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Usando métodos computacionais na descoberta e design de novos materiais

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Publicado em 31/03/2017

Professor da Universidade Federal do ABC (UFABC), Gustavo Martini Dalpian nasceu na cidade de Lajeado, Rio Grande do Sul. Passou a infância e adolescência na cidade de Arroio do Meio, no mesmo estado, onde seus pais trabalhavam. "Morar em uma cidade pequena, com menos de 20 mil habitantes, me proporcionou muita interação com a natureza", conta o Acadêmico. Jogava futebol na rua, andava de bicicleta e ia a pé para a escola, onde se divertia no pequeno laboratório da escola com experiências em biologia, sua área preferida na época.

Sua família era de professores: a mãe dava aulas de português em uma escola estadual e o pai lecionava latim em uma faculdade da região. O mais velho de três filhos, por mais de uma vez teve aulas com sua própria mãe, o que lhe oferecia uma perspectiva diferente da escola: além da visão do aluno, também entendia o lado do professor. Lembra-se bem do pai acordado até tarde para trabalhar em sua tese de doutorado na área de Letras Clássicas. Este ambiente, provavelmente, facilitou sua escolha pela carreira acadêmica.

A família mudou-se e Dalpian terminou o ensino médio a cidade de Santa Maria, no mesmo estado. Lá estudou na Escola Estadual Margarida Lopes. As lembranças do ensino médio remetem sempre para os professores de física e matemática. Entre as mentes para ele inspiradoras estavam os professores João Batista Harres, Ingo Schreiner e Vanda Fontana. Considerava-se sortudo por ter professores que instigavam e desafiavam os alunos a a fazer perguntas e pesquisar respostas. A experiência da descoberta foi estimulante e, na hora de escolher a profissão, o curso de física lhe pareceu o mais interessante. Prestou vestibular e foi aprovado em primeiro lugar.

O ingresso na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) apresentou uma nova realidade. Percebeu que teria que estudar muito para ir bem nos cursos. Após o primeiro semestre foi convidado a fazer parte do Programa de Educação Tutorial da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (PET-Capes). As reuniões científicas semanais incentivavam o foco na pesquisa. "Fiquei no PET até o final do curso e fiz iniciação científica com o professor Celso Arami Marques da Silva, trabalhando com experimentos de difração de raios X e modelos teórico-computacionais para calcular propriedades eletrônicas de materiais", explica o físico.

No último semestre de seu curso, começou a procurar opções de mestrado fora da cidade. Ao final do processo, foi aprovado com bolsa na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Universidade de Campinas (Unicamp) e Universidade de São Paulo (USP). Então, durante uma longa conversa com o professor Ronaldo Mota, decidiu ir trabalhar com o Acadêmico Adalberto Fazzio , na USP.

Mudou-se para São Paulo e entrou no grande grupo de pesquisa do Prof. Fazzio, que caminhava com velocidade. Casou-se com Patricia durante o mestrado, quando nasceu sua primeira filha, Laura. "Ter um filho durante o mestrado trouxe desafios, mas trouxe também o sentimento de responsabilidade que se expandiu para todos os sentidos da minha vida", destaca o Acadêmico. No grupo do Instituto de Fìsica, aproximou-se do professor Antônio José Roque da Silva, que havia sido contratado recentemente. "Essa foi uma grande sorte na minha vida", afirma Dalpian. A interação com o professor continuou até o final do curso de doutorado e culminou, em 2003, com a concessão de menção honrosa no Prêmio SBF (Sociedade Brasileira de Física) de melhor tese de doutorado. Foi então fazer um estágio de pós-doutorado no laboratório Nacional de Energias Renováveis, em Golden, e na Universidade do Texas, em Austin. Lá nasceu seu segundo filho, Gabriel.

Dalpian retornou ao Brasil em 2006, para assumir uma posição de professor na UFABC. A universidade acabara de ser criada e era necessário trabalhar nos cursos de graduação, pós-graduação, construir salas e laboratórios. Ele ajudou no processo de estruturação da universidade, que é hoje uma das mais bem avaliadas do Brasil. Em 2007, liderou o processo de criação do Programa de Pós-Graduação em Nanociências e Materiais Avançados, do qual foi o primeiro coordenador. Em 2010, foi eleito vice-reitor, atuando fortemente no planejamento de longo prazo da universidade. Liderou o grupo que construiu o Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) para o período 2012-2022. Em 2014, assumiu a Pró-Reitoria de Pós-Graduação da UFABC. Além das atividades acadêmicas, o ABC paulista também foi importante do ponto de vista familiar: foi ali que nasceu sua terceira filha, Bruna.

O trabalho atual de Dalpian é voltado para o entendimento das propriedades de materiais e nanoestruturas do ponto de vista teórico-computacional. "O desenvolvimento de computadores cada vez mais rápidos fez com que a área de simulação computacional de materiais avançasse muito nos últimos tempos. Ao mesmo tempo, a demanda da sociedade por novos materiais, mais baratos, mais eficientes e com mais funcionalidades, fez com que fosse necessária uma nova forma de procurar e selecionar materiais", explica o pesquisador. A forma tradicional, onde a busca por materiais era guiada pela intuição e pela tentativa e erro, tornou-se lenta demais. Isso abriu novas oportunidades para métodos computacionais de descoberta e design de novos materiais, onde rotinas computacionais realizam os testes antes dos materiais serem enviados aos laboratórios. Ele explica que, desta forma, a simulação computacional fica intimamente interligada com experimentos, atuando de duas formas distintas: propondo novos experimentos e rotas e apoiando a explicação de observações experimentais que não são claras.

"Fazer ciência não é trabalho, é lazer", defende o cientista. Talvez seja por isso que as rotinas de trabalho à noite e nos finais de semana não pareçam tão pesadas para o pesquisador. Dalpian argumenta que a sensação de descobrir coisas novas e mostrar isso para o mundo é contagiante. "Publicar nas melhores revistas científicas e observar pesquisadores de todo o mundo citando e debatendo seu trabalho é muito gratificante", esclarece. O reconhecimento dos pares provavelmente atingiu seu ápice com sua indicação para Membro Afiliado da Academia Brasileira de Ciências no período de 2017 a 2021. "A ABC possui papel importantíssimo no cenário nacional, como importante interlocutora entre diferentes setores da sociedade. Espero poder atuar ativamente na Academia e apoiar o desenvolvimento científico de nosso país", conclui ele.


(Thaís Soares para NABC, 31/03/2017)


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