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Henrique Charles Morize
- Sociedade Brasileira de Ciências
Discurso proferido pelo Presidente Professor Henrique Morize,
na Sessão Plena de 15 de junho de 1917.
Publicação na Revista da Sociedade Brasileira de Ciências n.º 1
- 1917. P.3 a 10.
"Ilustres consócios. Seja-me permitido, neste dia em que nossa
Sociedade comemora o seu primeiro aniversário, lançar o olhar
sobre o caminho percorrido, e, da recordação do que tem sido esse
primeiro ano de dificuldades e de lutas, auferir incentivos para
encarar com esperançosa firmeza o futuro que se nos antolha.
Cumpro, em primeiro lugar, o dever de agradecer aos ilustres colegas
que, com prejuízo de suas parcas horas de repouso, acompanharam,
com atividade e dedicação, as reuniões em que progressivamente se
acentuaram as feições que deve ter a Sociedade Brasileira de Ciências
para bem cumprir a sua missão. Com a mais cordial gratidão, também
salientarei a benevolência com a qual, em sua Assembléia Geral de
9 do corrente, se dignou a Sociedade patentear à mesa provisória a
sua confiança com um voto unânime, em que lhe renovou o mandato.
Se, para meus eminentes colegas da diretoria essa prova de confiança
é mais que justificada, devo declarar novamente e com toda a
sinceridade que me sinto acanhado em ocupar a Presidência de uma
Associação que compreende diversos dos mais eminentes cientistas
do Brasil, dos quais muitos possuem maiores títulos à distinção
que, entretanto, por nímia bondade, me coube. Embora absolutamente
consciente da insuficiência dos apoucados predicados que possuo
para satisfazer aos requisitos da elevada posição a que me guindou
a extrema benevolência dos membros da Sociedade, comprometo-me, e
nisto traduzo também os sentimentos de meus dignos companheiros de
mesa, a empregar todos os esforços para auxiliar nossa benemérita
Associação a alcançar o seu alvo. O reforço que esta ultimamente
recebeu, qual a adesão de ilustres cientistas que se reuniram ao núcleo
primitivo, contribui a fornecer sólida base ao favorável prognóstico
do que virá a ser em breve a Sociedade Brasileira de Ciências,
tanto mais que, além dos eminentes cientistas que agora nos trazem
seu precioso concurso, ainda figuram não menos distintas
personalidades que não puderam agora ser admitidas somente porque
seu número ultrapassa o que as resoluções da Assembléia Geral
permitiam aceitar. Mas, em breve prazo, graças às modificações
recentemente introduzidas em nossos Estatutos, as quais
consideravelmente reduziram as delongas da admissão de novos sócios,
acrescentaremos ilustrados colaboradores, cheios de atividades, ao
grupo já existente. Poderemos assim, graças ao concurso assíduo
de todos os membros, alcançar o elevado fim que tivemos em vista
criando a Sociedade Brasileira de Ciências. Numa capital rica e próspera
como a Cidade do Rio de Janeiro, era indispensável que se fundasse
um grêmio, onde aqueles que estudam as questões de Ciência Pura
pudessem encontrar fraternal agasalho e no qual se promovesse a
formação de um ambiente intelectual capaz de transformar a
indiferença, ou mesmo em alguns casos a hostilidade, com que a
maioria habitualmente acolhe a publicação de tudo quanto não tem
o cunho de utilidade material,
embora devam saber
todos que receberam a educação liberal corrente, que muitas artes
e indústrias têm como base pesquisas científicas e princípios
abstratos. Assim, a navegação tem como indispensável guia a Matemática
e a Astronomia; a indústria das matérias corantes, os inúmeros
trabalhos teóricos da Química do século passado. A sericicultura
deveu sua conservação na Europa aos imortais trabalhos de Pasteur,
sobre a Microbiologia. A indústria dos reprodutores de raça segue
as normas da evolução e do Mendelismo. Dos estudos oceanográficos
têm-se tirado conclusões utilíssimas à pesca, e, com a
Meteorologia têm-se poupado milhares de contos de reis à navegação
e à agricultura. A Fisiologia, especialmente ao estudo das secreções
internas, como as das glândulas super-renais e tireóide, é
devedora à Medicina de numerosas vantagens práticas. Entretanto,
diante da larga messe quase todos esquecem a fonte pura que as
alimentou. São queridos os resultados, mas são abandonados os
princípios que lhes servem de base e os homens que abnegadamente os
cultivam. Têm estes, vida trabalhosa e habitualmente desprovida de
conforto, pois, em vez de consagrarem o seu tempo à rendosas ocupações,
o sacrificam ao nobre culto da verdade. Em geral, excetuado o raro
caso de disporem de bens de fortuna, são obrigados a ter uma
profissão da qual tiram o indispensável à vida, e, as horas que são
de lazer para os outros, eles as consagram ao trabalho da pesquisa
desinteressada. É verdade que, uma ou outra vez, quando a fortuna
lhes sorri, e que dos seus trabalhos surge inesperadamente uma
aplicação de imediata utilidade, pode sobrevir-lhes a
prosperidade, mas esta é rara e quase sempre tardia. Nosso saudoso
Vice-Presidente, o pranteado Dr. Oswaldo Cruz, é notável exemplo
desse caso. Por muitos anos esteve ele vegetando no estudo
desinteressado da Microbiologia, até que o acaso de uma grave
epidemia, pela sua violência, forçou o Governo a sair da sua tranqüilidade
habitual e a apelar para o Bacteriologista, indicado pelo mestre Dr.
