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SOS à ciência brasileira

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Publicado em 9/06/2017

"Cérebros da Ciência estão saindo do país", alerta presidente da Academia

A manhã do Dia Mundial do Meio Ambiente (5) começou para mim com o alerta de um cientista: o governo Temer, além de tantos desmandos, está menosprezando a Ciência de uma forma muito perigosa. O aviso foi dado pelo presidente da Academia Brasileira de Ciências, Luiz Davidovich , à plateia que estava na abertura do evento promovido pelo Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas (PBMC), no Museu do Amanhã, para apresentação do relatório especial “Impacto, vulnerabilidade e adaptação das cidades costeiras brasileiras às mudanças climáticas”. Davidovich não estava fugindo ao tema-título do encontro, como se pode pensar, mas agregando informações. É preciso que se dê espaço, tempo e, sobretudo, subsídios para estudos científicos em todas as épocas mas, principalmente, numa era de mudanças climáticas.

“Sem apoio a pesquisas científicas não estaremos tão aptos a enfrentar epidemias como enfrentamos, por exemplo, a de zika. E isso tem a ver com a saúde das pessoas. Estamos perdendo muitos cérebros, que estão saindo do país porque aqui não há condições para eles trabalharem. SOS ciência brasileira”, disse ele.

Davidovich mencionou a Zika, assim como poderia ter mencionado qualquer outra grave doença. Os cientistas são importantes para cuidar da saúde humana. E onde é que se faz o link com o meio ambiente? Não é difícil, e vou pegar um exemplo menos complicado para ajudar na reflexão.

Em Mariana, há três anos, uma barragem de mineração se rompeu, jorrando lama e estragos para todos os lados, causando mortes e destruição. Sim, os impactos foram sociais e também ambientais, sem dúvida. Tempos depois, a região começou a apresentar casos de malária, que se espalharam por vários outros lugares. Uma das hipóteses, que pode explicar a rede que se constitui entre meio ambiente, produção industrial e saúde humana, é a de que a lama jorrada pela mineradora Samarco provocou a morte dos sapos da região. Como sapos comem mosquitos, a cadeia alimentar ficou alterada. E os insetos que provocam a malária ficaram sem predadores.

Estou tomando um atalho para chegar à notícia sobre o relatório que foi apresentado no evento, mas é um caminho permitido. As conexões são necessárias em nossa era para que se possa perceber melhor o imbróglio em que se encontra a humanidade. O relatório do PBMC traz vários alertas, mas um deles expõe de forma explícita a conexão entre as mudanças do clima com outro setor forte da vida humana: a economia. Pois uma das conclusões do estudo é que o custo do impacto ambiental pode ultrapassar US$ 300 milhões apenas no Sudeste da cidade de Santos ao longo deste século.

Os dados coletados pelos cientistas do PBMC não trazem notícias muito boas para quem já se junta à massa de 3,6 bilhões de pessoas que vivem em cidades no mundo. Levando em conta que se espera um aumento significativo deste número em 2050 - de 5,6 para 7,1 bilhões, ou 64% para 69% da população mundial - conclui-se que só a produção dos materiais necessários para suportar esse crescimento urbano resultará, até meados do século, na metade das emissões permitidas de carbono, ou seja, cerca de 10 bilhões de toneladas, caso se pretenda atender à meta de limite máximo de aumento de temperatura média do planeta de 2°C em 2100.

“Mudanças no nível do mar, variações de temperatura, precipitação e a ocorrência de eventos climáticos extremos (incluindo chuvas intensas), que poderão acelerar a deterioração de estruturas, aumentar os riscos de interrupções no tráfego e acidentes, com consequente impacto na economia das cidades”, diz o texto.

Para a presidente do Painel, Suzana Khan, a questão é que as cidades estão se tornando protagonistas em enfrentar o aquecimento global justamente por causa do número de pessoas que passaram a viver nas áreas urbanas e a depender de políticas públicas para não se tornarem vítimas dos eventos extremos que cada vez vão acontecer mais. Aqui no Brasil, estima-se que 60% da população vivam em cidades costeiras.

Não são boas notícias, mas também não há nenhuma grande novidade. Há tempos os cientistas vêm informando a respeito da vulnerabilidade das cidades às mudanças climáticas, mas não se vê um envolvimento sério da sociedade, tampouco de seus dirigentes. Eleições após eleições, não se vê candidatos que entendam da causa e se coloquem ativos para mudar o quadro. Para mim, um caso clássico de poucos ouvidos ao alerta da Ciência aqui no Rio de Janeiro foi a construção de uma ciclovia à beira mar. Foi erguida em janeiro e caiu em abril por causa de uma forte ressaca. Houve duas mortes. A tragédia poderia ser maior, por exemplo, se fosse um prédio.

Faz-se necessário, diz o relatório, “a definição de estratégias de mitigação e adaptação para torná-las resilientes”.

“Alternativas de mitigação estão relacionadas a limitação do aquecimento global, ou seja, se referem às intervenções humanas que visam à redução das emissões de gases de efeito estufa (GEE), bem como a ampliação de seus sumidouros. Opções de mitigação estão disponíveis em todos os principais setores em cidades e podem ser mais eficientes se adotarem uma abordagem integrada que combine medidas para reduzir o consumo de energia e a intensidade dos gases de efeito de estufa do uso final dos setores, descarbonizar o fornecimento de energia elétrica, reduzir as emissões líquidas e aumentar os sumidouros de carbono em setores de atividade baseadas no uso da Terra. Hoje, o maior potencial para redução das emissões em cidades no Brasil está no setor de transporte, energia e gestão de resíduos”.

Seguem-se outras tantas boas sugestões no relatório que pode ser lido aqui. Acho importante tornar público um estudo tão detalhado e feito de maneira tão responsável. E é este mesmo o meu papel.

Quanto à eficácia do documento no sentido de, efetivamente, convencer dirigentes a pensarem formas para diminuir os riscos causados pelos eventos extremos, eu me permito duvidar. Houve no encontro um momento em que jornalistas – eu entre eles – refletimos juntos sobre uma forma de chegar ao público mais diretamente. Penso que conseguimos chegar sim, mas às pessoas que já são afetadas pelo tema. Angariar novos leitores é nosso desafio constante.


(Amelia Gonzalez, para o G1, 08/06/2017)


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