Utilizando a tecnologia do DNA recombinante para sintetizar antibióticos em plantas de tabaco e microrganismos

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Publicado em 14/12/2016

Nascido em 1981, em Brasília, Nicolau Brito da Cunha teve uma irmã mais nova, hoje formada em moda, e um irmão gêmeo, hoje arquiteto. "Somos homozigóticos e um excelente experimento ambulante dos efeitos epigenéticos na regulação da expressão gênica: fomos indistinguíveis até os 16 anos de idade, mas nos tornamos muito diferentes. Ele, por excesso de exercícios físicos e alimentação saudável. Eu, por poucas horas de sono e uma dificuldade aguda em encarar uma esteira ergométrica", brinca Cunha.

De pequenino é que se torce o pepino

Na infância, porém, os irmãos eram muito próximos e compartilhavam as férias na casa dos avós, em São Paulo. O avô paterno, segundo Nicolau, foi seu grande incentivador para a ciência. Antônio Brito da Cunha foi um geneticista muito atuante e produtivo na era de ouro da genética, entre os anos 50 e 70. "Foi testemunha ocular da elucidação da estrutura da dupla hélice e do surgimento da engenharia genética e é membro da Academia Brasileira de Ciências desde 1968." O neto relata que os amigos do avô eram cientistas brilhantes, como Crodowaldo Pavan, Mário Guimarães Ferri, Ernesto Paterniani e Francisco Mauro Salzano, além de aluno de André Dreyfus e Theodosius Dobzhansky, "pais" da genética no Brasil. Cunha conta que o avô hoje tem 90 anos de idade "e ainda gosta que eu relate experimentos que fiz no laboratório ou alguma novidade publicada em algum periódico." 

Na escola, no entanto, a área predileta de Nicolau sempre foi história. Estudava a disciplina pelos livros escolares e se aprofundava no assunto pelos livros de seu pai. Ele diz que escolheu  ser cientista frequentando as bibliotecas do pai e do avô, ambas fantásticas - não apenas pelo tamanho das coleções, mas pelo acervo repleto de preciosidades das literaturas de imaginação e científica. "Eu percebi que seria cientista quando descobri algo tão ou mais apaixonante que romances de Tolstói ou de Maurice Druon: um livrinho recomendado pelo meu pai chamado 'A dupla hélice', escrito pelo próprio James Watson. Meu pai dizia, com certa razão, que aquele não era um livro científico, mas um romance policial sobre as pistas que levaram Watson e Crick a elucidar a estrutura da molécula da vida."

O ambiente familiar era rico e variado em influências. Através da paixão pela leitura, Cunha diz que "ficou amigo de gente como Aristóteles, Cícero, Marco Aurélio, Carlos Magno e Henrique V, dos quais sou íntimo até hoje". O pai era advogado e cientista social, além de ter feito boa parte do curso de economia, sempre na Universidade de São Paulo (USP). Mas gostava mesmo de ser jornalista. É funcionário do Senado Federal, editor do Jornal de Brasília e professor aposentado de jornalismo da Universidade de Brasília (UnB).

A mãe também era advogada e funcionária, hoje aposentada, da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). "Ela trabalhou na assessoria jurídica e chegou a ser diretora da empresa. Conheceu dezenas de pesquisadores e cientistas e ficou muito amiga de vários nomes interessantes das ciências agrárias no país. Nessas circunstâncias, ela ajudou a elaborar o sistema de proteção de tecnologias da Embrapa e auxiliou, junto com assessores parlamentares, a elaboração de algumas leis importantes para a ciência nacional, como a lei de patentes, a lei de proteção de cultivares e a lei de sementes", acrescenta o Acadêmico.

A escolha e desenvolvimento da carreira

Sob tantas influências positivas, Cunha escolheu a engenharia agronômica. Entrou para a graduação na Universidade de Brasília (UnB) e logo começou a iniciação científica com engenharia genética de soja e feijão, no Laboratório de Biologia Sintética do Centro Nacional de Recursos Genéticos e Biotecnologia da Embrapa (Cenargen), coordenado pelo Acadêmico Elíbio Rech. Ele lidera um grupo de pesquisa que é referência internacional na área de engenharia genética de plantas e biologia sintética. "Nos experimentos, introduzíamos genes codificadores de fármacos humanos, como a insulina e o hormônio do crescimento humano no genoma de soja, convertendo as plantas em fábricas ou reatores de proteínas de interesse farmacêutico. Seguiu no mestrado em ciências genômicas e biotecnologia, pela Universidade Católica de Brasília (UCB) e fez o doutorado em biologia molecular, pela UnB, sempre desenvolvendo os trabalhos no mesmo laboratório, sob a orientação do professor Elibio.

Atualmente, Cunha trabalha com a produção de antibióticos recombinantes, obtidos pela tecnologia do DNA recombinante e sintetizados em plantas de tabaco e microrganismos, como bactérias e leveduras. "É uma área muito estimulante, que apresenta um grande potencial para a melhoria da vida das pessoas, já que seu objetivo é o desenvolvimento de produtos como antibióticos e outras drogas para o combate a infecções hospitalares." Ele conta que teve "a sorte"de ser inserido num outro grupo fortíssimo, o núcleo de pesquisadores do Centro de Análises Proteômicas e Bioquímicas (CAPB), especializado em proteômica e prospecção de peptídeos antimicrobianos. "Esse grupo é vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Genômicas e Biotecnologia da UCB e é liderado por duas autoridades no assunto, os doutores Octávio Luiz Franco e Simoni Campos Dias, que juntos já descobriram dezenas de peptídeos capazes de destruir células de bactérias e fungos patogênicos, além de formar inúmeros doutores e mestres", enaltece Cunha.    

Paixão pela ciência e pela literatura

O encanto do novo Acadêmico pela ciência transborda em suas palavras. Mas ele é bem objetivo quanto aos motivos: "A ciência é encantadora porque é uma atividade humana com regras e método, que disciplina a investigação acerca da natureza das coisas. Ela funciona para mostrar que não se deve confiar apenas nos sentidos para se apreender a realidade. É necessário observar a realidade, perceber padrões, elaborar teses com base em observações e repetição, testar hipóteses à exaustão. É o meio mais lúcido de tentar entender o modo como o mundo se apresenta e funciona."

Fora da ciência, seu foco é a literatura: é um entusiasta dos escritores americanos Mark Twain, William Faulkner e Henry James. Mas considera a sua área de pesquisa particularmente interessante, porque permite "a manipulação da molécula mais elegante e intrigante dos seres vivos, o DNA." Com seu pendor para o literário, Nicolau Cunha considera fascinante a possibilidade "de adaptar a estrutura de um gene de modo a inseri-lo, de maneira estável, num cromossomo de um organismo e provar que há função biológica, que o gene é funcional e codifica um RNA intermediário ou uma proteína útil para o homem. É fantástico!"

Quanto à eleição para a Academia Brasileira de Ciências, o pesquisador considerou uma enorme honra. Encerrou seu depoimento com as seguintes palavras: "A possibilidade de conviver com os acadêmicos mais experientes e testemunhar o seu modo de encarar o progresso da ciência será uma lição para toda a vida. Além disso, é como se eu me aproximasse um pouco da trajetória do meu avô e respirasse um pouco do ambiente que foi tão importante para a formação dele e certamente será para a minha."


(Elisa Oswaldo-Cruz para NABC)



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