Mudanças climáticas e a biodiversidade brasileira

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Publicado em 23/11/2016

Leia artigo do Acadêmico Carlos Nobre, climatologista e membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), publicado no site do Museu do Amanhã, sobre as ameaças ao ecossistema do país.



O Brasil detém uma boa parte da biodiversidade mundial, mas uma ameaça real a essa biodiversidade é a progressiva perda dos habitats por conta das mudanças do uso da terra que provocam a fragmentação dos territórios. Isso acontece por conta da expansão agropecuária, da especulação de terra, da especulação imobiliária, da expansão urbana e por outras questões relacionadas à ocupação do solo.
 
Alguns biomas brasileiros são particularmente ameaçados, como a Mata Atlântica. Restam menos de 10% da sua cobertura original nativa. E o que sobrou hoje são remanescentes descontinuados, não conectados. O Cerrado e a Caatinga também são muito vulneráveis. Mais de 50% desses biomas já se transformaram em área urbana, de pasto ou área agrícola, muitas vezes degradados e abandonados. A Mata Atlântica e o Cerrado são hotspots de biodiversidade - ou seja, áreas de alta riqueza de espécies e níveis de endemismo, sujeitas a uma perda rápida e extensiva dos habitats.
 
Além de ser impactada pela própria degradação do habitat, a sobrevivência dessas espécies é crescentemente ameaçada pelas mudanças climáticas. Como as alterações climáticas globais potencialmente modificam os padrões de temperatura, a distribuição das chuvas e a frequência de extremos climáticos - como ondas de calor, secas e inundações - isso pode modificar a distribuição dos organismos na terra, alterando os ciclos biogeoquímicos dos ecossistemas.
 
Boa parte dos ambientes de Cerrado e da Caatinga, por exemplo, em resposta ao aquecimento global, tendem a adquirir climas ainda mais sazonais, isto é, um período ainda maior da estação seca. Então, a lógica é que as espécies típicas desses espaços busquem rotas rumo aos espaços climáticos mais adequados. Se esses animais encontram rotas de fuga, ou seja, corredores verdes, como as matas e florestas protegidas por onde podem transitar, eles têm uma chance de readaptação em um novo ambiente. Se eles estão cercados por grandes áreas descampadas, porém, podem estar condenados. Posto isso, em áreas onde o processo de desmatamento foi mais radical, as mudanças climáticas passam a impactar a biodiversidade de forma muito expressiva. Portanto, o caminho talvez seja planejar mais unidades de conservação, especialmente em regiões mais vulneráveis às transformações do clima. Existem espécies que são realmente mais sensíveis, como, por exemplo, aquelas que dependem de ambientes mais frios, que geralmente vivem nos topos de serra. Então, com a elevação contínua da temperatura, elas vão enfrentar grandes desafios de adaptação.

Mesmo em ecossistemas menos perturbados, se a velocidade das mudanças climáticas for muito grande, as espécies não conseguiriam migrar para os nichos climáticos apropriados. Por exemplo, a maior parte das árvores da floresta tropical Amazônica tem mecanismos de dispersão de sementes que permitem migração de poucos quilômetros por década. Desta maneira, se a velocidade com que uma região for se tornando climaticamente inóspita para uma determinada espécie for maior do que a capacidade de migração, aquela espécie tende a desaparecer se for endêmica daquela região.

As plantas e animais típicos das florestas úmidas também devem ser muito afetados pelas mudanças climáticas, pois os modelos climáticos preveem uma redução paulatina de chuvas e aumento da duração da estação seca, principalmente no sul e sudeste da região amazônica. Vários estudos de modelagem indicam um crescente risco de "savanização" de 30% a 50% da floresta Amazônica, isto é, de que tanto o aquecimento global quanto o desmatamento de grande escala modificaram o clima regional, tornando-o mais sazonal, mais quente, com estação seca mais longa, isto é, envelope climático das savanas tropicais. Estes estudos indicaram a existência de dois pontos de ruptura, que não deveriam ser ultrapassados para a manutenção da floresta tropical: 4° C de aquecimento global ou 40% de área total de floresta desmatada. Atualmente, cerca de 20% da Amazônia já foi desmata - e a maior parte é ocupada pela agropecuária - e a temperatura na região aumentou cerca de 1° C. Mesmo assumindo que consigamos deter a velocidade do desmatamento tropical, ainda assim a manutenção da floresta a longo prazo depende de que o aquecimento global seja atenuado urgentemente, algo fora do controle dos países amazônicos já que depende da descarbonização da economia mundial.
       
Então, precisamos discutir estratégias para a restauração ambiental nas áreas naturais mais afetadas. A ideia é formar corredores para promover uma interconexão das espécies, e que seja capaz de permitir sua adaptação às mudanças climáticas. Hoje, já existem alguns projetos em andamento nesse sentido. Uma ideia é ligar a Serra da Mantiqueira à Serra do Mar via corredores ecológicos de biodiversidade para que haja dentro da paisagem um fluxo de espécies, para que elas possam se reproduzir dentro desses sistemas florestais.
 
Além de proteger a diversidade de espécies que habitam essas áreas, esse tipo de estratégia ajudaria a manter a qualidade dos serviços ecossistêmicos prestados pela natureza. Ou seja, garantir a regulação hídrica dos ambientes, a polinização essencial para a produção de alimentos, um estoque natural de plantas terapêuticas, fibras, combustíveis, água potável e solos férteis. Então, os serviços ambientais prestados pela biodiversidade são muito amplos. Isso certamente precisa ser considerado quando pensamos em políticas de desenvolvimento sustentável.

Carlos Nobre é climatologista, coordenador do Instituto Nacional de Ciência & Tecnologia para Mudanças Climáticas, membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), da Academia Brasileira de Ciências e consultor do Museu do Amanhã.

(Museu do Amanhã)



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