiplicar essas ilhas que temos. Só há deficiência realmente em Oceanografia Química.”

Para o pesquisador Fernando Spilki, da Universidade Feevale, no Rio Grande do Sul, falta pesquisa na área de novos poluentes e até de poluentes tradicionais. “Precisamos desenvolver conhecimento na área de microorganismos, sobre doenças de veiculação hídrica através de vírus, bactérias, protozoários e fungos. Outra área fundamental é a microbiologia ambiental. “Temos que entender a capacidade que os microorganismos têm de regular o ambiente, como base real da cadeia trófica e parte da dinâmica de nutrientes.”
Em relação a novas tecnologias para garantir a qualidade da água, o pessquisador e professor da Escola Politécnica da USP Ivanildo Hespanhol referiu-se à fabricação de membranas. “O Brasil não fabrica membranas. A Coppe já tem tecnologia, mas ainda não entrou no mercado, porque o custo é ainda muito alto. Reusos não potáveis têm demanda muito grande. Precisamos desenvolver pesquisa para isso”.
Normas e laboratórios de referência
Hespanhol apontou a demanda pela definição de normas que sejam aceitáveis do ponto de vista técnico, econômico e cultural. Para dar suporte a novas normas, foi destacada a necessidade de laboratórios de referência, como o Inmetro. O desenvolvimento de equipamentos sanitários – torneiras, chuveiros, máquinas de lavar – que utilizem menos água ainda foi ressaltado no debate.
Há demanda também por inventário de cargas. O Acadêmico Luiz Drude relatou que em um pequeno inventário feito por pesquisadores da UFC em rios do Nordeste foram encontradas cargas antrópicas em nível dez vezes maior do que o desejável. “Falta inventário de cargas: quanto de fósforo entra na bacia tal? Não se sabe. Só se mede a quantidade existente naquele momento, não são feitas estimativas. O fator de emissão de cobre e mercúrio em fazendas de camarão, por exemplo, é imensa.”
O impacto da urbanização sobre os recursos hídricos
Para Crestana, a recuperação de áreas com recursos hídricos degradados deveria ocorrer de forma semelhante à que ocorre na agricultura. “Temos que desenvolver e avaliar sistemas de produção sustentáveis do ponto de vista dos recursos hídricos. Isso requer avaliação econômica, social e ambiental, não só técnica.”

Segundo Hirata, várias áreas do país estão contaminadas por substâncias oriundas de indústrias e atividades que nem existem mais. “Nessas áreas, tem que ser feita remediação de aqüíferos e de solos. Os novos solventes e os microorganismos de fauna de solos têm que ser tratados com biotecnologia. É um mercado gigantesco: só em São Paulo há três mil áreas comprovadamente contaminadas e 100 mil potenciais áreas de contaminação.”
Nessa questão, Patrícia Seppe identifica a necessidade de que se trabalhe de forma mais integrada com a área da saúde. “Em outras questões também é necessária essa interação, mas o pessoal da área de saúde é muito refratário a análises de risco.”
Dificuldades de comunicação

Ela destaca que existem grupos de pesquisa que implantam Biologia Molecular em saneamento. “Temos massa crítica nas áreas tradicionais e existe pesquisa de ponta. O que falta é comunicação”. O professor da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq-USP), Renato Ciminelli, concorda que o caminho é a interlocução. “Reunir a problemática da hidrologia agrícola e hidrologia urbana é fundamental. Para tanto, a melhor coisa seria termos bacias experimentais.”