Roux como sendo o homem que reunia todas as qualidades exigidas
pelas circunstâncias, o que não o impedia de viver semi-ignorado
nesta Capital, desde muitos anos. Escusado é narrar ao ilustrado
auditório a maneira brilhante pela qual nosso pranteado colega
resolveu o difícil problema que se lhe apresentava. A preferência
do público para os resultados imediatamente utilizáveis não é
peculiar ao nosso Brasil, mas estende-se a todos os países, ainda
que com menor intensidade. Assim, na Inglaterra, o professor J. A.
Thomson, em seu admirável livro intitulado "Introduction to
Science", que peço permissão de citar, diz: "O homem
ultra-prático ficou tão habituado aos frutos da Ciência que
facilmente esquece que esses frutos não podem amadurecer quando as
raízes morrem. Portanto, ao crítico que resmunga sobre o tempo
desperdiçado em estudar algas, quando precisamos de trigo, ou em
pesquisas embriológicas, em vez de procurar métodos para efetuar
abundantes pescas; sobre os enigmas teóricos da Geologia, em vez de
procurar produzir mais ferro e mais carvão, responderemos, em
primeiro lugar, que o homem não vive somente de pão; em segundo,
que devemos ser pacientes, se queremos obter com segurança
resultados práticos; em terceiro, que a Ciência é una e que o
fundamento teórico é essencial para que possam existir aplicações
práticas, e finalmente, em quarto lugar, ser fato, muitas vezes
comprovado pela experiência, terem surgido das pesquisas teóricas
menos prometedoras os maiores descobrimentos práticos. Na nossa época
contemporânea, tão entusiasta dos resultados práticos, devemos
recordar a distinção estabelecida por Bacon, há mais de quatro séculos,
entre os resultados da Ciência que nos trazem luz (lucífera) e
aqueles que são de utilidade direta (frutífera). Da consideração
desses dois casos chegou ele a seguinte memorável conclusão: Da
mesma maneira que a percepção da luz é em si mais bela e
excelente que qualquer de seus usos diretos, a contemplação das
coisas como elas são, sem superstição ou impostura, sem erro ou
confusão, é, sem dúvida, mais nobre em si que ampla colheita de
inventos". Seria pernicioso erro julgar que a Ciência pudesse
ser privada das suas raízes, que são seus fundamentos teóricos, e
continuar, mesmo assim, a produzir frutos. A este respeito ainda diz
o professor J. A. Thomson: "Os ignorantes sempre supõem que
deve ser eliminado o que eles chamam 'fiorituras', como simples luxo
da inteligência, inadmissível numa época utilitária como a
nossa, mas o caso é que essas fiorituras são as flores de que mais
tarde provirão os frutos". São muito numerosos os casos nos
quais são facilmente percebidos as flores e os frutos de que fala o
Professor Thomson, e neles se manifesta a preeminência da Ciência
teórica na produção de resultados utilitários. A este respeito,
já há muitos anos, dizia Augusto Comte: "Se a inteligência
apenas tratasse de pesquisas suscetíveis de utilidade prática
imediata, ela se veria, por isso mesmo, conforme fez notar Condorcet,
peada em seus progressos, mesmo quando se tratasse das aplicações
para as quais os trabalhos especulativos tivessem sido sacrificados,
pois que as aplicações mais importantes se derivam de teorias
constituídas com vistas simplesmente científicas, e que foram
muitas vezes cultivadas durante séculos antes de produzirem
qualquer resultado. Desta maneira, pode Condorcet dizer com toda razão:
O marinheiro que a exata determinação da longitude preserva do
naufrágio, deve a vida a uma teoria concebida 2.000 anos mais cedo
por homens de gênio que tinham em vista simples especulações geométricas".
A telegrafia comum e a Hertziana, a fotografia em cores, a produção
do ar líquido, a do rádio e dos compostos azotados, e uma
infinidade de outras aplicações da Física e da Química, que
constituem nossa civilização atual, da qual temos tanto orgulho,
tiveram como bases pesquisas completamente desinteressadas e são,
entretanto, o assunto de frutuosas aplicações industriais que
enriquecem os países onde os governos clarividentes promovem com
pertinência o desenvolvimento da Ciência Pura, da qual resultam as
aplicações, tão espontaneamente como à flor sucede o fruto. Os
Estados Unidos, tão falsamente considerados como o baluarte do
ensino puramente utilitário, são, muito ao contrário, uma terra
em que o alto valor da Ciência, como meio de engrandecimento da pátria
foi nitidamente compreendido desde a época colonial. Uma das
primeiras tarefas assumidas pelos heróicos passageiros da Mayflower,
mesmo no meio das dificuldades terríveis que encontraram no início
de sua existência num país desconhecido, foi criar meios de educação
superior para seus filhos. As grandes universidades datam dessa época,
e basta passar o olhar no quadro estatístico das datas de suas
fundações para verificar que, mesmo na angustiosa quadra das lutas
da Independência os Governos Americanos jamais descuraram do alto
dever de promover a instrução superior entre seus concidadãos.
