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Ciência - o inédito, o interessante, o aplicável, o rentável… Ciência - o exercício de cidadania de um país

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Publicado em 13/01/2017

Artigo da Acadêmica Regina Pekelmann Markus , professora titular do IBUSP, membro da Aciesp, e dos conselhos deliberativos da SBPC e do CNPq

Estamos sob uma nova velha ordem no Brasil que vem construindo uma ponte entre momentos históricos. Como sempre, pouco conhecemos do passado recente, visto que apenas conseguimos ver o que os nossos olhos, ou mesmo óculos conseguem focar. Assim, em cada grupo ideológico, classe social ou origem parental temos opiniões diferentes. Há no entanto "coisas" que consideramos essenciais e entre estas está a educação e a saúde e outras que parecem ser muito importantes, mas que podem ser relativizadas e entre estas está a ciência.

Ciência, uma atividade que tem permitido a humanidade distinguir-se de outras espécies levando o homem a domínio e uso de tecnologias cada vez mais avançados. Atividade pouco compreendida que às vezes é romantizada, às vezes temida e outras precisa ser controlada.

Um fato é certo, a capacidade de gerar conhecimento é que tem distinguido nações e povos ao longo da história. O domínio da agricultura e da tecnologia da construção. A capacidade de singrar os mares e o espaço. A melhoria da condição de vida através do progresso da medicina. Todos estes fatos, que foram importantes na antiguidade, no início da Era Comum, na Idade Média e Moderna continuam sendo na atualidade.

Vindo para o mundo real lembro do dia 24 de outubro de 1924, a famosa quebra das bolsas de Nova York. Falta de regulação e de comprometimento fez com que uma país inteiro e o mundo sofresse grandes perdas, a partir de papel. E as empresas estavam com dinheiro, e com estoques, mas não tinham para quem vender. No que aplicar? No que investir? Conta a história que uma delas resolve investir em perguntas básicos e saber se é possível formar longas cadeias de carbono (polímeros). Muita química? Muito técnico? Sim, para a maioria, mas não para o jovem William Carothers e a diretoria da Dupont. Era algo revolucionário na época, mas era uma forma de investimento e a Dupont de 1924 investiu em ciência básica e colheu os frutos dez anos depois, com o início da era do nylon e de muitos outros polímeros.

Será que é muito distante? Então voemos no tempo até 2016, e vamos avaliar o plano quinquenal da China (2016 - 2020). O objetivo do 13o Plano Quinquenal é que os trabalhos científicos da China passem a ser os segundos mais citados no mundo e que os cientistas da China estejam entre os 10% mais citados do mundo. O Fundo criado para este fim é gerenciado pela "National Natural Science Foundation of China (NSCF)". Esta vontade é traduzida em investimento de 88.8 bilhões de yuans (13,6 bilhões de dólares).

E o Brasil??? Nos últimos 40 anos, com investimento nacional e no caso de São Paulo com um forte investimento estadual, o Brasil logrou alcançar o 13o lugar em publicação e 18o em citações no mundo (Thomas Reuters, SCImago, 1996-2014). Disto deveríamos nos orgulhar e continuar. Mas, ao invés vemos o governo atual desmontar o sistema, e mais do que isto, começamos a ver que existe estudos teóricos baseando estas atitudes (Fernanda de Negri, O Estado de São Paulo, 7 de novembro de 2016). Estes estudos ignoram o obtido e consideram que a ciência brasileira pouco contribuiu para o desenvolvimento do País. Dizem que é preciso focar na busca do conhecimento. Sabemos que esta é a forma ideal para chegarmos a muito pouco.

Nas áreas em que o Brasil tem competência em absorver o conhecimento gerado, a contribuição foi altamente significativa, como é o caso da agricultura - e isto não só se reflete na competência econômica, como também retorna para a competência científica - o Brasil responde por 10% dos trabalhos internacionais nas áreas Ciências Agrícolas (Thomas Reuters, inCities - 2011). Em ciências ambientais o Brasil responde por 7,4% - o que demonstra que também temos visibilidade no caso de meio ambiente e biodiversidade - a nossa ciência vem contribuindo de forma mensurável para o equilíbrio entre o desenvolvimento humano e a saúde planetária.

Seguindo nesta lista que mostra o quanto a ciência brasileira vem produzindo encontramos a área de Farmacologia e Toxicologia - a indústria farmacêutica brasileira engatinha e as internacionais têm suas bases científicas alhures… Então?? Neste caso temos que considerar que os avanços obtidos em território nacional e nas Universidades Brasileiras, com foco especial ao Campus de Ribeirão Preto da USP, são marcos importantes na Farmacologia Internacional e que o Brasil está inserido como capítulos básicos de livros textos e na história do desenvolvimento de fármacos para hipertensão, inflamação e dor. Nominar apenas um Centro em todo o território nacional é uma injustiça e é preciso deixar registrado que centros de excelência científica são encontrados no Nordeste, Sudeste, Centro-Oeste e Sul - e que alguns estão sendo formados na região Norte.

Respostas rápidas a problemas emergentes só podem ser dadas quando a competência instalada está ativa e articulada. Anos de financiamento, com avaliação permanente e foco em excelência fizeram com que rapidamente os cientistas brasileiros tivessem competência de focar na zika e mostrarem que esta causava microcefalia. Passo muito importante na busca da solução, quer individual, quer de grupo.

Por que a Ciência Brasileira não é reconhecida e encontra importantes críticos dentro e fora das Universidades? A falta de capacidade de captação do conhecimento e transferência do mesmo para o setor produtivo é uma questão que tem que ser avaliada. Investimento dirigido por aqueles que podem consumir e transformar, leis que permitam que esta transferência seja objetivada. Enfim, temos que nos debruçar neste processo e encontrar formas adequadas de gerar pessoal e competência na área de transferência. Mas, NUNCA, JAMAIS - tolher e extinguir com todo o progresso já conseguido na GERAÇÃO de conhecimento. Não existe conhecimento inútil.

A desconstrução da ciência brasileira ora em curso precisa parar.


(Regina P. Markus para Jornal da Ciência, 7/11/2016)


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