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EVENTOS DA ABC

Workshop de neuropediatria da ABC, ANM e AcaMedSci

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Publicado em 5/12/2017

O Workshop: Diagnóstico e Tratamento Precoce de Transtornos Neurológicos Infantis, organizado pela Academia Brasileira de Ciências (ABC), Academia Nacional de Medicina (ANM) e Academia de Ciências Médicas do Reino Unido (AcaMedSci), teve início no dia 29 de novembro, na sede da ANM, no Centro do Rio.

A abertura foi conduzida peloAcadêmico Marcello Barcinski, membro da ABC e da ANM; pela diretora da ABC Lucia Previato e pelo co-coordenador do evento David Edwards, da Universidade Kings London, onde lidera o Departamento de Imagem Perinatal e Saúde e dirige o Centro para Desenvolvimento do Cérebro.

David Edwards, Marcello Barcinski e Lucia Previato

Epidemiologia, genética e neuroplasticidade cerebral

A primeira sessão abordou o entendimento das diferentes naturezas das desordens do neurodesenvolvimento. A médica inglesa Cally Tann, professora associada em saúde e desenvolvimento infantil no Centro March da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres e neonatologista do Hospital da University College de Londres, falou sobre saúde neonatal global e epidemias que impactam crianças, além de intervenções prematuras em cenários de baixo e médio recurso.

Juan Llerena, chair da sessão; Iscia Lopes-Cendes, Melissa Gladstone, Cally Tan e Neil Marlow

A Acadêmica Iscia Lopes-Cendes, professora titular e chefe do Laboratório de Genética Molecular da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp (FCM-Unicamp), abordou aspectos genéticos e moleculares dos problemas no neurodesenvolvimento. Os danos cerebrais adquiridos, as consequências neonatais e cuidados no acompanhamento foram tratados pelo professor de medicina neonatal Neil Marlow, da University College London. Ele é presidente do Grupo de Referência de Cuidado Clínico Crítico Neonatal do Serviço Nacional de Saúde da Inglaterra. Já a especialista em neurodesenvolvimento pediátrico e saúde infantil internacional Melissa Gladstone, da Universidade de Liverpool, falou sobre avaliação e intervenção nas desordens do desenvolvimento.

Na sessão de discussão, os participantes foram estimulados a aprofundar algumas questões sobre os temas apresentados, procurando identificar a natureza do problema, sua dimensão e o conhecimento já construído. Divididos em grupos menores, conversaram sobre possíveis soluções de pesquisa para enfrentar estas questões.

Organização e sistematização de dados para otimizar o atendimento

Maria Elisabeth Lopes Moreira, co-coordenadora do evento e professora titular da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), explicou que a epidemia de zika trouxe vários malefícios, mas de certa forma foi útil para dar visibilidade às crianças com microcefalia e outras malformações cerebrais. Ela ressaltou a necessidades de investimento em saúde pública e organização de dados para identificar, quantificar e acolher as crianças com atraso no desenvolvimento. “As condições de atraso de desenvolvimento são diferentes entre as crianças. Elas precisam ter um diagnóstico precoce para que a intervenção possa, de fato, fazer diferença na vida delas.”

A partir do momento que há um registro e um diagnóstico correto, pode-se saber do que a criança precisa, do ponto de vista individual, e encaminhá-la para o serviço adequado. “Há toda uma questão econômica importante atrás disso, porque se a gente otimiza o atendimento, está otimizando o recurso. Assim conseguimos aumentar o acesso das crianças que precisam de neuroestimulação”, diz a cientista.

Elizabeth lembra que a OMS já retirou o Brasil do estado de emergência de zika, dado que o número de casos foi drasticamente reduzido em relação a 2015 e 2016. “Mas vamos ver o que acontece com a população de Aedes Aegypti nesse verão mais úmido, pelo menos aqui no Rio de Janeiro, cuja população ainda não tem anticorpos.” Ela esclareceu que a vacina para o vírus ainda demora uns cinco anos para entrar no mercado e que ainda não há um bom exame sorológico que permita verificar quem já teve a doença e quem ainda é vulnerável, mas já existem algumas intervenções interessantes para o extermínio dos mosquitos. “No momento não temos mais uma epidemia de zika, mas pode voltar a qualquer momento, não sabemos onde nem quando.”

Responsabilidade social pela inclusão das vítimas da zika

A cientista que fez a relação entre microcefalia e zika, Adriana Melo, tem doutorado pela Unicamp e trabalha no setor de medicina fetal do Instituto de Saúde Elpídio de Almeida (Isea), maternidade pública de Campina Grande, na Paraíba. Lá ela preside o Instituto de Pesquisa Professor Joaquim Amorim Neto (IPESQ), criado em 2008. Ela foi a vencedora do Prêmio Claudia 2016 na categoria Ciências.

