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DIVULGAÇÃO CIENTÍFICA

Quem tem medo do pensamento científico?

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Publicado em 10/10/2017

A primeira sessão do I Seminário Scientific American Brasil (SciAm): Ciência e Cidadania, realizado em São Paulo no dia 3 de outubro, teve início com o psicólogo, escritor e historiador da ciência norte-americano Michael Shermer, colaborador da SciAm, fundador da revista Skeptic Magazine e diretor da Skeptics Society. Ele focou sua fala no ceticismo. “Sou cético quanto aos céticos”, declarou, referindo-se ao grupo de pessoas, que inclui cientistas, que não “acreditam” no aquecimento global, por exemplo. “Ceticismo serve para separar o que é ‘crível’ do que não o é. Não é uma questão de crença, é uma questão de compreender fatos devidamente testados, experimentados e comprovados”, afirmou Shermer.

Ele deu alguns exemplos: os efeitos da meditação sobre o cérebro podem ser testados e observados, atualmente, com o uso de exames de imagem. “Seria preciso uma amostragem grande para se avaliar se funciona para todos, para a maioria ou apenas para algumas pessoas. Mas é possível testar”, explicou. Já a afirmativa de que “Jesus morreu por nossos pecados” é impossível de ser comprovada. “Se tomarmos a questão de que ‘Jesus ressuscitou’ – ora, nenhuma outra pessoa, que se tenha ouvido falar, ressuscitou antes ou depois de Cristo. Então a evidência teria que ser extraordinária.”

Para Shermer, um dos parâmetros envolvidos nesse tipo de debate é a dissonância cognitiva. Esta é uma teoria que foi proposta pelo psicólogo norte-americano Leon Festinger na década de 1940. Ele sugeriu que as pessoas têm uma necessidade interior de garantir que suas crenças e comportamentos são consistentes, já que crenças inconsistentes ou conflitantes levam a desarmonia, sentimento que as pessoas se esforçam para evitar. Quanto maior for a força da dissonância, mais pressão existe para aliviar as sensações de desconforto.

Shermer comentou que nunca viu uma pessoa mudar de ideia sobre algo em que acredita apenas porque alguém lhe apresenta evidências em contrário. “Os dados conflitantes com suas crenças fazem com que a pessoa pressionada se aferre ainda mais às suas crenças iniciais”, apontou o psicólogo.

Ele observou, por exemplo, que as pessoas que fazem campanha anti-vacinas desacreditam da indústria farmacêutica como um todo, porque acham que o dinheiro sempre corrompe a medicina. Assim, acreditam que vacinas causam autismo, mesmo sabendo que o único estudo que sugeriu esta relação foi de um autor que foi acusado de fraude e depois se retratou.

Abordou também os “teóricos da conspiração” que acham que o ataque de 11 de setembro foi uma mentira criada pelo próprio governo norte-americano para criar uma nova ordem mundial e que o desastre foi provocado intencionalmente. O argumento seria o ponto de fusão do aço que causou o colapso das Torres Gêmeas, um detalhe que não confirma nem esclarece a proposição do grupo.

Shermer citou algumas frases de cientistas famosos pertinentes ao tema. Richard Dawkins, por exemplo, afirmou que “quando dois pontos de vista opostos são expressos com igual intensidade, a verdade não está necessariamente, num ponto médio entre os dois. É possível que um lado esteja simplesmente errado”.

O biólogo, arqueólogo e antropólogo Walter Neves, coordenador do Laboratório de Estudos Evolutivos Humanos do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (USP), fez uma abordagem muito interessante. Ele explicou que a linhagem humana começa há 7 milhões de anos, e que as representações simbólicas têm apenas 50 mil anos. “Nem o homo sapiens, que surgiu há 200 mil anos, atribuía inicialmente significado a todas as coisas. Esta capacidade de expressão simbólica é muito recente na evolução humana.”

A revolução criativa do Paleolítico, como ele denominou, trouxe comportamentos adaptativos significativos. Algumas vezes, no entanto, acontece desta adaptação ser relativa. Walter Neves apontou como exemplo a depressão, que seria um ponto de desgaste do significado. Mas explicou que naquele momento da evolução houve um pico de desenvolvimento tecnológico e de explosão concomitante de criatividade.

