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Água e ciência no Brasil: desenvolvimento ou modernização?

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Publicado em 2/05/2017

O Acadêmico José Galizia Tundisi  abriu as sessõescientíficas do evento "Água na mineração, agricultura e saúde: o que a ciênciatem a dizer a partir de Minas Gerais", realizado na UFMG nos dias 19 e 20 deabril, com uma conferência queabordou um tema identificado pelo falecido Acadêmico Celso Furtado: o Brasil éum país que vem se modernizando, mas não vem se desenvolvendo.

No livro "O mito do desenvolvimento econômico", publicado em 1974, Furtado afirma que os autores da época dão por evidente ser possível universalizar o desenvolvimento econômico, tal qual vem sendo praticado pelos países que lideram a revolução industrial, que os padrões de consumo da minoria da humanidade que vive nos países altamente industrializados poderão ser acessíveis às grandes massas de população em rápida expansão que formam a periferia. Essa ideia constitui, seguramente, um prolongamento do mito do progresso, elemento essencial na ideologia da revolução burguesa, na qual se criou a atual sociedade industrial.

A outra "vaca sagrada" dos economistas, na visão de Furtado, é o Produto Interno Bruto (PIB), um conceito ambíguo, amálgama considerável de definições mais ou menos arbitrárias, cujo conceito de taxa de crescimento é mais ambíguo ainda. Por que ignorar na medição do PIB, o custo para a coletividade da destruição dos recursos naturais não renováveis, e o dos solos e florestas (dificilmente renováveis)? Por que ignorar a poluição das águas e a destruição total dos peixes nos rios em que as usinas despejam seus resíduos? Se o aumento da taxa de crescimento do PIB é acompanhado de baixa do salário real e esse salário está no nível de subsistência fisiológica, é de admitir que estará havendo um desgaste humano. As estatísticas de mortalidade infantil e expectativa de vida podem ou não traduzir o fenômeno, pois sendo médias nacionais e sociais anulam os sofrimentos de uns com os privilégios de outros, dizia em sua obra o falecido Acadêmico Celso Furtado.

O Brasil é um país com alta biodiversidade, área agrícoladesenvolvida, disponibilidade de água; população de tamanho adequado e aindajovem, recursos naturais abundantes e distribuídos em todo o territórionacional. Nossa agricultura é competitiva a nível mundial, mesmo com irrigaçãode apenas 16% da produção. Temos potencial para produção de energia de baixocarbono. No entanto, com todos estes atributos, a modernização não estátrazendo desenvolvimento.

Tundisi destacou três pontos chave na abordagem deste tema: aeconomia das bacias hidrográficas depende da disponibilidade de água; a água éfundamental para a produção de energia no Brasil e para a produção dealimentos; a poluição e contaminação das águas têm impactos nas economiasregional, municipal e nacional. Por esses motivos, os três eixos estão interligadospermanentemente, em todos os fóruns: água, energia e alimentos.

O Brasil tem água suficiente, configurada no mapa doestresse hídrico mundial previsto para 2040. "A Amazônia é o maior sistema debiodiversidade do planeta que depende de água, bilhares de km2 de florestasalagadas são um acervo de segurança social para o país, mas as usinashidrelétricas da Amazônia vão colocar em risco esse equilíbrio ecológico local.A floresta amazônica tem um papel continental de extrema relevância em funçãodos rios voadores. O país tem 89% de cobertura de abastecimento de água - e aprincipal falta é na região norte do Brasil, exatamente a que tem mais água. Temostambém o pantanal, com 200 mil km2", contextualizou o palestrante.

Urbanização semplanejamento hídrico ameaça os sistemas

No Nordeste, a variabilidade das secas é intensa e há grandealteração da segurança hídrica. Descendo para a região Sudeste, Tundisireferiu-se à São Paulo, onde o sistema de abastecimento está diretamente ligadoaos sistemas Guarapiranga e Cantareira. "Onde há parques florestais, háconservação da quantidade e da qualidade da água. São muito boas iniciativas,mas poucas", explica o especialista. A urbanização tem avançado no estado e emtodo o país na direção dos sistemas hídricos, o que tem afetado a segurançahídrica das populações urbanas, pois há um uso competitivo da água -agricultura x abastecimento urbano. "Precisamos avançar no uso de águasubterrânea, através de poços."

Um dos problemas que tem que ser atacados no país, de acordocom Tundisi, é que os planos diretores de muitos municípios não estãopreocupados com a gestão dos recursos hídricos, que é o que permite o avançoeconômico e social. "E aí entra o aspecto político, que é a proposta deprivatização da água. As experiências internacionais são muito negativas, como asde Buenos Aires, na Argentina, e a de Cochabamba, na Bolívia. E como isso estádiretamente relacionado com a saúde, fica claro que o estado tem que prover deágua a população. Em Cochabamba, por exemplo, as famílias das periferiasgastavam 10% de seus rendimentos mensais comprando água e as famílias docentro, apenas 1%." Uma saída é a criação de parques urbanos. "As áreas urbanasrequerem o manejo integrado, que é pouco desenvolvido no Brasil. Ele ainda ésetorial", disse Tundisi. Este manejo deve envolver as águas de chuva, deinundações, das fontes regulares, a poluição da chuva, os sólidos que entram naágua e o esgoto, e tratar estes elementos de forma integrada.