Ela estava na plateia e destacou que mesmo não havendo mais epidemia, há um grande número de crianças atingidas pelo vírus zika e que precisarão ser acompanhadas pelo resto da vida. “Descobrimos essa relação entre zika e microcefalia em novembro de 2015 e em 2016 não recebemos nenhum recurso público para desenvolver os estudos. Trabalhamos com o que já tínhamos e o que fizemos de novo, foi na garra”, diz.

Adriana esclarece que ainda é preciso desenvolver pesquisas para conhecer melhor a doença, caso haja uma nova epidemia ou surjam novas doenças com origens semelhantes.

Neuroplasticidade cerebral e próximos passos

A segunda sessão do workshop foi conduzida pelo professor Paulo Niemeyer Filho. A sessão teve por finalidade reunir resultados obtidos em modelos animais e em modelos humanos, assim como em ciência básica e clínica. O foco era a importância da intervenção precoce em desordens cerebrais na infância e no período perinatal, e a apresentação de estratégias para programas de neuroestimulação precoce.

Professora assistente de anatomia no Instituto de Biomedicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Patricia Garcez estuda os mecanismos cerebrais de desenvolvimento e má formação, como a síndrome da zika. No evento, sua apresentação foi focada no desenvolvimento e plasticidade dos circuitos cerebrais jovens.

Garcez explicou que a microcefalia é a ponta do iceberg: os efeitos do vírus na formação do cérebro do feto geram muitas outras malformações, às vezes mais sutis. “E ainda não sabemos os efeitos a longo prazo dessa síndrome, por exemplo em relação à memória e ao aprendizado.”

Ela rememora que o Brasil viveu uma década muito positiva de investimentos em ciência tecnologia e inovação, entre 2005 e 2015. “E nesse período a ciência brasileira mostrou sua força, por exemplo, nessa área da epidemia de zika. Agora estamos já há algum tempo sofrendo cortes que vão impactar muito negativamente no futuro próximo.”

Já a médica, professora adjunta do Instituto de Ciências Biomédicas e diretora da Unidade de Bioimagem de Pequenos Animais do Cenabio da UFRJ, Fernanda Tovar Moll  abordou a plasticidade e conectividade do mapeamento do cérebro por imagem.

A ideia era discutir como se desenvolve o cérebro normal e quais as patologias que mais acometem o órgão nessa janela de desenvolvimento inicial. “Sabemos que fatores genéticos contribuem para a formação de um cérebro normal, mas que vão ser modulados por fatores epigenéticos, como a nutrição, o ambiente a que a criança vai ser exposta e, inclusive, outras patologias que podem surgir. O impacto de qualquer dano ou estímulo na fase pré-natal ou pós-natal vai ser muito importante para a formação do cérebro maduro”, explicou a Acadêmica.

Co-fundadora e vice-presidente do Instituto D’Or de Pesquisa e Ensino (Idor - Rede D’Or) e membro afiliado da ABC de 2016 a 2020, ela explicou em entrevista exclusiva para a NABC que a proposta do evento era reunir um público com formações diferentes: neurocientistas, pediatras, clínicos, neuropediatras, especialistas em métodos específicos como imagem e genética e pessoas envolvidas com políticas de saúde.

Segundo Fernanda, na concepção do evento certamente houve uma motivação grande em função da epidemia de zika ocorrida no Brasil em 2015 e 2016. “Quisermos chamar atenção sobre o que conseguimos entender sobre essa patologia e, com o que já sabemos sobre a plasticidade cerebral, avaliar o que temos a oferecer”, apontou.

A neurogenética de desordens do desenvolvimento foi o tema do professor assistente de neurologia, pediatria, neurociência e genética biomédica no Centro Médico da Universidade de Rochester, em Nova Iorque, Alexander Paciorkowski. A ele se seguiu a apresentação do co-coordenador do evento, David Edwards, que tratou das provas sobre os conceitos de resgate hipotérmico neural.

Alexander Paciorkowski, Patricia Garcez, o chair Paulo Niemeyer Filho, David Edwards e Fernanda Moll

Nos grupos de debate criados então, todos os participantes tiveram oportunidade de discutir em detalhes as bases das evidências em neuroplasticidade cerebral e conversar sobre as lições aprendidas nesta área.

Crianças invisíveis

A zika é considerada uma síndrome congênita que interfere na formação pré-natal do cérebro. “Células importantes para o desenvolvimento do cérebro são infectadas e a formação do cérebro vai ser danificada, o desenvolvimento dele vai ser alterado”, esclarece Fernanda Moll. Quais as evidências científicas já conhecidas sobre a infecção do vírus zika que podem contribuir para o diagnóstico e acompanhamento dessas crianças? O que se pode fazer com relação à intervenção precoce e o acolhimento multidisciplinar dessas crianças?

