Ex-Presidentes

História
 

Henrique Charles Morize - Prêmio Einstein a Miguel Osório de Almeida

Dr. Mario Ramos homenageia Henrique Morize quando da entrega do Prêmio Einstein a
Miguel Osório de Almeida.
Ata da Sessão de 26 de dezembro de 1933. P.80v. a 85v.


... "O Presidente Arthur Moses convidou o Reitor da Universidade Professor Fernando Magalhães a presidir a Sessão, tomando em seguida assento à mesa os Srs. Arthur Neiva, Mario Ramos, Alberto Sampaio, Frazão Milanez e o Presidente da Academia. O Professor Mario A. Ramos pronunciou o seguinte discurso "Sr. Presidente - Srs. Acadêmicos - Meus Senhores: O discípulo amável e dedicado de Sócrates, o filósofo profundo Platão, que não se satisfazia em procurar as razões das coisas nas combinações dos números ou nas forças da natureza, mas em um princípio inteligente e moral, dizia nos seus ensinos nos jardins de Académus da velha Atenas: Aprender é recordar, me permitirei de acrescentar que recordar é também viver. Eu pois nesta hora Sr. Presidente, recordo e vivo dias bons passados, em anos que já transcorreram e que foram na verdade a gênese dessa festa espiritual que nos reúne hoje. Eu assim me recordo com grande saudade e vivo com suave prazer aquelas muitas ocasiões de íntimas palestras e cogitações de Física e Eletricidade com Henrique Morize, aquele investigador e professor infatigável cuja estima iniciada entre nós em razão de trabalhos e estudos de gabinete se conservou por tantos anos sempre viva e sã. Corria o final do ano de 1902 e eu modesto preparador do Gabinete de Física e Eletricidade da Escola Naval, ensaiava meus primeiros passos de professorado nas Ciências Físico-Químicas e na Eletrotécnica e acompanhava com um espírito atilado e uma curiosidade quase infantil as primeiras experiências que entre nós se faziam sobre a telegrafia sem fio. Os primeiros aqui eram justamente os Professores Baptista da Escola Naval e Morize da Politécnica. O tempo passa já se escoaram 31 anos. O nosso gabinete tinha então recebido uma aparelhagem completa não só para as demonstrações práticas de transmissão e recepção como também os dispositivos para realização das célebres experiências de Hertz sobre oscilações elétricas ressonâncias, reflexão, polarização, etc. Eu dediquei-me então aos estudos, à montagem e à experimentação desses dispositivos, com um frenesi, uma assiduidade, um desejo de conhecimento e êxito, como um moço inteligente e pertinaz que tivesse obtido o melhor dos seus prêmios, tudo relatava a Morize. Os menores detalhes sobre o preparo da limalha e o funcionamento dos rádio condutores de Branly, as modificações das antenas e seus suplementos, a regularidade do funcionamento dos interruptores de mercúrio, a usura da bateria de acumuladores, enfim meus caros confrades, tudo que naquele tempo era o início dessa conquista formidável no domínio da Radioeletricidade e cujos aperfeiçoamentos e êxito hoje tanto usufruis, eram então dificuldades a vencer, grosseiros aparelhos a aperfeiçoar. Os anos correram e as afinidades do estudo ligaram-nos mais. Morize deleitava-se em fazer-me preleições sobre as suas experiências de Hertz; eu ouvia-o atento, ensaiava-me a mostrar-lhe como tinha compreendido que à corrente elétrica expressa pela fórmula w=k/4.dE/dt se junta a
corrente de condução durante o período variável. Gostávamos de discutir e de reconhecer como as equações de Maxwell tinham sido confirmadas e como tinham dado a Hertz as idéias para suas experimentações. Mais tarde em 1904 quando era então engenheiro da firma Guinle & Cia. obtive vir os aparelhos rádios De Forest para fazermos já experiências industriais, como fizemos de transmissões e recepções entre a Fortaleza de Santa Cruz e a Ponta de Castelhanos na Ilha Grande, esses dispositivos tinham para nós um especial interesse, o novo receptor eletrolítico muito sensível; Morize veio também acompanhar-me e assistir nesses trabalhos. Nossas relações estreitaram-se ainda mais. Os anos decorrem, eu de preparador tinha passado a substituto do Professor da Cadeira de Eletrotécnica e desenvolvido as minhas aptidões como engenheiro na Eletricidade Industrial. Morize era então Professor da Cadeira de Física e Diretor do Observatório Astronômico. Pode-se dizer que eu e Morize nunca mais nos separamos dentro