Desafios sociais e políticos da inteligência artificial

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Publicado em 29/03/2017

Confira o artigo do Acadêmico Virgílio Almeida, publicado na revista Valor Econômico, sobre o avanço das tecnologias de inteligência artificial e sua relação com a economia.

Dentre as tantas incertezas e preocupações com o futuro, uma delas tem chamado particularmente a atenção dos governos dos países desenvolvidos. É a combinação das tecnologias de inteligência artificial e automação. Trata-se claramente de uma faca de dois gumes: por um lado, é um dos principais motores de inovação para as economias desenvolvidas, capaz de acelerar a produtividade de quase todos setores econômicos. Por outro lado, há grande preocupação com os efeitos sociais e políticos da automação e robotização das sociedades.

Pouco antes de deixar o governo, o então presidente Obama fez um pronunciamento sobre o avanço da tecnologia e seu impacto social, econômico e cultural. Disse ele: "A próxima onda de deslocamentos econômicos não virá do exterior. Virá da marcha inexorável da automação, que tornará obsoleto um grande número de empregos da classe média".

Nos últimos anos, máquinas inteligentes superaram os humanos no desempenho de várias tarefas relacionadas à inteligência, seja no reconhecimento de imagens, em diagnósticos médicos, na previsão de eventos futuros ou no controle dos carros autônomos. O efeito central da evolução acelerada da inteligência artificial no curto prazo virá da automação de tarefas que até então não podiam ser automatizadas, com a substituição de mão de obra humana por robôs, máquinas inteligentes, algoritmos e software.

A onda de mudanças provocada pela combinação de automação e inteligência artificial tem o potencial de alterar disruptivamente vários setores da economia, com profundo impacto social. Em vários países, as empresas mostram o avanço dessas tecnologias. Em 2013, a Amazon possuia 1.000 robôs em seus centros de logística e distribuição de produtos. Em 2016, o número cresceu para 46 mil robôs. Na China, uma fábrica de instrumentos de precisão substituiu 90% de seus 650 empregados por robôs, alcançando um aumento de 250% na produção após a robotização.

Ainda não se sabe ao certo como a combinação de inteligência artificial e automação irá alterar o mercado de trabalho e a natureza futura do emprego. As previsões variam. Um estudo de pesquisadores da Universidade de Oxford estima que 47% dos postos de trabalho nos Estados Unidos correm o risco de serem substituídos pela combinação de inteligência artificial e automação.

Um relatório recente da ONU chama a atenção especificamente para o impacto das novas tecnologias de automação sobre as economias em desenvolvimento, baseando-se em dois fatores. Primeiro, o uso intensivo da automação pelas economias desenvolvidas irá anular as vantagens competitivas oriundas do custo menor da mão de obra dos países em desenvolvimento.
O uso intensivo da automação anula vantagem de mão de obra mais barata em países em desenvolvimento

Segundo, estimativas mostram que nos países em desenvolvimento a parcela de ocupações e postos de trabalhos passíveis de serem substituídos por robôs é significativamente maior que nos países desenvolvidos. Tudo isso leva forçosamente a uma questão chave para o planejamento sócio-econômico do país: como o Brasil está se preparando para o avanço das tecnologias de automação?

Os desafios e o risco de uma má preparação para esse futuro exigem que o Brasil supere uma tradição histórica de escasso planejamento estratégico de médio e longo prazo e busque se preparar adequadamente com relação aos impactos tecnológicos. No contexto brasileiro, podemos vislumbrar os desafios em quatro grandes categorias: econômicos, tecnológicos, sociais e políticos. Em relação à economia, essa nova onda de automação proporciona uma realocação de recursos e de poder, conferindo maior relevância aos atores que detenham e controlem as novas tecnologias de automação. Tais tecnologias são estratégicas e não dominá-las pode representar para o país um problema com reflexos até mesmo sobre sua própria soberania.

Os problemas sociais são, talvez, os mais claros e quantificáveis: a substituição do trabalho de seres humanos por processos automatizados, sem a devida preparação da sociedade e do sistema educacional, é capaz de abrir fraturas com imensos reflexos para a sociedade, gerando batalhões de pessoas inempregáveis. Não parece claro que a classe política, tradicionalmente alicerçada sobre antigas estruturas de poder, esteja atenta aos desafios que já começam a se avolumar. A falta de atenção à dinâmica destas mudanças, caso implementadas sem a devida reflexão sobre seus efeitos para a sociedade, apresenta o risco de que velhas estruturas acabem renovando e fortalecendo seu poder em detrimento da distribuição das potenciais vantagens destas novas tecnologias.

Já é claro que, sem o devido controle social, transparência e respeito a padrões éticos, novas tecnologias de inteligência artificial podem, nos piores prognósticos, aumentar a desigualdade e favorecer prioritariamente a elite dos que a controlam. Os caminhos para enfrentar os impactos adversos da crescente automação da sociedade passam por três eixos.

O primeiro é aumentar os investimentos em pesquisa e desenvolvimento em tecnologias de inteligência artificial e automação. O segundo é atuar na educação, preparando as novas gerações para as demandas do futuro, que certamente envolverão maior ênfase nas disciplinas de matemática, ciências, computação e engenharias. É preciso a todo custo evitar a formação de gerações de inempregáveis. O terceiro eixo requer a criação de um conjunto de medidas que preparem e protejam os trabalhadores na transição para uma economia onde indústrias e serviços serão cada vez mais automatizados, com mais robôs, mais software e com uma exigência acentuada de trabalhadores mais qualificados.


(Virgílio Almeida e Danilo Doneda para Valor Econômico, 29/03/2017)



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