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Mapeamento da biodiversidade brasileira: áreas críticas

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Publicado em 25/09/2017

A sessão intitulada "Mapeamento da Biodiversidade Brasileira: Áreas Críticas", parte do Simpósio Preparatório Brasil/França sobre Biodiversidade, realizado na ABC em 20 e 21 de setembro, teve apresentações de especialistas de ponta da UFU, do INPA, da UFRGS e da UEFS sobre o cerrado, Amazônia, pampas e caatinga. A coordenação da sessão coube à professora titular da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Leonor Costa Maia, também curadora do Herbário URM e chefe do Laboratório de Micorrizas. Ela coordena o INCT Herbário Virtual da Flora e dos Fungos, além de outros projetos.

O cerrado tem que ser olhado de perto

O professor titular da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), Kleber del Claro, atua como diretor de Pesquisas (2017-2020) da instituição. Ele falou sobre o cerrado, bioma que, em sua opinião, “muita gente olha e não vê”. Embora pareça “desmatado” em relação às florestas, o cerrado é o segundo maior bioma do país, ocupando 2 milhões de km2, ou seja, 25% do território nacional. E precisa ser olhado de perto.

Na visão dos cientistas, o cerrado é o habitat de mais de 60 mil espécies de invertebrados, por exemplo. Del Claro ressalta que faz mais sentido, neste ambiente, falar sobre a biodiversidade das interações ecológicas, da conectividade entre as espécies, que é o que pode garantir a preservação.

“O cerrado é um mosaico de biomas internos: as veredas, que são mais úmidas com solo argiloso; as matas ciliares, os campos rupestres e a área montanhosa”, explicou o ecólogo. Ele contém 5% da fauna mundial e 35% da fauna brasileira. No entanto, é uma região de interesse para plantio de soja, algodão, cana e criação de gado, e a expansão destas atividades causa impactos sobre a natureza, ou seja, sobre a biodiversidade.

Foto: Diogo Vilela

Del Claro ressaltou ainda outros impactos ambientais no cerrado, causados pelo fogo e por invasões. “Os fazendeiros botam fogo deliberadamente para atingir a reserva e, assim, ‘ganharem’ área para seus vegetais e seu gado”, alertou. “Além disso, são frequentes as invasões de sem-terra e de grileiros. É uma área prioritária e crítica”.

E esta prioridade é bem justificada. Del Claro observou que as áreas de veredas, por exemplo, são onde se localizam as nascentes dos rios. “Conhecemos pouquíssimo sobre o ambiente aquático desta área, há muitas espécies novas. Seu estudo vai ajudar a entender a conectividade genética entre as veredas, qual recombinação gênica está ocorrendo de forma mais intensiva, enfim, há muitos interesses de pesquisa”, explicou.

Outro aspecto que o pesquisador evidenciou foi a grande sazonalidade do cerrado. “A variação extrema entre chuva e seca gera uma variabilidade fenotípica correspondente, ou seja, grande diversidade.” Ele explicou que há um sequenciamento floral, ou seja, os tipos de flores se sucedem e isso garante a diversidade animal: os herbívoros vão migrando de uma planta para outra, podendo sobreviver neste ambiente apesar da sazonalidade. E a interação entre as espécies, de acordo com Del Claro, varia de um ano para outro.

Ele relatou que em seu grupo de pesquisa há um engenheiro, estudante de doutorado, que desenvolveu um software para prever o que vai acontecer com as plantas locais em função das mudanças climáticas. “Vários cenários estão sendo estudados”, contou Del Claro. E uma questão fundamental é a da observação noturna. “Alguns pesquisadores que só vão a campo durante o dia acham que determinadas espécies não existem na região. Mas existem só que a atividade delas é noturna, em função do calor, como algumas aranhas e formigas”, esclareceu o cientista.

