Água e agricultura: o que sabemos e o que temos que saber

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Publicado em 02/05/2017

O pesquisador e supervisor do Núcleo de Articulação Internacional da Embrapa Cerrados, Lineu Rodrigues, foi um dos palestrantes da sessão plenária durante o evento no evento "Água na mineração, agricultura e saúde: o que a ciência tem a dizer a partir de Minas Gerais". O evento foi realizado na UFMG nos dias 19 e 20 de abril, e Rodrigues destacou o conhecimento e a informação já adquiridos sobre o tema "Água e Agricultura" e o caminho que ainda temos a percorrer.

Doutor em engenharia agrícola pela Universidade Federal de Viçosa (1999) com estágio de pós-doutorado pela Universidade de Nebraska (EUA), Lincoln, em engenharia de irrigação e manejo de água, Rodrigues foi pesquisador visitante na Universidade da Califórnia, Davis (EUA), no departamento de Recursos da Terra, da Água e do Ar, onde desenvolveu trabalho em modelagem hidrológica de irrigação. Atua em diversos órgãos de consultoria e representa o Brasil na Plataforma de Recursos Hídricos e Tecnologia de Irrigação do Programa de Cooperação para o Desenvolvimento Tecnológico Agroalimentar e Agroindustrial do Cone Sul (Procisur). É membro titular do Conselho Nacional de Recursos Hídricos (CNRH), representando o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento.

O que sabemos? Que a questão hídrica não está em nenhum plano estratégico do país

Lineu Rodrigues contextualizou sua apresentação, destacando que o Brasil é referência na produção agrícola mundial, sendo o maior produtor mundial de café, cana de açúcar e laranja. A agricultura é responsável por 28% do PIB nacional, 37% dos empregos e por 42% das exportações.  Porém, ainda tem que crescer muito. Para corresponder ao crescimento populacional, a produção de alimentos precisará aumentar 70% e dobrar nos países em desenvolvimento.

Produzir alimento demanda água, segundo o palestrante. E não é pouca água: a chamada água azul, proveniente dos rios, que é utilizada pela irrigação, varia, por exemplo, para a cultura do milho plantada em primeiro de janeiro na região do Planalto Central, de 260 mil a 2 milhões de m3 para uma safra, o que daria para abastecer de 9.000 a 71.000 pessoas por dia. "Produção de alimento é um uso nobre da água, mas a definição da melhor forma de utilizar essa água é uma escolha da sociedade", pontuou Rodrigues. "A decisão é produzir alimento ou outro bem?"
 
A principal usuária de recursos hídricos é agricultura irrigada - 70%. Algumas bacias hidrográficas têm um percentual maior de uso e outras têm um uso menor. É importante conhecer os usos para definir políticas. Mas que políticas, se a questão hídrica não está em nenhum plano estratégico do país?

Rodrigues alerta que a visão da questão "sem ciência", na avaliação da sociedade de maneira geral, é de que se há muita água, então está bom. Mas ele diz que não é bem assim: é necessário um olhar diferenciado para cada região, para cada bacia. "Sabemos que 16% dos rios federais estão em estado crítico, com base no balanço hídrico qualiquantitativo, especialmente no Nordeste. O estado de um rio é consequência do que ocorre na bacia hidrográfica como um todo. As atividades que ocorrem nas bacias afetam os rios", aponta o especialista. Além disso, ele exemplifica com o caso de uma tribo em que as índias têm que andar duas horas por dia para buscar água. "Não basta ter a água, é preciso ter acesso a água."

A previsão mundial para 2050 é de que vamos precisar de 80% a mais de energia, 60% a mais de alimento e 55% de água. Atualmente, 80 das águas retiradas dos mananciais é utilizada pelo setor agrícola e 15% para produção de energia. "As demandas precisam ser bem geridas, caso contrário põem em risco a oferta hídrica existente", esclarece o engenheiro agrícola.

O que precisamos saber envolve oferta, demanda, gestão e comunicação

Há questões cruciais em que a pesquisa tem que avançar para garantir a sustentabilidade da água no país.

De modo geral, Lineu Rodrigues destacou a importância de se avançar nas pesquisas relacionadas ao reuso da água no meio rural e aproveitamento de água de chuva. Citou também a relevância de pesquisas para a avaliação e quantificação da poluição difusa, considerando também a contaminação por substâncias tóxicas, metais pesados, fertilizantes etc.

Em relação à oferta, é necessário ampliar as pesquisas em relação aos mecanismos que contribuem para aumentar a oferta hídrica na bacia. Dentre esses, os sistemas de conservação do solo. "É preciso também avançar no conhecimento de mecanismos destinados ao controle da erosão, dessalinização, redução da evaporação e aumento da infiltração e da capacidade de retenção da água no solo", informou Rodrigues.

Já com relação à demanda, há necessidade de gerar mais conhecimentos que contribuam para melhorar a eficiência de uso da água na irrigação, reduzir perdas na condução, melhorar o manejo do sistema e a eficiência de uso, desenvolver técnicas de gerenciamento da demanda e desenvolver culturas mais resistentes ao estresse hídrico.  O palestrante ressaltou que, para tanto, temos que aumentar a produtividade de uso da água.

O processo de gestão da água para a agricultura também requer estudos. "Precisamos avançar no conhecimento para entender melhor os processos hidrológicos nos diferentes ambientes e escalas, como a dinâmica das águas subterrâneas, ter um melhor conhecimento dos aquíferos, tato em escala regional como local, e sua interação, nos diferentes ambientes, com a água superficial. A gestão dos recursos hídricos de todas as origens tem que ser integrada", reforçou Lineu Rodrigues.

Ele destacou que, ainda, temos as mudanças climáticas. "É preciso avançar nas pesquisas para compreender melhor como e em que magnitude estas mudanças afetam os processos hidrológicos e os aspectos quantitativos e qualitativos dos recursos hídricos nas diferentes regiões brasileiras.

Os processos de tomada de decisão estão cada vez mais complexos, com necessidade de decisões mais rápidas, além de depender de análises de quantidade de dados cada vez maiores. É importante desenvolver pesquisas relacionadas às tecnologias da informação, da comunicação, de big-data e de modelos de inteligência computacional e simulação que possam viabilizar a emissão de alertas e suporte à decisão.

Por fim, Lineu Rodrigues abordou a questão da comunicação. Em sua visão, a estruturação de programas efetivos de comunicação para o estabelecimento de estratégia para se enfrentar os vários problemas relacionados ao uso da água ganha cada vez mais importância. "Devemos considerar que já existem conhecimentos que poderiam ser utilizados de imediato. Os novos avanços científicos prospectados dependerão fortemente da constituição de bases de conhecimento, de novas tecnologias, de estratégias de manejo e certamente de políticas públicas que orientem as interações dos indivíduos com a natureza. Precisamos extrair mais benefícios dos mesmos recursos. E isso só se faz com ciência"

Leia outras matérias sobre o evento:

Água na mineração, agricultura e saúde: o que a ciência tem a dizer a partir de Minas Gerais

Água e ciência no Brasil: desenvolvimento ou modernização? 


Água, saúde e doença: o caso das arboviroses

O Conservador das Águas: um projeto a ser seguido

Tecnologia do irrigâmetro aplicada no manejo da irrigação

Água e mineração: ecoficiência hídrica e geração de valor

Água e mineração: métodos alternativos para disposição de rejeitos

Governança e capacitação para novos negócios em água
 
Indicadores de governança para o Sistema Estadual de Gestão dos Recursos Hídricos

Água, saúde e bem-estar: como encontrar as interseções



(Elisa Oswaldo-Cruz para NABC)



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