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Henrique Charles
Morize - A Locução do Professor Dulcidio Pereira
"Minhas Senhoras. Meus Senhores. A circunstância, altamente
honrosa para mim, de ter recebido das mãos do sábio professor
Henrique Morize a Cátedra de Física Experimental, na Escola Politécnica,
justifica a minha presença nesta tribuna, ao lado dos autorizados
oradores que me vão suceder. A homenagem que hoje prestamos à memória
do mestre está muito aquém daquilo que os seus méritos e os seus
serviços fizeram jús; homenagem sem pompas mas cheia de
sinceridade, homenagem que tem a enorme valia de concretizar o
exemplo edificante de um grande obreiro que só por si, e levado
unicamente pelo seu valor intrínseco prestou ao país o concurso
fecundo do seu trabalho e de sua personalidade. O ilustre homem de
Ciência cuja memória hoje homenageamos, todos vós conhecestes e
consequentemente todos vós estimastes. Falecido aos 69 anos de
idade, no dia 19 de março findo, era um dos homens mais perfeitos
entre todos os que têm cultuado a Ciência no Brasil. O grande
prestígio moral que ele alcançou em toda parte foi uma conseqüência
das suas elevadíssimas qualidades morais aliadas ao seu grande
valor científico. Henrique Morize era um bom, era um puro e era um
sábio. Espírito idealista, cultuando a Ciência Pura com desvelo e
desinteresse ele realizou no Brasil uma obra fecunda que o tornou
digno da estima e da gratidão de todos os brasileiros. Diretor do
Observatório Nacional, Professor Catedrático de Física na Escola
Politécnica, Fundador e Presidente de Honra da Academia Brasileira
de Ciências, Fundador e Presidente de Honra da Rádio Sociedade do
Rio de Janeiro, Membro do Instituto Histórico, do Clube de
Engenharia, do Instituto Politécnico, da Sociedade de Geografia, da
Sociedade Nacional de Agricultura, da Société Française de
Physique, da Société Astronomique de France, Membro Honorário da
Société des Sciences Naturelles et Mathématiques de Cherbourg,
Membro da Societá Sismológica Italiana, da Sismological Society of
America, da Astronomical Society of the Pacific. Henrique Morize,
todavia, iniciou muito modestamente a sua vida. Francês de
nascimento, chegou ao Brasil em 1875 com 14 anos de idade, iniciando
imediatamente a sua vida de trabalho na Livraria Garraux, em São
Paulo, a célebre casa da rua da Imperatriz, onde durante dois anos,
mediante ordenados mensais que subiram de 20 a 40$, varria de
madrugada a casa toda, passando o resto do dia a fazer e desfazer
grandes e pesados embrulhos. O trato que então lhe davam não era
dos mais suaves, e muitas vezes, o repreendiam severamente,
sobretudo, porque no seu duro mister de empacotar os livros, com
freqüência se distraia em ler furtivamente, ansioso de aprender o
que aqueles volumes encerravam de útil e bom. Foi depois praticante
de telegrafista na São Paulo Railway, com exercício na Estação
de Rio Grande, na serra do Cubatão. Em 1880, já portador de exames
de humanidades prestados na Faculdade de Direito, matriculara-se no
curso preparatório da Escola Politécnica do Rio. Em 1884, ainda
acadêmico, entrava para o Observatório Nacional, como aluno astrônomo,
para ser no ano seguinte promovido, após concurso, a terceiro astrônomo.
Em 1890 terminava o curso de Engenharia Industrial, tendo desde então
exercido sem tréguas uma atividade servida por uma inteligência
brilhante, e por um bom espírito esclarecido. Entre 1892 e 1896 o
engenheiro Morize servia na Comissão Demarcadora da nova Capital da
República e na Estrada de Ferro Catalão de Goiás. Em 1896, volvia
como
professor interino à Escola
Politécnica, onde como aluno fizera nome ilustre, e em 1898, após
um concurso brilhante era nomeado Professor Substituto de uma
seção que compreendia a Física, a Química e a Mineralogia e
Geologia. A tese que, então, apresentou, sobre Raios Catódicos e
de Röetgen, é um trabalho de alto valor, e se pode afirmar que a
ele se devem os primeiros trabalhos de caráter verdadeiramente
científico efetuados sobre esse assunto no Brasil. Aliás, nessa
tese se encontra uma parte absolutamente original - aquela em que
ele descreve o seu processo de determinar a posição de um corpo
opaco, situado no interior de um organismo. O processo foi por ele
ulteriormente explicado em um atraente artigo que se publicou nos
"Comptes-Rendus", da Academia de Ciências de Paris. É
interessante lembrar, que, durante a guerra, o Professor Morize teve
de reivindicar a autoria do processo que um usurpador europeu
pretendia atribuir a si mesmo, o que provocou o pronunciamento de
Branly, favoravelmente ao sábio brasileiro. Como Professor
Catedrático de Física Experimental, que foi até 1925, época em
que eu pedia disponibilidade, o grande mestre teve uma atuação
notável, imprimindo aos ensino dessa Ciência o grau de elevação
que todos os seus discípulos conheceram. E entre as tarefas das
aulas que cumpria com uma probidade absoluta e o seu labor no
Observatório Nacional ele achava tempo para as suas pesquisas e
para as suas lucubrações científicas. Após a disponibilidade, o
Professor Morize ainda prestou o seu concurso ao ensino desta casa.