Kleber Del Claro encerrou ressaltando a importância da divulgação científica. “Precisamos explicar aos fazendeiros a importância dos serviços ecológicos, a importância de preservar os fragmentos de biomas. Isso vai impactar inclusive nos lucros deles, futuramente”. Além dos fazendeiros envolvidos em agronegócio, os políticos também estão na mira de Del Claro. “Precisamos de vídeos de divulgação científica para mostrar aos políticos e gestores de forma clara e objetiva a importância de se levar em conta os resultados da ciência para o desenvolvimento do país.”

* Kleber Del Claro é professor titular da UFU, onde atua como diretor de Pesquisas (2017-2020) e coordenador da Pós-Graduação em Ecologia. É membro do Conselho Científico do Centro Whitney Harris de Ecologia Mundial, nosEUA, e editor associado da revista internacional Sociobiology. Dedica-se ao estudo da ecologia comportamental e de interações, com ênfase nas interações multitróficas sobre a diversidade e conservação de ecossistemas naturais. Apaixonado pela história natural, comportamento animal e divulgação científica, ele inaugurou a página de livros eletrônicos do CNPq. Dirige o site de divulgação “A ciência que nós fazemos”.

Políticas desenvolvimentistas sustentáveis têm que ser baseadas em ciência

O pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) Jansen Zuanon começou pegando o gancho da divulgação científica, citada pelo palestrante anterior: ele se disse espantado pelo vazio de informação na mídia sobre biodiversidade.

Sua área de pesquisa são os impactos ambientais versus a conservação da ictiofauna, isto é, a população de peixes. “Avalia-se a existência de pelo menos 1 milhão e 800 mil espécies de organismos no Brasil, entre animais, vegetais e microorganismos. Mas só conhecemos 10% deste total”, observou. "Uma parte importante dessa diversidade é representada pelos peixes, cuja variedade é enorme no Brasil, mas quase invisível para a maioria das pessoas por estar ’escondida’ sob as águas”, observou Zuanon. Destas espécies conhecidas, 10% estão ameaçadas de extinção. E o ecólogo alertou: “Este é um dos desafios da megadiversidade: como conhecer antes de destruir”. Das 409 espécies de peixes ameaçadas no país, 21% são da bacia Amazônica. As causas podem ser o desmatamento, a sobrepesca e a construção de hidrelétricas, sendo que a última é a principal ameaça à 62% das espécies em risco.

Uma iniciativa que visa contribuir para o mapeamento da diversidade de espécies de peixes na Amazônia é o Projeto AmazonFish. “São mais de100 coleções, organizadas a partir de mais de 10.000 locais de coleta. As amostragens são concentradas na calha de grandes rios. Mas em áreas de terra firme, nos pequenos riachos, há grandes hiatos de amostragem”, esclareceu o palestrante. E Zuanon pode comprovar essa diversidade numa experiência recente: em 15 dias de trabalho de campo no rio Javari, ele e seu grupo encontraram 430 espécies de peixes.

Além disso, Zuanon ressaltou que os dados existentes não estão devidamente organizados de forma a permitir análises mais amplas da diversidade de peixes no país. “Os bancos de dados que existem possuem formatos diferentes, não se comunicam; boa parte da informação está armazenada em bancos de dados dispersos mantidos por pessoas e instituições diferentes, sem acesso fácil para os pesquisadores interessados em realizar essas análises ”, apontou o ecólogo. O projeto AmazonFish vem sendo desenvolvido em parceria com a Comunidade Europeia e outros países da América Latina e Caribe.

Enfim, há muito trabalho a ser feito. E mais do que o trabalho, há que se enfrentar as políticas desenvolvimentistas. “Esses planejamentos não são embasados no conhecimento científico, o que faria toda a diferença. Os políticos não têm noção das consequências de certas ações, inclusive as consequências sociais”. Zuanon lembrou que os pescados são a base da alimentação das comunidades locais, praticamente a única fonte de proteína animal. “Como frear ou mitigar essa perda?”, questionou o cientista.

