Zika: o que vem a seguir?

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Publicado em 08/12/2016

No último dia do Simpósio Internacional sobre Zika, pesquisadores discutiram quais são as perspectivas e desafios relacionados ao problema da epidemia no Brasil, para os próximos anos. O evento foi realizado em novembro pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Academia Nacional de Medicina (ANM) e Academia Brasileira de Ciências (ABC), no Rio de Janeiro.

Rafael Freitas, doutor em biologia parasitária e pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz, falou sobre a dificuldade de se combater o vetor. "Em Boa Vista, Roraima, trabalhamos 16 horas por dia com controle mecânico, remoção de criadouros, aplicação de inseticidas, e não fizemos nem cosquinha na densidade de mosquito, que ainda quadruplicou em quantidade. Os que permaneceram se tornaram quatro vezes mais resistentes aos produtos químicos."

No entanto, uma alternativa parece ser eficaz. Estudos comprovaram que a bactéria Wolbachia, quando presente no mosquito Aedes aegypti, é capaz de reduzir a transmissão do vírus zika. Pesquisadores fizeram um teste no Rio de Janeiro e soltaram mosquitos com Wolbachia em Tubiacanga, na Ilha do Governador, e em Jurujuba, Niterói, por 24 semanas ininterruptas - 8 mil mosquitos por semana, entre 2015 e 2016. A ideia foi substituir a população de mosquitos que transmite os três vírus por outra que não transmita mais.

As solturas acabaram e, hoje, a frequência dos substitutos é de 90%, o que significa que não foram necessárias novas solturas. Juntas, essas áreas têm cerca de mil casas e 4 mil pessoas. "Em Tubiacanga, costuma ter de dez a 13 casos de infecção nos períodos epidêmicos, mas no ano passado tivemos dois." A ideia é que, em 24 meses, essa estratégia contemple 2,5 milhões de pessoas no Rio e Niterói, principalmente nos bairros em torno da Baia de Guanabara, que concentram mais mosquitos.

"A Wolbachia é encontrada em 70% dos insetos, mas não no Aedes aegypti", explicou Freitas. "É a única estratégia que parece sustentável a longo prazo, mas precisa de um input inicial. Além disso, por vezes esquecemos quem está na ponta do iceberg, que é o agente de saúde. Sabemos o 'cientifiquês', mas não sabemos passar isso para os agentes de campo. Eles não fazem a menor ideia de por que a Wolbachia é a melhor saída. São mal remunerados, desmotivados, mas contamos com eles para fazer o trabalho."

Além disso, Freitas ressaltou a importância de incentivar a própria população a fazer o controle de criadouros de mosquitos. "Não existe bala mágica. No Rio, um mosquito do Aedes aegypti pode nascer a cada 15 dias, então precisaríamos de agentes para visitar todas as casas a cada a cada duas semanas. Isso não é viável. Para acontecer, seriam necessários 115 vezes mais agentes do que há hoje. Então é preciso mobilizar as pessoas para que trabalhem mais dentro de seus próprios limites, gastem dez minutos por semana para checar os criadouros de sua residência."

Roberto de Andrade Medronho, diretor da Faculdade de Medicina da UFRJ, lembrou que a globalização também é um problema, pois deixa as fronteiras menos visíveis e os vírus se espalham rapidamente por todo o mundo. Além disso, afirmou a necessidade de um teste de diagnóstico sensível e barato, que possa detectar com segurança se a infecção se deu por zika, dengue ou chicungunha. "Temos que enfrentar, também, o problema da estigmatização das crianças que nascem com alterações, da necessidade de assistência médica por toda a vida e dos pais que estão abandonando as famílias. É uma tragédia."

O Acadêmico Mauro Martins Teixeira, médico da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), comentou que é preciso lembrar também da dengue, que é difícil de distinguir da zika e bate recordes todos os anos. "Perdemos aquela tendência de ter uma epidemia a cada três anos, agora são mais de 1 milhão de casos de dengue por ano há quatro anos, no país todo. E é uma doença que causa mortes."

Ele falou, ainda, sobre a dificuldade de se pesquisar o assunto no Brasil, por conta da falta de financiamento e demora nas importações. "Ciência é uma atividade internacional, mas a legislação considera vírus um objeto nacional. Não conseguimos trabalhar de forma adequada com chicungunha por causa das leis."

(Clarice Cudischevitch para NABC)



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