dessas cogitações na parte científica; tudo que estou rapidamente recordando são notas de um caderno daquele tempo; daquela época boa do Clube de Engenharia, do Comitê Eletrotécnico. Fundada a Academia aqui me trouxe ele para a Seção de Ciências Físicas. Morize tinha pela Academia uma dileção especial, era a menina dos seus olhos sempre preocupado em fazê-la realçar e crescer, e sentindo as dificuldades naturais ao seu empreendimento, pois a boa vontade dos seus confrades era grande, mas as circunstâncias do meio, a exigüidade de recursos para estudos e pesquisas entibiava os esforços e iniciativas. Ele entretanto, não cessava de procurar todas as circunstâncias para animá-la, ilustrá-la aos olhos do nosso público científico ou do profano. Aos governos nada pedia já, pois até várias tentativas de auxílio para uma instalação definitiva da Academia não tinham encontrado eco. E isso infelizmente havia de ser assim; pois se de fato os problemas elementares da educação , da alfabetização estão ainda entre nós em situação tão precária, tão entristecedora, o que pensar de auxílios e organização para estudos e pesquisas científicas? O que esperar de oficial para as obras superiores do pensamento? E por isso mesmo Morize não perdia as oportunidades que lhe apareciam para apresentar a Academia, para elevá-la, para destacá-la. Assim foi a visita do eminente Prof. Albert Einstein ao Rio de Janeiro. Lembra-me bem com que satisfação me anunciou essa visita em maio de 1925 e a recepção que devíamos fazer ao cientista filósofo na novel Academia. Morize era todo satisfação por esse acontecimento. A mecânica de Einstein, a concepção nova da gravitação, a teoria da relatividade estavam, naquele ano de 1925, no apogeu das memórias e das conferências; em todas as escolas e institutos científicos de 1920 a 1925 foi justamente o qüinqüênio da vulgarização maior dos estudos do mestre das metamorfoses do espaço e do tempo. Morize foi me avisando que eu devia preparar alguma coisa, uma pequena comunicação que fosse para a Sessão Solene que realizar-se-ia, dizia o saudoso amigo com muito orgulho: na sede própria da Academia. Vós todos vos lembrais Srs. Acadêmicos daquele tempo o que era a nossa sede, era o pavilhão de madeira que tinha servido á exposição da Checoslováquia e que Morize e Roquette-Pinto, o binômio dinâmico da nossa Academia, tinha obtido provisoriamente do Governo Federal. E lá foi a solene recepção com todo mundo oficial e científico. Recebida a notícia que Morize me dava escrevi a comunicação em francês a ser lida na Sessão e a carta que aqui insiro, como preito àquele Presidente tão dedicado e esperançoso da sua sociedade brasileira de homens de Ciência. "Ilmo. Sr. Prof. Morize, Presidente da Academia Brasileira de Ciências - Prezado confrade e amigo. A satisfação que temos de hospedar o grande pensador Sr. Albert Einstein, determina em todos nós que amamos um pouco o recolhimento e o gozo de pensar, um certo sentimento de desprendimento das nossas lides cotidianas para nos recolhermos por momentos a uma atmosfera mais tranqüila e salubre. Eu lembrei-me então, se tiver o aplauso do meu amigo e dos meus confrades da Academia, de criar um prêmio sob o patrocínio do nome "Einstein" - medalha de ouro e diploma, que serão entregues cada ano ao membro da Academia que melhor memória apresentar sob matéria das Seções de Ciências Matemáticas, Físico-Químicas e Biológicas a juízo de uma "Comissão Prêmio Einstein" ad-hoc designada, para patrimônio do prêmio e despesas de cunhagem da medalha etc. Submetidas as duas minutas a Morize, para que corrigisse e opinasse, bem atentamente, avidamente, com aquela vivacidade de todos nós conhecidas e num gesto de satisfação "muito bem, muito bem". Como vedes pois meus caros confrades a festa espiritual desta data na parte que eu tenho é ainda obra de Henrique Morize, e eu haveria certamente dado naquela ocasião a este prêmio de emulação científica o nome de Morize se não tivesse a justa compreensão de sua modéstia, que neste caso estaria agravada pela nossa amizade. Essa recordação pois era justa homenagem devida ao nosso saudoso Presidente. Sr. Prof. Miguel Osório de Almeida: o Prêmio que vos outorgou a Academia com tanta justiça e que hoje recebeis tem pois sua origem simples e nobilitante...".