Zuanon dá um exemplo bem objetivo: o trecho do rio Xingu alterado para a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte deverá sofrer fortes efeitos das mudanças climáticas. No trecho do rio que teve sua vazão reduzida para 20% da original haverá muito aquecimento da água. “Isso deverá amplificar os impactos ambientais já existentes naquela área. Vai colocar em risco de extinção diversas espécies de peixes que vivem nas corredeiras remanescentes da construção da usina”, alertou.

Ele explicou que a perpectiva de construção de dezenas de novas usinas hidrelétricas nos afluentes do rio Amazonas que drenam a região dos Andes no Peru, Bolívia e Equador deverá causar uma grande diminuição na carga de sedimentos transportados pelos rios. "Vai haver redução significativa na quantidade de peixes explorados pela pesca comercial e de subsistência na Amazônia Brasileira". E reforçou: “A garantia da segurança alimentar das populações locais requer a preservação da biodiversidade aquática”.

A preservação das terras indígenas, por exemplo, outro alvo das políticas desenvolvimentistas, é fundamental para a conservação da biodiversidade na Amazônia. “Mas nós, pesquisadores, temos muita dificuldade no acesso a essas áreas. Para fins de pesquisa, deveria haver uma maior flexibilidade”, avaliou. E Zuanon explica: “Não basta saber o número de espécies existentes na Amazônia, é preciso conhecer aspectos da sua distribuição geográfica, sua biologia e ecologia. Sem essas informações, não é possível saber quais dessas espécies são endêmicas de determinadas bacias hidrográficas e que correm risco de extinção, em decorrência de impactos ambientais iminentes.”

*Jansen Zuanon é pesquisador do Inpa, tendo experiência nas áreas de ecologia e taxonomia de peixes de água doce, atuando principalmente nos temas Amazônia, peixes, ecologia, história natural, ictiofauna e comunidades. É coordenador do Projeto Igarapés, que estuda a ecologia de riachos na Amazônia Brasileira.

Campos sulinos: nem só em florestas há biodiversidade a preservar

O professor titular do Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Valério de Patta Pillar, abordou a biodiversidade em ecossistemas não florestais, nos campos sulinos. Ele explicou que, na época do descobrimento do Brasil, mais de 30% do país era composto por vegetação não-florestal. Hoje, restam menos de 40% da cobertura original do período da colonização.

Segundo Pillar, o principal motivo, no que se refere aos campos sulinos, é a expansão da agricultura (lavouras) e da silvicultura (plantações de eucalipto e pinus). Essas atividades requerem a supressão da vegetação nativa, que são os campos. Com isso, os campos que são conservados pelo uso pastoril para produção pecuária (bovinos e ovinos), sem necessidade de plantio de pasto, foram substituídos pelas lavouras e plantações de árvores. Por isso, hoje restam menos de 40% da cobertura original de campos do período da colonização. "As queimadas ocorrem nos campos há milhares de anos, mas não os destroem", esclareceu. O ecólogo esclareceu que sua pesquisa envolve o entendimento não só sobre quais são os organismos presentes nesta biodiversidade, mas como são estes organismos, quais as suas funções ecossistêmicas e as relações causais que afetam os serviços ecossistêmicos. “Nos pampas existem 1.941 espécies de plantas e 476 de aves já identificadas”, observou o palestrante.

De acordo com o pesquisador, a perda de habitat sempre causa redução de biodiversidade. “Temos redes de experimentos de longa duração que avaliam os efeitos do manejo nas populações”, relata. “A supressão do manejo pastoril, por exemplo, reduz a riqueza de plantas campestres. Já o ajuste da intensidade de pastejo ao crescimento de forragem permite aumentar a biodiversidade e a produtividade. O pastoreio rotativo, portanto, é mais produtivo do que o manejo tradicional”, relatou Pillar. Eles estudam também os efeitos de regimes de manejo pastoril nos estoques de carbono no solo e a infiltração de água.