Assim, em 1636, fundava-se a célebre Universidade de Harvard, em
1660, William and Mary College, Yale University em 1701, Princeton
em 1746, Pennsylvania em 1751 e Columbia em 1754, etc. Depois dessa
era, já remota, nunca os Governos deixaram de se interessar pela
prosperidade de suas universidades, atualmente em número de 150,
que com os colégios, isto é, escolas de ensino superior, menos
completas que as universidades, somam em cerca de 650 instituições,
autônomas, mas na maior parte subvencionadas pelos Estados. O seu
rendimento excede de 49 milhões de dólares e o capital hoje
imobilizado de 350 milhões. É certamente enorme, mas o redator do
artigo do Scientific American (Sc. Am. Sup., Aug.24, 1901, pag.114),
de onde extraio estes pormenores, diz que o trabalho produzido pelas
duas últimas gerações mostra que nosso dinheiro foi capitalizado
a juros compostos. "Our money has been put at compoud interest".
Não se deve crer, de acordo com a índole inexatamente atribuída
ao povo americano, que esse ensino seja, no seu todo, utilitário;
pelo contrário, diz o citado periódico, os estudantes, em sua
maioria, seguem cursos sem importância como meio de vida, e têm
por fim principal aperfeiçoarem sua cultura intelectual. É por
todas estas razões e estes exemplos que afirmo, em contradição ao
sentimento vulgar, que são ricos os países onde a Ciência é
cultivada com esmero, porque o saber é ali respeitado e protegido,
e não, porque, sendo ricos, podem se ofertar o luxo de uma cultura
científica elevada. Ainda vos repetirei, a este respeito, algumas
palavras que o Right Honourable Arthur James Balfour, então
primeiro ministro inglês, proferiu em notável discurso, ao qual não
foi prestada no momento toda a atenção que merecia, por ocasião
de inaugurar o novo Observatório de Teddington, há cerca de oito
anos: "O êxito futuro da indústria depende das pesquisas
abstratas ou científicas do presente e será aos homens de Ciência
que trabalham para fins puramente científicos e sem nenhum intuito
de aplicação das suas doutrinas que a humanidade ficará devedora
nos tempos futuros. O público em geral não compreende que é aos
resultados da Ciência Pura que devemos no passado e deveremos cada
vez mais no futuro todos os grandes progressos na prática e no
saber industriais". Pois bem, o fim principal da Sociedade
Brasileira de Ciências consiste em espalhar essa noção da importância
da Ciência como fator da prosperidade nacional. Para isto, é
indispensável termos à nossa disposição uma Revista em que
possamos publicar não somente nossos trabalhos, como também os
que, sendo apresentados por pessoas estranhas à Sociedade, sejam
discutidos e aprovados em Sessão. Reputo da maior importância que
esses trabalhos sejam originais, embora saiba que a muitas pessoas,
modestas em demasia, pareça difícil a consecução desse
desiderato. Penso o contrário, e creio que todos aqueles que
estudam atentamente qualquer dos ramos em que se subdivide o saber
humano, rapidamente encontram questões que ainda não foram
estudadas e às quais, entretanto, a natureza está sempre disposta
a responder, se o perscrutador tiver suficiente força de vontade.
Naturalmente, raríssimas vezes serão feitas descobertas capitais,
mas a cada pergunta sempre corresponderá uma resposta, uma verdade
grande ou pequena, que será precioso acréscimo ao capital
intelectual da humanidade. O proclamar que a Ciência abstrata deve
ter a primazia sobre a aplicada não significa de forma alguma que
seja esta destituída de valor. Muito pelo contrário. Se a primeira
constitui um ideal muitas vezes inatingível, a segunda apresenta
problemas mais numerosos e geralmente de solução mais fácil e
que, por isso mesmo, ficam mais ao alcance de pesquisadores
obrigados a gastar em seus trabalhos profissionais a maior parte de
seu tempo. Qualquer que seja a categoria da verdade encontrada, para
que seja frutuosa ela deve ser publicada. O número inaugural da
Revista da Sociedade já possui uma quantidade de contribuições
superior à exigida para seu aparecimento, e todos os artigos
apresentados são originais. Mas as dificuldades pecuniárias que são
o grande obstáculo na vida inicial das agremiações como a nossa,
impediram até agora o seu aparecimento. Tenho, porém sérias
esperanças de vê-la sair em breve, mostrando a todos que a
Sociedade Brasileira de Ciências é uma Associação de
trabalhadores intelectuais resolvidos a consagrar todos os seus
esforços ao progresso da Ciência e ao engrandecimento do nosso
querido Brasil."
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