Alguns costumes cujo surgimento foi localizado no Paleolítico Superior estão relacionados com a capacidade de simbolização. Neves deu como exemplos os sepultamentos, os adornos que marcavam a individualidade, a estilística nos objetos com sentido de etnicidade, as primeiras esculturas e a arte rupestre. “Todos estes elementos surgiram nos últimos 50 mil anos, junto com o pensamento religioso”, relatou Neves. Ele citou Hegel, que dizia que o pensamento religioso sempre se sobreporá ao pensamento científico, porque o primeiro traz um projeto de significado para a vida, uma visão de mundo, enquanto a ciência traz visões fragmentadas.

Para exemplificar, Neves fez um relato de caso: contou que, numa escavação na Jordânia, trabalhou com operários chechenos, que eram muçulmanos fundamentalistas. “Encontramos ferramentas de pedra lascada com 2,4 milhões de anos, fato que muda em 500 mil anos a história. Conversando sobre isso com os chechenos, eles reconheceram que encontraram artefatos de ancestrais e entenderam o significado do fato. Mas pediram para que não insistíssemos nesse ‘papo de evolução’”, salientou.

O físico e Acadêmico Paulo Artaxo , que falou em seguida, destacou a antiguidade do comportamento negacionista. “Desde a Idade Média, quem contrariava o pensamento vigente era queimado.” Isso interessa, a seu ver, aos conservadores, que querem manter o status que os beneficia até hoje. “É um comportamento estratégico, é o jogo da sociedade do conhecimento. Avanços tecnológicos ameaçam setores da indústria, então não interessam aos detentores do poder econômico oriundo destes setores”, esclareceu Artaxo, que é um dos pesquisadores brasileiros mais citados no mundo por seu trabalho com física aplicada a problemas ambientais.

Para Artaxo, o poder econômico está acima de tudo. Ele afirma que a ciência das mudanças climáticas pode interferir diretamente nas atividades econômicas. “Inviabiliza, por exemplo, a exploração de carvão, enquanto faz avançar a pesquisa e implantação da energia solar em larga escala. A indústria de carvão nos Estados Unidos é o que há de mais retrógrado e financiou parte da campanha à presidência de Donald Trump. Estes interesses econômicos que estão em jogo criam tensão e isso se reflete tanto na política dos Estados Unidos como na do Brasil”, afirmou o pesquisador.

"Lá, as pesquisas em mudanças climáticas que podem comprovar a motivação antropogênica deste desequilíbrio climático estão sendo extintas. Com isso, os Estados Unidos estão perdendo o protagonismo na pesquisa científica. Do outro lado está a China, investindo em sustentabilidade e ganhando competitividade econômica", acrescentou.

No Brasil, o que Artaxo identifica é um movimento anticiência, querendo acabar com as universidades e os institutos de pesquisa. “Mas não é por falta de dinheiro. É, mais uma vez, um movimento estratégico, relacionado a uma mudança de modelo econômico, implementada pelo ministro da Fazenda. Conhecimento se torna desnecessário quando o foco do lucro é o próprio mercado financeiro”, explicou. “Temos que entender isso para lutar com as armas certas”, afirmou o membro do IPPCC, o painel de clima da Organização das Nações Unidas (ONU).

Ele diz que as Academias estão tentando esclarecer os governantes, mas que não adianta, porque a atitude é deliberada. “No Rio estão destruindo a Uerj [Universidade do Estado do Rio de Janeiro], a Uenf [Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro] e a Uezo [Centro Universitário Estadual da Zona Oeste] e outras universidades. Em São Paulo, o governo vem tentando abocanhar os recursos da Fapesp. A estratégia é não contratar ninguém nos institutos de pesquisas do Estado de São Paulo por dez ou vinte anos e depois dizer que não vão investir porque o setor está morrendo”.

Artaxo cita a Amazônia como exemplo concreto da estratégia de destruição ambiental e da ciência. Apesar de todos os alertas do INPE [Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais] e outras instituições sobre a necessidade de proteger o meio ambiente e estruturar políticas de conservação da Amazônia, a bancada de 225 deputados ruralistas concretizou o desastre anunciado: o ano de 2017 teve o maior índice de aumento de queimadas de toda a série temporal do INPE. E o desmatamento continua a aumentar, contra os interesses do país.

“Mais uma vez, os interesses de uma pequena parcela da sociedade brasileira se sobrepõem aos interesses da maioria da população brasileira, ignorando as orientações científicas. A comunidade científica precisa atingir melhor a população, governo e mídia", reiterou Artaxo.

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(Elisa Oswaldo-Cruz para Notícias da ABC)


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