Campos de solos rasos da região da Campanha, em Quaraí, e campos de altitude em São
Francisco de Paula, ambos no RS

Valério Pillar aponta, no entanto, algumas lacunas de conhecimento: a predição dos efeitos das mudanças de uso da terra (que envolvem a supressão da vegetação campestre) em funções ecossistêmicas e seus benefícios em diferentes escalas de espaço e de tempo, por exemplo, assim como os principais fatores preditivos da regeneração natural da vegetação campestre, quando o uso agrícola é descontinuado. Outro aspecto sobre o qual não há estudos suficientes diz respeito aos efeitos das mudanças climáticas na biodiversidade, em funções ecossistêmicas e seus benefícios. “O papel da biodiversidade na estabilidade ecossistêmica sob extremos climáticos também é uma área que requer aprofundamento”, apontou o palestrante.

A maior dificuldade, no entanto, ainda é o próprio homem. “Precisamos convencer tomadores de decisão a conservar vegetação nativa campestre”, alertou Pillar. “Há um conceito errado que é amplamente aceito, de que onde não há floresta, é área desmatada. Nem sempre. Muitas vezes é apenas outro tipo de vegetação, outro bioma, como no caso dos campos sulinos.”

* Valério de Patta Pillar (UFRGS) é editor-chefe dos periódicos Journal of Vegetation Science e Applied Vegetation Science. Tem experiência na área de ecologia de comunidades e ecologia quantitativa, atuando principalmente nos seguintes temas: padrões funcionais e filogenéticos de organização de comunidades, biodiversidade e processos ecossistêmicos, campos sulinos, dinâmica, manejo, conservação, fogo, pastejo, dinâmica paleoecológica, mudanças globais, métodos de análise multivariada e métodos de permutação e reamostragem. Preside a Associação Brasileira de Ciência Ecológica e Conservação (Abeco). É membro da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio).

Densidade hídrica dirigiu a evolução da vegetação da caatinga

O professor titular da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS) Luciano Paganucci de Queiroz tratou da diversidade fitogeográfica da caatinga, sua origem e evolução. Ele explicou que as plantas desta região se caracterizam por folhas pequenas e pela suculência (armazenagem de água), que são respostas à restrição de água.

Queiroz explicou que a floração maciça se dá no início da estação chuvosa, mas que há grande variedade na estrutura da vegetação, embora havendo continuidade. “É um bioma muito fragmentado, com vegetação muito sensível ao fogo e ao frio”, disse. Destacou ainda que cada unidade de vegetação seca é única em nível continental e, às vezes, global.

Hoje, são registradas oito ecorregiões no Brasil com 57 áreas de alta relevância biológica, concentradas no nordeste do país. As dez candidatas mais importantes para conservação das espécies vegetais são, em ordem decrescente: a região do Médio São Francisco, Delfino, Quixadá, Caruaru, Abaíra, Campo Maior, Maracás, Baixo Jaguaribe, Xingó e Bom Jesus da Lapa/Jaíba.

A biota da caatinga, de acordo com Paganucci, é estruturada em grande parte pela geologia: há a parte cristalina, a sedimentar (arenosa) e a parte com pedras. As espécies vegetais são muito antigas: algumas têm entre 25 e 30 milhões de anos. Outras, mais recentes, têm de 2 a 3 milhões de anos. Segundo Paganucci, a caatinga é “fim de linha ecológica”. Ele explicou que as linhagens que vêm de florestas tropicais e do cerrado, na caatinga sofrem muita restrição hídrica e as que se adaptam, se modificam também. “Quando há variação do solo, mudam as espécies”, relatou.

* Luciano Paganucci de Queiroz (UEFS) é membro fundador da Academia de Ciências da Bahia (ACB), atua na área de botânica, com ênfase em taxonomia e filogenia de fanerógamas. Em suas atividades profissionais interagiu com 132 colaboradores em coautorias de trabalhos científicos.

Kleber del Claro; a coordenadora da sessão, Leonor Maia (UFPE); Luciano Paganucci, Valério Pillar e Jansen Zuanon

(Elisa Oswaldo-Cruz para NABC)


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