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Biodiversidade e biologia evolutiva para sustentabilidade

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Publicado em 28/09/2017

A sessão intitulada "Singularidades da Biodiversidade brasileira: Biologia Evolutiva", coordenada pelo Acadêmico José Alexandre Felizola Diniz Filho, professor titular da Universidade Federal de Goiás (UFG), integrou o Simpósio Preparatório Brasil/França sobre Biodiversidade, promovido pela ABC entre 19 e 21 de setembro. Foram convidados a compor o debate sobre biodiversidade brasileira pelo viés da evolução o Acadêmico e médico geneticista da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Sérgio Danilo Junho Pena ; o biólogo Antonio Mateo Sole-Cava, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); o biólogo da Universidade Estadual Paulista (Unesp) Claudio de Oliveira e Rosana Tidon, bióloga e coordenadora do Laboratório de Biologia Evolutiva da Universidade de Brasília (UnB).

Da esquerda para direita: Claudio Oliveira, Rosana Tidon, Antonio Sole-Cava, o coordenador da mesa José Alexandre Filho e Sérgio Pena .

"A humanidade é muito nova para que haja uma grande variedade genética”

Pena abordou a biodiversidade humana no Brasil. Ele explicou o conceito de variância genética para abrir a discussão sobre a ancestralidade do povo brasileiro. No estudo conduzido por ele, é possível ver que a população brasileira, quando separada por região, apresenta maior ancestralidade europeia nas regiões Sul e Sudeste – onde uma maioria se reconhece branca. Nas regiões Norte e Nordeste, há maioria de pardos. Entretanto, em todas as regiões, há um predomínio da ancestralidade europeia.

Segundo o geneticista, o conceito de cor ou raça proposto pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que separa a população em brancos, pardos, negros e amarelos ou indígenas, é fluido, uma vez que principalmente o conceito de pardo ou preto varia de acordo com as regiões, por fatores como a exposição ao sol, tornando muito tênue a relação entre cor de pele e ancestralidade genética.

O Acadêmico defendeu um tratamento individual da diversidade genética humana do país, por tratar-se "de 210 milhões de indivíduos, únicos e singulares na sua ancestralidade, em seus genomas e em suas histórias de vida”.

A pluma amazônica na diversidade marinha

O biólogo da UFRJ Antônio Sole-Cava falou sobre um importante fator na investigação da diversidade marinha brasileira: a pluma amazônica. A massa de água doce trazida pelo rio Amazonas, chamada pluma pelos cientistas, escondeu por anos um recife rico em espécies, 60 a 120 metros abaixo da superfície. Descoberto em 2016, a presença de uma variedade de esponjas e lagostas que só proliferam em ambientes complexos foi a pista para o achado. Em sua pesquisa, Sole-Cava notou que uma das espécies mais comercializada de lagosta que ocorre no Brasil, e que se acreditava ser a mesma que aparece no Caribe era, na verdade, de uma outra espécie. “Nós percebíamos que a pluma era uma barreira para algumas espécies, mas não para outras. O recife funciona como uma ponte para algumas delas transitarem entre o Brasil e o Caribe”, explicou Sole Cava, referindo-se às diferencas nas faunas entre a costa caribenha e a brasileira, separadas pela pluma amazônica.

Com a descoberta do recife, alguns aspectos do fluxo de diversidade marinha na região da pluma ganharam novos desafios. Dentre eles, foi observado que o fluxo principal, que se acreditava ser Brasil-Caribe, devido à correnteza, pode tomar novos rumos. “Antes, acreditávamos que as espécies só poderiam se mover com o fluxo da água, mas agora sabemos que algumas podem ir ‘andando’, com colonizações sucessivas no fundo de corais”, comentou. Além disso, levantou a importância de entender o impacto que a exploração petrolífera tem na biodiversidade desse recife e no fluxo dela, caso haja dano ambiental.

Rios rápidos, incubadores de diversidade biológica

Nos ambientes de água doce, Cláudio Oliveira, biólogo e pesquisador da Unesp, traçou dois principais panoramas para a evolução da diversidade de peixes: os fatores intrínsecos e os extrínsecos. Para ele, o que rege a evolução dos peixes, objeto de seu estudo, são seu genoma e a seelção natural, e estes fatores estão sempre em conexão.

Em sua pesquisa, Oliveira tratou especificamente da combinação destes fatores na evolução de 105 espécies do cascudinho, um tipo de peixe bagre de água doce, comum na América do Sul. “Nós combinamos dados morfológicos, reconstrução filogenética, tempo de calibração com aspectos como habitat e fenótipos para determinar como o mesohabitat dos rios, seu fluxo e seus substratos afetaram a diversidade morfológica e a cladogênese destes peixes”, explicou, fazendo referência ao processo evolutivo no qual uma espécie dá origem a duas ou mais.

Oliveira explicou que a pesquisa levou a um entendimento de que há uma grande diversidade fenotípica desses peixes, em contraste com a teoria inicial de que a vida em habitat de rios rápidos evolui lentamente. “Esses resultados reforçam o entendimento de que rios rápidos são uma grande incubadora de diversidade biológica e especialização e de que é extremamente necessária a preservação desse ambiente”, pontuou.

A importância dos pequenos insetos na pesquisa

A bióloga da UnB Rosana Tidon abordou a pesquisa da biodiversidade com foco em insetos, que, segundo a pesquisadora, são excelentes modelos de estudo devido ao seu pequeno tamanho, facilidade de coleta e importância ecológica. Tidon tratou especificamente das moscas drosofilídeas no bioma Cerrado, que tem monitorado há mais de 20 anos. Ela explicou que, durante esse período, detectou a chegada de três espécies procedentes de outras regiões biogeográficas. Duas delas (Zaprionus indianus e Drosophila suzukii) causam importantes impactos econômicos na fruticultura, além de impactarem áreas de vegetação natural, uma vez que colonizam também frutos nativos.

Como as espécies neotropicais são mais sensíveis à perturbações, como a urbanização, nessa família de moscas a fauna nativa está aparentemente sendo substituída pelas espécies que invadiram e se estabeleceram no Brasil: “Um fato que descobrimos com esse estudo foi que a introdução de espécies exóticas tem grande influência na diversidade neotropical”, destacou a bióloga. Essa homogeneização biótica está sendo observada também em outros grupos de animais e plantas e é uma importante causa da extinção de espécies. Para Tidon, é necessário investir no estudo da taxonomia, uma vez que insetos são ricos em informações para entender processos ligados à origem e manutenção da biodiversidade.


(Thaís Soares para NABC)


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