Futebol e política: comoção e emoção

  • Compartilhe:

Publicado em 07/12/2016

Confira o artigo do Acadêmico Isaac Roitman, publicado no Blog da Política Brasileira, sobre recentes acontecimentos no Brasil que sensibilizaram a população.

"O futuro é pautado por incertezas, quer seja no futebol ou na política. A decisão da Copa Sul Americana entre Chapecoense e o Club Atlético Nacional estava programada em sua primeira etapa para ser realizada em Medellín. O evento não ocorreu devido ao trágico acidente aéreo onde a maioria dos jogadores não sobreviveram, assim como membros das equipes de suporte e inúmeros jornalistas. A comoção se espalhou pelo planeta. As famílias enlutadas receberam apoio e conforto.

Em Brasília, na madrugada silenciosa do triste episódio, em clima de luto nacional, a Câmara Federal desfigurou o pacote anticorrupção encaminhado pelo Ministério Público com o apoio de mais de 2 milhões de pessoas. A maioria dos deputados mais uma vez fizeram um gol contra o aprimoramento da democracia brasileira provocando manifestações de rua e enfraquecendo a credibilidade dos nossos políticos.

O triste episódio do trágico desastre aéreo provocou uma onda de solidariedade e emoção pelo mundo afora. O papa Francisco torcedor do San Lorenzo da Argentina assim se expressou: "O santo padre, profundamente triste ao conhecer a dolorosa notícia do grave acidente aéreo que ocasionou inúmeras vítimas, eleva orações pelo eterno descanso dos falecidos. Peço ao Senhor que derrame sobre os familiares das vítimas os dons da serenidade espiritual e da esperança cristã, e compartilha de coração a bênção apostólica". Manifestações de solidariedade, principalmente do mundo esportivo, ecoaram por todo o planeta revelando que os seres humanos ainda conservam virtudes e valores.

No dia 30 de novembro no horário previsto para o jogo decisivo simultaneamente ocorreram duas homenagens. Em Medelín a demonstração de fraternidade do povo colombiano emocionou o Brasil e o mundo. A torcida do Atlético Nacional lotou o estádio para uma cerimônia com homenagens às vítimas do avião que trazia o time da Chapecoense. Na arena Condá em Chapecó, torcedores, parentes e amigos das vítimas reverenciaram os entes perdidos. Alguns dias depois o velório coletivo nesse mesmo local emocionou o mundo. As manifestações de sensibilidade e solidariedade que são anestesiadas pelas falsas promessas dos políticos e pela grande mídia, afloram diante tragédias e ameaças.
O contexto social e político brasileiro se enquadra atualmente como uma grande tragédia. Com uma política de distribuição de renda que não satisfaz as reais necessidades dos cidadãos e uma crescente concentração dessa mesma renda, o Brasil se encontra mergulhado numa crescente aceleração da miséria, fome, criminalidade, e tantos outras mazelas sociais.

A atual crise, uma verdadeira comoção social, pode ter um lado positivo, pois abre as portas para a solução dos problemas que podem resultar em um salto de qualidade social. Na dimensão da economia, a curto prazo, a prioridade é amparar os desempregados, com a criação de empregos e o auxílio temporário através de uma bolsa desemprego.

A longo prazo a política fiscal e econômica deve ser revista. O primeiro passo é realizar uma auditoria da dívida pública, prevista na constituição, que possa apontar caminhos para que a riqueza brasileira possa ser aplicada em projetos sociais e não sugada pelos banqueiros nacionais e estrangeiros.

Para avançarmos na democracia, além de uma reforma política, precisamos construir uma nova geração de políticos. Isso só pode ser feito com a implantação de um novo sistema de educação de qualidade para todos os brasileiros e que tenha como princípios a ética e a solidariedade. É pertinente lembrar o pensamento de Anísio Teixeira: "Só existirá democracia no Brasil no dia em que se montar no país a máquina que prepara as democracias. Essa máquina é a escola pública".

O fenômeno da onda de solidariedade após a tragédia do Chapecoense e a união de todos para a sua superação deve servir de inspiração para a união de todos os brasileiros do bem, e que são muitos, para evitar uma convulsão social e uma catástrofe semelhante ao que ocorreu na Grécia.

Vamos todos torcer que a partir desse momento de comoção possamos antever nos próximos anos uma atmosfera de emoção positiva onde todos os brasileiros possam conquistar os seus sonhos e termos um Brasil que queremos que proporcione oportunidades e felicidades a todos seus habitantes."

Isaac Roitman é doutor em Microbiologia, professor emérito e coordenador do Núcleo de Estudos do Futuro da Universidade de Brasília. Pesquisador emérito do CNPq. Membro Titular da Academia Brasileira de Ciências e membro do Movimento 2022 O Brasil que queremos.

(Blog da Política Brasileira)



Cadastre-se para receber
as Notícias da ABC:



Arquivo de notícias


 

Notícias anteriores TESTE


webTexto é um sistema online da Calepino