O tema “Cérebro”, abordado pela disciplina agregadora hoje denominada Neurociência, tem recebido crescente atenção das entidades internacionais e dos órgãos gestores de política científica mundial. Isso se explica não apenas pelos avanços na compreensão dos fenômenos da consciência humana e dos demais animais, como também pelo impacto potencial que esse conhecimento pode ter no desenvolvimento de tratamentos para os transtornos neuropsiquiátricos, e para o desenvolvimento de neurotecnologias voltadas para a ampliação das possibilidades educacionais, culturais e recreativas disponíveis às sociedades humanas. São exemplos desse interesse os projetos BRAIN Initiative [ https://obamawhitehouse.archives.gov/node/300741; https://www.braininitiative.nih.gov/ ] (EUA), Projeto Conectoma Humano [ http://www.humanconnectome.org/; http://www.humanconnectomeproject.org/ ] (EUA), Human Brain Project [ https://www.humanbrainproject.eu/ ] (União Europeia), e outros que, apesar das controvérsias que atraem, têm destinado muitos bilhões de dólares a pesquisas dirigidas a esses temas, e conseguido amplificar consistentemente o conhecimento neurocientífico. Expressão recente desse interesse mundial, do qual o Brasil não pode estar ausente, foi o documento [ http://www.scj.go.jp/ja/info/kohyo/pdf/kohyo-23-gs2016-1.pdf ] elaborado pela reunião de 12 academias de ciências de diferentes países (entre os quais a ABC), e encaminhado pelo Governo do Japão à reunião do G-6 em maio de 2016. Propomos que uma versão adaptada dos quatro objetivos desse documento seja norteadora das discussões programadas para o Grupo Temático sobre o Cérebro, que está sendo organizado pela ABC para apresentação na Reunião Magna de 2017.
  1. Apoiar a pesquisa fundamental sobre os princípios de organização estrutural e desempenho funcional do cérebro e a pesquisa translacional que leve a neurotecnologias para o uso social.
    • Apoiar a pesquisa fundamental sobre o cérebro desde o nível heurístico molecular e genômico contido nas células cerebrais, passando pelos circuitos neurais até o mapeamento funcional das redes cerebrais e sua conectividade.
    • Priorizar o desenvolvimento de tecnologias inovadoras de registro e geração de imagens do cérebro para análises de alta resolução e grande escala da estrutura e função do cérebro, especialmente para os estudos humanos envolvendo indivíduos isolados ou em atividades interativas que modelem as interações sociais.
    • Facilitar a cooperação internacional em projetos de grande escala sobre o cérebro e projetos biomédicos de desenvolvimento tecnológico, gestão de dados, treinamento/mobilidade de pesquisadores e seu financiamento coordenado.
  2. Abordar os transtornos neuropsiquiátricos com programas integradores que possam minorar o seu impacto nas gerações futuras.
    • Reconhecer que os transtornos neuropsiquiátricos constituem um problema global da saúde, e apoiar a pesquisa translacional sobre suas causas, prevenção, diagnóstico e terapias.
    • Avançar em novas plataformas econômicas e científicas para desenvolver novas terapias que utilizem modelos biológicos básicos, incluindo animais, e promover a cooperação entre a comunidade de pesquisa e a indústria.
    • Apoiar parcerias entre países de alta e baixa-média rendas para fortalecer a capacitação em pesquisa e clínica para o estudo e tratamento dos transtornos neuropsiquiátricos, e a compreensão pública de sua natureza.
  3. Promover a neurociência teórica para criar aplicações baseadas no processamento de informações pelo sistema nervoso (neurocomputadores).
    • Apoiar a pesquisa multidisciplinar usando ciências teóricas, computacionais, estatísticas e matemáticas para revelar princípios fundamentais que possam chegar ao desenvolvimento de uma teoria unificada sobre o cérebro.
    • Promover a cooperação internacional para o compartilhamento dos dados da neurociência com o objetivo de acelerar a pesquisa e o desenvolvimento da inteligência artificial e neurotecnologias.
    • Impulsionar um diálogo global em neuroética abrangendo as esferas científica, política, regulatória e de governança para abordar a segurança e a eficácia das tecnologias e aplicações baseadas na neurociência.
  4. Integrar as neurociências com a educação e a gestão da vida.
    • Apoiar a pesquisa fundamental e translacional que integre princípios, tecnologias, métodos e teorias da ciência do cérebro coma aquelas das ciências sociais empíricas, visando a criação de um esforço nacional de pesquisa científica inspirada pela sua apropriação social.
    • Promover a pesquisa multidisciplinar dos fundamentos biológicos e cognitivos para educação das crianças, jovens e adultos.
    • Impulsionar a pesquisa e a cooperação internacional no desenvolvimento de programas e diretrizes que possam ser iluminadas pela neurociência para a gestão da vida e a função social de indivíduos e organizações sociais.

Coordenadores
Jorge Moll Neto
Roberto Lent

Participantes
Esper Abrão Cavalheiro 
João Ricardo Sato 
Sidarta Ribeiro
Stevens Rehen