Além de tentar responder a essas questões, Moll aponta para a condição socioeconômica que envolve as vítimas da zika: são geralmente crianças pobres, com deficiências nutricionais, que se não forem acolhidas no sistema público de saúde, não vão ser devidamente estimuladas.

Mas a Acadêmica destaca que não são só as crianças da zika que não estão sendo atendidas como deveriam. “Os efeitos do vírus zika foram mapeados recentemente, mas existem muitas crianças com malformações cerebrais ou atrasos no desenvolvimento com outras origens. “Queremos chamar atenção sobre essas crianças invisíveis. A gente precisa ter prazos para diagnosticar, acompanhar e possivelmente intervir no desenvolvimento dessas crianças. Elas têm que ganhar visibilidade.”

Cortes no orçamento de ciência vão impactar fortemente no futuro do país

Para Fernanda, não há dúvida de que, nos últimos dez anos, a ciência do Rio de Janeiro e do país como um todo evoluiu muito. Formou-se um grande grupo de pesquisadores com expertises complementares nos institutos de pesquisa e universidades, com infraestrutura e pessoal treinado, com massa crítica suficiente para até enfrentar um problema novo – a epidemia de zika - de diversas maneiras. “Havia uma base instalada. Há um mérito muito grande de todos os pesquisadores brasileiros e estrangeiros que se juntaram para dar soluções rápidas para o problema”, ressaltou.

Mas em 2017, a situação é muito diferente. Fernanda observa que os pesquisadores estão desmotivados. Mesmo os mais qualificados não estão aproveitando seu potencial, porque não estão tendo financiamento mínimo para tocar suas pesquisas em andamento. “Isso, obviamente, tem um impacto muito grande sobre o que pode acontecer agora: se não há insumos para rodar o experimento, o impacto é direto e imediato. Mas vai ser muito maior nos anos que estão por vir, porque tudo o que se levou anos para construir será desconstruído. E a situação atual está desestimulando a escolha dos jovens pela área da ciência, da pesquisa, como opção de carreira”, lamentou.

Ela diz que ainda há alguns recursos internacionais e outros poucos brasileiros para áreas críticas como zika. “Mas por mais versátil e criativo que seja o cientista brasileiro, isso tem um limite – precisamos formar pessoal qualificado e manter uma estrutura. Nossa maior preocupação é o futuro. A situação de cortes no orçamento público não pode continuar assim, estamos indo na contramão do resto do mundo”, concluiu Fernanda Moll.

Patricia Garcez ressaltou que essa questão da infraestrutura é a diferença que os cientistas encontram lá fora. Embora aqui no Rio ela trabalhe na UFRJ e conte também com o apoio do Idor, ela é professora visitante na Universidade de Oxford, na Inglaterra. “Lá a velocidade em que os insumos chegam, a agilidade com que tudo acontece demonstram o valor que é dado para a ciência e o interesse real do governo do país no desenvolvimento”.

Ela pesquisa os efeitos do vírus zika nas células-tronco neurais, que são as “mães” dos neurônios. “Buscamos entender como o vírus funciona para conseguir bloqueá-lo. Através de parcerias, surge a esperança de uma antiviral, com a experimentação da cloroquina e do sofosbuvir”, relata a cientista.

Problemas complicados e problemas complexos

O neurocientista da UFRJ Stevens Rehen, ex-membro afiliado da ABC (2008-2012), destacou a importância da aproximação da pesquisa básica com a pesquisa clínica e com os médicos mesmo, oportunidade proporcionada pelo evento. “A proposta de uso de medicamentos como cloroquina e sofosbuvir vieram de pesquisas básicas, feitas pelo grupo do Prof. Amilcar Tanuri , do Prof. Fernando Bozza e do Prof. Tiago Souza, dos quais nós acabamos participando”, relatou.

Rehen apontou a existência de dois tipos de problema na ciência: os complicados e os complexos. "Os complicados nós conseguimos resolver. Mas nossa criatividade apenas não é o bastante para resolver problemas complexos, que requerem infraestrutura”, observou.

Diretor de pesquisa do Idor, ele destaca o apoio desta instituição privada sem fins lucrativos, que tem uma mentalidade, uma estratégia e uma agilidade que lhe possibilitaram dar uma contribuição imprescindível. “O Idor, no caso da zika, foi um hub não só no Rio, mas no Brasil inteiro, inclusive na Paraíba. Mas esse tipo de contribuição não exclui a necessidade imperiosa dos recursos públicos em infraestrutura e na formação de recursos humanos.”


(Elisa Oswaldo-Cruz para NABC)


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