
A abertura do workshop Scientific Issues on Biofuels, realizado na sede da FAPESP, em São Paulo, nos dias 24 e 25 de maio de 2010, foi conduzida pelo diretor-científico da Fapesp e Acadêmico Carlos Henrique de Brito Cruz e pelo presidente da ABC, Jacob Palis. O evento foi patrocinado pela FAPESP, pela ABC e pelo Inter Academy Council (IAC).
Ciência na produção de bioenergia sustentável
O tema específico da ciência para a produção de bioenergia sustentável foi tratado na primeira Sessão - conduzida pelo engenheiro especializado em Economia da Energia Luiz Augusto Horta Nogueira, da Universidade Federal de Itajubá (Unifei), em Minas Gerais, - tanto pelos Acadêmicos Cylon Gonçalves e Brito Cruz, ambos da FAPESP, como pelo microbiologista Emile van Zyl, da Universidade de Stellenbosch, na África do Sul.
Para Cylon, a energia solar é certamente a melhor solução, mas ainda requer muita pesquisa para se tornar uma alternativa viável. "No momento, os biocombustíveis são a melhor opção e assim será por ainda algum tempo. Por isso, vamos trabalhar para melhorá-los."
Segundo Brito Cruz, 46% da energia utilizada no Brasil vem de fontes renováveis. A ampliação do plantio de cana no país vem ocorrendo no Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste. "Há muita terra para ser utilizada no país sem ameaçar a segurança alimentar nem a Amazônia. O zoneamento agroecológico de São Paulo, por exemplo, prevê a expansão principalmente em áreas degradadas por pastagens."
Ele abordou também o aspecto social, informando que a cultura da cana absorve 23% dos trabalhadores rurais brasileiros. "É uma atividade extremamente dura e desgastante, exercida por pessoas com em torno de quatro anos de escolaridade. Mas essa população investe na escolaridade dos filhos, de modo a garantir para eles um futuro melhor, fora dos canaviais". Embora na agricultura de modo geral apenas 40% dos trabalhadores tenham sua situação trabalhista regularizada, entre os trabalhadores de canaviais a regularização atinge 81%, sendo que no estado de São Paulo chega a 95%, de acordo com os dads apresentdos por Brito Cruz.
O pesquisador afirmou que o Brasil e a África tem terras suficientes e podem melhorar a produção de biocombustíveis utilizando mais C&T, e essa é uma perspectiva que pode garantir o crescimento, o desenvolvimento e a inclusão social. "O desenvolvimento das pesquisas pode tornar essa alternativa viável também para países com pouca área agricultável", concluiu o pesquisador.
A mudança para os recursos renováveis, de acordo com a relatora Kim Meulenbroecks - secretária-executiva da Global Renewables Research (GBR Society), sediada na Holanda -, se justifica em função de algumas necessidades urgentes: de desenvolvimento econômico rural, de segurança energética e de redução das emissões de gases estufa.
Os biocombustíveis foram comparados a outros recursos energéticos renováveis, como as energias eólica, solar e do hidrogênio. "A avaliação dos especialistas foi que os investimentos iniciais requerido para as outras fontes de energia é maior, que os primeiros anos de implantação apresentam um balanço negativo e que 50% dos meios de transporte não poderiam trocar sua fonte de energia por outro recurso que não os biocombustíveis", disse Kim. A questão fundamental, segundo a relatora, "não é se os biocombustíveis são sustentáveis, mas como eles serão implementados". A preocupação envolve o possível impacto das mudanças de uso do solo, que podem ser limitadas por diversos fatores.
A ciência da bioenergia e sua relação com o meio ambiente
A segunda Sessão, conduzida pelo engenheiro aeronáutico Manoel Regis Leal, do Laboratório Nacional de C&T em Bioetanol (CBTE), em Campinas, foi iniciada com a palestra do presidente do CNPq, Carlos Alberto Aragão de Carvalho, que falou sobre a certificação ambiental dos biocombustíveis, representando o Inmetro.
Em seguida, a bióloga Patrícia Osseweijer, da Delft University of Technology, na Holanda, abordou as quentões européias sobre a bioenergia sustentável. Patrícia destacou as prioridades européias, que seriam o direito humano à disponibilidade, acessibilidade e qualidade do alimento, assim como a equidade global na distribuição desse alimento. Apontou também a necessidade de ampliar a participação da sociedade no desenho das políticas de produção agrícola, visando a mudança de hábitos alimentares que garantam menor desperdício de alimento e uma alimentação mais saudável, além de aumentar o conhecimento da população a respeito de métodos e tecnologias agrícolas. Alguns pontos básicos devem ser esclarecidos com urgência, como o conceito de sustentabilidade e a conscientização da sociedade de que a responsabilidade individual é crucial para que o nosso planeta sobreviva."