Balança comercialdepende diretamente da água

Segundo Tundisi, é sabido que o que equilibra a balançacomercial do país é a exportação de alimentos. A agricultura e a irrigaçãocorrespondentes, portanto, são sucessos no Brasil. "O grande salto foi dadograças ao investimento dirigido em pesquisa científica. A Embrapa tem um papelfundamental nisso. Aliás, sempre que o Estado tomou decisões estratégicas decriar instituições especificas deu certo, como vemos com a Embrapa, o CNPq[Conselho Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento], a Capes (Coordenação deAperfeiçoamento de Pessoal do Nível Superior/MEC], as Faps [Fundações de Amparoà Pesquisa] em todo o país."

Maior problema aindaé o tratamento de esgoto, inexistente em 60% do país

"O grande problema doBrasil é a falta de tratamento de esgoto - hoje temos apenas 40% de esgototratado, o que cria um sistema perverso, diretamente ligado a saúde e educação.Precisamos de 60 bilhões atualmente para alcançarmos 70% do país. Existe a tecnologia:o que falta é a decisão política", ressaltou o especialista. Tundisi destacou um ponto de melhoria, que temsido praticado especialmente pela indústria química, é o reuso de água.Infelizmente, esta ainda não é uma prática comum no país.

Na avaliação do palestrante, há poucos cientistas trabalhandoem poluentes persistentes, como remédios e cosméticos. "Precisamos de gente elaboratórios de nanotecnologia trabalhando nisso."

Energia conta comoutras possibilidades, ainda subutilizadas

A questão da energia é outro problema - nossa base ainda éhidrelétrica. Temos outras possibilidades - energia eólica, solar, de marés, debiomassa. Mas temos 100 hidrelétricas previstas para a Amazônia que vão gerar desequilíbrioecológico e social. "Esse é um exemplo de modernização sem desenvolvimento. Maso governo não quer fazer esse debate, quantos reservatórios mais serão feitosna Amazônia? É preciso que haja uma gestão sistêmica."

Tundisi explica que a gestão sitêmica é uma prerrogativa do século XXI. No século XX, segundo ele, o manejo da água era local,setorial e de resposta. No século XXI, este manejo mudou. Agora é de baciashidrográficas, integrado e preditivo. "OsComitês de Bacias existentes vêm evoluindo, mas a ciência básica que conduzcada comitê é diversa. É preciso que se faça uma base científica unificada. E épreciso também que haja planejamento para alternativas econômicas regionais: pagamentopor serviços ambientais, proteção de áreas alagadas que são biofiltros,monitoramento em tempo real dos recursos hídricos e outras."

Desafios de hoje parao Brasil do futuro

Resumindo os desafios a serem enfrentados - com políticas deEstado e não de governo -, Tundisi destacou alguns pontos fundamentais: a faltade saneamento básico, a escassez hídrica e a relação destes itens com a saúdeda população; as inadequações e limitações dos padrões de monitoramento daqualidade microbiológica da água; a relação entre o regime hídrico e doençastransmitidas pela água; a falta de estudos sobre vírus entéricos na água; as limitaçõespara o monitoramento de patógenos emergentes na água e possíveis soluções.

Como enfrentar os inúmeros problemas e suas ramificações numpaís como o nosso, com tantos desafios e diversidade? O país precisa deprevisões para se preparar e, para isso, a ciência é fundamental. E comocapacitar nossos cientistas, nossos estudantes, para responderem a essesdesafios?

"É preciso contextualizar os problemas e apontar assoluções. Temos conhecimento, mas não temos vontade política. Assim o país vaicontinuar se modernizando, mas não vai haver desenvolvimento."

Em breve, as outras matérias sobre o evento estarão on line.

Água na mineração, agricultura e saúde: o que a ciência tem a dizer a partir de Minas Gerais

Água e agricultura: o que sabemos e o que temos que saber

Água, saúde e doença: o caso das arboviroses

O Conservador das Águas: um projeto a ser seguido

Tecnologia do irrigâmetro aplicada no manejo da irrigação

Água e mineração: ecoficiência hídrica e geração de valor

Água e mineração: métodos alternativos para disposição de rejeitos

Governança e capacitação para novos negócios em água

Indicadores de governança para o Sistema Estadual de Gestão dos Recursos Hídricos

Água, saúde e bem-estar: como encontrar as interseções


(Elisa Oswaldo Cruz para NABC)


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