A sua última preleção deu-a em 1927 encerrando aqui o meu curso
de Meteorologia, honrando-me sobremodo com esses gesto. Eu tive,
pois, razão quando lhe disse em 1925, ao inaugurar o seu retrato no
Laboratório e justamente no momento em que eu recebia de suas mãos
a Cadeira de Física: - o seu lugar, a sua mesa, os seus livros -
tudo aqui lhe fica reservado, porque ele continuará a ser a
principal pessoa deste gabinete, e embora dispensado da tarefa das
aulas, a Ciência o atrairá aqui e muito ainda espera do seu
trabalho fecundo. Foi ele o criador do Serviço de Meteorologia no
Brasil, iniciando o Serviço de previsão do tempo. Escreveu em 1889
um Esboço da Climatologia do Brasil, que foi incorporado ao livro
publicado pelo Barão do Rio Branco, especialmente para fazer
conhecida a nossa terra na Exposição de Paris, realizada naquele
ano. Henrique Morize foi Fundador da Academia de Ciências e um dos
seus grandes animadores. Animou-o sempre um espírito de elevado
interesse pela cultura da Ciência em nossa terra. São dele estas
palavras: "Numa Capital rica e próspera como a cidade do
Rio de Janeiro, era indispensável que se fundasse um grêmio onde
aqueles que estudam as questões de Ciência Pura pudessem encontrar
fraternal agasalho e no qual se promovesse a formação de um
ambiente intelectual capaz de transformar a indiferença, ou mesmo
em alguns casos a hostilidade com que a maioria habitualmente acolhe
a publicação de tudo quanto não tem o cunho de utilidade
material, embora devam saber todos que receberam a educação
liberal corrente, que muitas artes e indústrias têm como base
pesquisas científicas e princípios abstratos. São queridos os
resultados, mas são abandonados os princípios que lhes servem de
base e os homens que abnegadamente os cultivam". É
difícil separar a obra científica do astrônomo da do físico. Os
seus trabalhos se dividiam igualmente entre o Observatório e o
Laboratório. O criador da Sismologia e da Meteorologia no Brasil
volvia ao Laboratório e imaginava dispositivos especiais para o
estudo da evaporação, para estudos especiais sobre a elasticidade.
Estudava as questões de Geodesia, interessando-se pelos desvios da
vertical, e investigava o campo elétrico da atmosfera do Rio de
Janeiro. O Laboratório de Física está cheio de seu trabalho
fecundo. A cada passo, um caderno de notas e pesquisas suas, de
determinações de constantes, de instrumentos, de observações
pessoais. E a sua modéstia a respeito dos seus trabalhos pessoais
que fazia o escrever: "Penso que todos aqueles que estudam
atentamente qualquer dos ramos em que se subdivide o saber humano,
rapidamente encontram questões que ainda não foram estudadas e às
quais, entretanto, a natureza está sempre disposta a responder, se
o perscrutador tiver suficiente força de vontade". Eu não
desejo alongar estas palavras simples, mas não me posso furtar a
focalizar a personalidade moral deste homem ilustre. O traço
preponderante do caráter de Henrique Morize era a bondade. Bom,
excessivamente bom, generosamente bom, ele estava sempre convencido
de que todos os que o cercavam, amigos ou indiferentes, camaradas ou
subalternos eram como ele o era. Daí o seu otimismo, daí o seu
entusiasmo pela virtude. É que ele sentia bem que o pessimismo é o
desrespeito, a negação do mérito, do esforço, da virtude. O
pessimista, admitindo, por debilidade moral, que todo esforço é
vão e toda a dedicação é virtude inútil, não compreende que
qualquer ato de outro homem possa ser sincero e desinteressado.
Henrique Morize sentia bem em sua nobre vida que só o entusiasmo é
fonte criadora, a vida é um entusiasmo perene: o Universo palpita
perenemente numa agitação que nunca se enfraquece. Todas as
manifestações da vontade criadora são belas: tudo entusiasmo na
criação. Vítima, e por mais de uma vez, da ingratidão humana,
perturbado em sua serenidade nos atos menos justos e menos
ponderados de seus dirigentes, Henrique Morize soube sempre manter a
grandeza da alma que tudo lhe fez perdoar. A sua bondade lhe tecia
uma auréola impenetrável aos sentimentos injustos e pouco nobres.
À mocidade é preciso apontar exemplos edificantes de homens
perfeitos a que ele se propunha imitar. Henrique Morize constituirá
sempre um dos melhores exemplos e é por isso que na Escola
Politécnica, no seu Laboratório de Física que ele tanto honrou e
que é hoje o Laboratório Henrique Morize, lá está o seu retrato
e lá estará uma placa de bronze indicando às gerações que
vierem que tudo aquilo é criação sua e que a sua memória
dirigirá por todo o sempre o ensino da Física nesta Casa. E é
sempre oportuno repetir o que eu já tive ocasião de escrever:
"À mocidade discente se dirá que procure imitá-lo em seu
caráter impoluto através de tantas vicissitudes; que procure
imitá-lo em seu devotamento em servir à Ciência, elevando bem
alto o nome do Brasil, que procure imitá-lo em sua bondade que se
traduziu em sua personalidade por aquela extraordinária boa fé,
manifestação vivida do seu otimismo sadio."
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