O bioquímico Jeremy Woods, do Imperial College of London, no Reino Unido, tratou da Ciência da bioenergia. Comparando a Europa com a África, mostrou que as prioridades com relação à sustentabilidade são diferentes para cada continente. Com relação aos resultados das pesquisas na área, avaliou que "é muito mais importante que eles estejam aproximadamente certos do que precisamente errados."
O químico agrícola inglês radicado no Brasil Robert Boddey, da Embrapa Seropédica, no Rio de Janeiro, discorreu sobre o impacto do bioetanol brasileiro e de outros biocombustíveis na mitigação das emissões de gases estufa. Boddey afirmou que o uso do bioetanol brasileiro nos transportes promove uma redução de 84% na emissão de gases estufa, comparado com a gasolina. A mecanização da lavoura de cana reduz as emissões em 64%, assim como diminui a fumaça e, consequentemente, os problemas de saúde dos trabalhadores, além de poupar a superfície do solo, reduzir a erosão e evaporação.
A relatora Helena Chum, do National Renewable Energy Laboratory, nos EUA, apontou os destaques da segunda Sessão. Ela avaliou que a produtividade da cana de açúcar foi o principal parâmetro considerado, e que seu incremento só pode ser solucionado através de C&T. Foi destacada a expressiva redução nas emissões de gases estufa com a utilização do bioetanol no Brasil. "A pergunta é se essa mesma tecnologia pode se adequar e ser utilizada em outros países".
Outro ponto destacado por Chum foi a constatação dos especialistas de que os modelos estão sendo aperfeiçoados e que são ferramentas para compreender as possíveis respostas do sistema de uso do solo. "Esse sistema envolve a agricultura, a bioenergia, a floresta e os serviços ambientais", esclareceu a relatora, ressaltando a avaliação dos palestrantes de que múltiplos cenários devem ser testados com múltiplos modelos. Fechando seu resumo, Helena Chum reforçou um consenso entre os apresentadores: cada país pode requerer soluções energéticas diferentes para alcançar os mesmos objetivos, que incluem a mitigação das mudanças climáticas, o desenvolvimento rural e industrial, a diversificação e a segurança energética e a igualdade social.
Sustentabilidade dos biocombustíveis
A terceira Sessão foi presidida pelo cientista do solo Johan Bouma, da Royal Netherlands Academy of Arts and Sciences (KNAW) e contou com palestras do engenheiro Joaquim Seabra, do CTBE; do químico Pushpito Ghosh, do Central Salt & Marine Chemicals Research Institute, nos EUA; do agrônomo Heitor Cantarella, do Instituto Agronômico de Campinas e da economista Leila Harfuch, do Instituto de Comércio e Negociação Internacional (Icone), em São Paulo.
Ghosh remeteu-se a outras fontes pesquisadas na Índia para a energia renovável. Como a terra disponível para plantio é pouca, tem sido experimentado o uso da Jatropha (pinhão branco) que pode ser plantada em terras áridas para produzir biodiesel, sem conflito com a produção de alimentos. Já a energia gerada a partir de algas kappaphycus, segundo suas pesquisas, pode ser uma boa opção para países costeiros, reduzindo a pressão sobre a terra e dispensando uso de água doce, fertilizantes ou pesticidas.
O relator dessa sessão foi o engenheiro mexicano Fabio Manzini-Poli, da Universidade Autônoma do México, que resumiu a Sessão. Ele identificou os principais aspectos considerados em relação à sustentabilidade dos biocombustíveis: as emissões de gases estufa, a mudança no uso da terra, o sequestro de carbono, as práticas de fertilização e as questões comerciais e econômicas. Poli destacou avaliações internacionais que constataram a eficiência do etanol brasileiro na mitigação do efeito estufa e ressaltou que esse resultado deve ser levado em conta pelos elaboradores das políticas públicas até 2020.
Poli referiu-se às experiências relatadas pelo palestrante indiano, que não têm como atingir grande escala de produção, mas que se adaptam bem às condições locais. "O importante é conseguir um equilíbrio entre os interesses sociais, ambientais e econômicos". Para tanto, o aumento da produção de cana de açúcar no Brasil deve ocupar áreas de pastagens e substituir eventualmente outras culturas, mas de forma alguma ocupar áreas de florestas.
As palestras do físico e Acadêmico José Goldemberg, sobre bioenergia no Brasil, do engenheiro ambiental Lee Lynd, do Dartmouth College, no Reino Unido, que abordou a conciliação da produção de bioenergia em larga escala com a demanda competitiva, e do canadense Howard Alper, da Universidade de Ottawa, sobre o papel e responsabilidades das Academias, dos Conselhos Consultivos e dos Governos na construção de sociedades bem sucedidas através de C, T&I serão relatadas em próximas edições das Notícias da ABC.
Veja abaixo as apresentações que foram mostradas no evento.