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História
 

Henrique Charles Morize - Palavras do Dr. Alix de Lemos

"Minhas Senhoras e meus Senhores. Quis a Academia Brasileira de Ciências que ao discípulo e amigo de menor valor, coubesse a tarefa de vir perante vós dissertar sobre a obra, vultuosa e fecunda, realizada pelo Prof. Henrique Morize no domínio da Astronomia e da Geofísica. Obedecemos a esse imperativo e tentaremos focalizar, embora imprecisamente, os pontos culminantes da vida científica do saudoso Mestre - vida que se iniciou quando em 1885, ingressou após brilhante concurso para o quadro dos astrônomos Imperiais e no qual ascendia, exclusivamente, pelo devotamento ao estudo, pela disciplina no trabalho, e por excepcionais predicados de inteligência e de caráter, ao elevado posto de 1º astrônomo do Observatório Imperial, em cujos Anais publicava, quatro anos após, duas memórias notáveis: a primeira sobre observações de cometas e a segunda sobre um método para calcular as fases de um eclipse. Em 1893, coube-lhe chefiar a comissão de astrônomos patrícios, enviada a um recanto longínquo do Ceará para observar um eclipse solar. E coincidência feliz, nessa ocasião conheceu senhorita cearense de excelsas virtudes, que seria mais tarde e por longos anos a esposa dedicada, a alma tutelar da família que permitiria que o chefe extremoso se absorvesse por completo no ideal da Ciência. Mas, prossigamos. De 1893 a 1895, o astrônomo, já consagrado, fazia parte da comissão chefiada por Luiz Cruls, outro sábio ilustre, e encarregado da delimitação da Zona do Planalto Central de Goiás, destinada á futura capital da República. Pouco após o seu regresso, conquistava após memorável concurso a Cátedra de Física Experimental da nossa Escola Politécnica - acontecimento que naturalmente orientaria as suas pesquisas para o domínio das Ciências gêmeas da Astronomia - a Astrofísica e a Geofísica tornando-se da última o pioneiro e representante máximo entre nós. E com efeito, em 1905, ainda nos primórdios da Sismologia, instalava o Mestre, no Observatório do Castelo, os pêndulos de Ehlert, que lhe permitiriam registrar sismos e pesquisar os desvios aparentes da vertical no Rio, enfeixando as suas observações em magistral monografia que assim se pode resumir: - submetida à irradiação térmica do Sol, a crosta terrestre se intumesce, e essa intumescência, ou deformação, acompanhando o astro radioso no seu curso diurno, imprime ao centro da massa de sismógrafo sensível, oscilações parasitas, ou desvios aparentes, que mascaram os que proviriam da ação gravitativa luni-solar sobre o núcleo semi-rígido da Terra - oscilações estas previstas por Kelvin e Darwin e experimentalmente evidenciadas por Hecker, de Potsdam. Inaugurou ainda, em 1908, o estudo das variações do potencial elétrico da atmosfera, no Rio, publicando em revista norte americana artigo notável sobre o assunto. Em 1910, então Diretor da Diretoria de Meteorologia e Astronomia, projetava e organizava detalhadamente a primeira "rede meteorológica brasileira" e fazia ainda, alguns anos mais tarde, o estudo climográfico das observações colhidas em magistral monografia, publicada no Dicionário do Instituto Histórico e Geográfico, sob o modesto título de "Contribuição ao estudo do clima do Brasil". E ainda mais, sob a sua direção, estabelecia-se em 1914, o estudo das variações periódicas e seculares do campo magnético terrestre, em observatório anexo situado em Vassouras. Em 1910, por ocasião do célebre eclipse solar que devia confirmar ou invalidar a teoria da gravitação de Einstein, volvia o Mestre ao Ceará, chefiando a Comissão brasileira que iria a Sobral reunir-se à inglesa chefiada por Cromelin.
As fotografias das protuberâncias e coroa, então obtidas pelos astrônomos patrícios são de rara beleza. De volta dessa Comissão, conseguiu ainda realizar a sua máxima aspiração a de promover a instalação e inauguração do novo observatório recentemente construído; e cujo equipamento rivalizava então com o da maioria dos observatórios mundiais; e no qual, a partir de 1921, orientou observações e pesquisas, que colaboradores devotados realizam com abnegação e proficiência - são discípulos que dignificam a memória do Mestre. E aqui nos deteremos, meus senhores, porquanto seria impossível, nos limites cerrados de uma alocução, estudar a obra vultuosa do sábio, que cultuamos. Entretanto, do esboço imperfeito que traçamos, uma verdade se evidencia - é que o Mestre cuja perda nos enluta constitui pelo acendrado culto da Ciência, pela bondade excessiva, pelo desapego dos bens utilitários da existência, um exemplo contagioso de idealismo sadio, demonstrado pela nobreza dessa atitude que acima das contingências materiais da vida pairam os interesses supremos da moral e da razão. Ecce homo, meus senhores."