O que sabemos hoje sobre o zika vírus?

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Publicado em 11/11/2016

Jorge Neira, Wilson Savino, Paulo Gadelha, Marcello Barcinski, José Murilo de Carvalho e Jeremy McNeill

Um vírus, descoberto em 1952, mas cujo potencial letal ou, no mínimo, muito danoso, foi identificado apenas em 2015. Que pode ser transmitido por mosquitos ou por via sexual. E que está se espalhando pelo mundo. O conhecimento sobre sua natureza é muito pequeno. O que fazer? O país mais ameaçado soube o que fazer: imediatamente se deu conta da gravidade do vírus Zika e criou uma ampla rede multidisciplinar e multinacional de pesquisa, cooperativa e não competitiva, visando dar respostas rápidas para a população em risco.

E que país é esse? Os EUA? A China? O Japão? Não... O Brasil!

Apesar da crise recente, dos cortes dramáticos nas áreas de ciência, tecnologia e inovação, da falência do estado do Rio de Janeiro, os pesquisadores brasileiros se beneficiaram ainda do fortalecimento científico construído nas últimas décadas. Além de terem tomado a iniciativa da criação da rede, estão dando contribuições surpreendentes para a construção do conhecimento básico sobre esse vírus tão destrutivo, capaz de atingir fetos, crianças e adultos.

Em função desse protagonismo, entre os dias 7 e 10 de novembro de 2016 a Academia Nacional de Medicina (ANM), a Academia Brasileira de Ciências (ABC), a Fundação Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz), a Inter Academy Partnership - IAP for Health e a Rede Interamericana de Academias de Ciências (IANAS) organizaram em parceria um simpósio sobre Zika na sede da ANM, no Rio de Janeiro, convidando pesquisadores dessa rede e representantes de Academias de outros países afetados pela epidemia.

Investimento em base científica e cooperação internacional

O Acadêmico Marcello Barcinski, organizador do evento junto com o Acadêmico Wilson Savino, representou o presidente da ANM Francisco Sampaio na abertura. Ele relatou que os objetivos dessa conferência conjunta envolvem, em primeiro lugar, trocar informações sobre o estado da arte da pesquisa sobre zika. "A comunidade científica e médica brasileira deu uma resposta absolutamente competente e eficiente para o problema. Isso demonstra a absoluta necessidade de ter essa competência mantida." Barcinski observou, porém, que já nessa primeira fase muitas pessoas já estão desanimando, porque as perspectivas de financiamento não são promissoras. "Isso é lamentável, porque podemos não estar preparados para outras ameaças com essa."

O outro objetivo é construir um programa de vigilância epidemiológica internacional através de IANAS, com troca de informações, de dados, de reagentes. No dia 8/11 o evento contará com a participação de representantes de todas as Academias americanas onde zika é um problema. "Nessa discussão vamos saber como a crise está afetando os outros países e como eles estão lidando com a situação. Nesse sentido, as Academias de Ciências e de Medicina dos países envolvidos podem contribuir mito, porque formam uma união supra institucional."

ABC: ciência a serviço da sociedade

Representando o presidente da ABC, Luiz Davidovich, o diretor da Academia José Murilo de Carvalho destacou logo no início não era "zicólogo, se me permitem o neologismo". Mas em nome da ABC destacou a preocupação da Casa em colocar a ciência a serviço da sociedade, especialmente na área de saúde, característica da Academia desde a sua fundação, há 100 anos. "Entre os fundadores da Academia havia matemáticos, físicos, químicos, astrônomos e três grandes sanitaristas - Oswaldo Cruz, Carlos Chagas e Adolfo Lutz, todos profundamente envolvidos em resolver os principais problemas de saúde pública da época." No caso, os problemas eram a peste bubônica, a febre amarela, a varíola, a doença de Chagas (que levou o nome do seu descobridor, que ainda apontou o seu agente causador e seu vetor) e a esquistossomose. "Desejo que deste simpósio resultem avanços capazes de contribuir com eficácia a nova ameaça à saúde pública que representa o zika vírus, seguindo a trilha aberta por nossos fundadores", concluiu o historiador.

Parceria interacademias para a saúde

Representando o Inter Academy Partnership - IAP for Health, o médico Jorge Neira apresentou a instituição. Explicou que o IAP tem três grandes linhas: IAP for Health, IAP for Science e IAP for Research. "Eu represento o Comitê Executivo do IAP For Health, que envolve 78 academias de todo o mundo, o que permite esse trabalho conjunto para priorizar temas de saúde global, que são critérios de saúde similar para todos os habitantes do planeta." Neira relatou que este trabalho conjunto lhes permite promover uma série de atividades, como a reunião de zika vírus. O objetivo é difundir informação, discutir como esta informação pode chegar aos diferentes governos, como se consegue que haja reprodutibilidade no trabalho científico, como se assegura que os profissionais da saúde estejam treinados para fazer trabalho cientifico.

"Creio que todas essas coisas contribuem para organizar informações, difundi-las, compartilhar conhecimentos com distintos países e regiões e, sobretudo, cria a possibilidade de fazer declarações que envolvam e comprometam os governos regionais. Estamos fazendo um trabalho conjunto com todos os pesquisadores, neste caso, que se ocupam de zika, chicungunya e dengue. Me parece que e uma oportunidade muito boa de desenvolver um trabalho de equipe multidisciplinar e isso é muito importante."

Rede de Academias de Medicina das Américas

 
Jeremy McNeill falou em nome de IANAS, explicando a amplitude de sua atuação, que tem braços nas Américas, na África, na Europa e na Ásia e trabalham com o IAP. A ação de IANAS envolve capacitação de recursos humanos e tem como missão fortalecer as Academias ativas da região e dar apoio à criação e desenvolvimento de Academias nos países em que são incipientes ou ainda não existem. Os principais programas atualmente existentes tratam de questões fundamentais: água, energia, educação em ciência e mulheres na ciência. "Essa experiência na área de saúde é muito importante e a primeira vez que fazemos algo exclusivo nessa área. Até então, trabalhamos com água como um dos nossos temas principais, e muitas doenças são relacionadas com a sua contaminação. Essa nos parece uma oportunidade muito boa de discutir a criação de uma rede de Academias de Medicina para focar em aspectos de saúde, será uma grande ponte, se funcionar bem. Considero essa iniciativa muito promissora."

Emergência em saúde pública


O diretor do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) e Acadêmico Wilson Savino destacou que o evento está sendo realizado exatamente após um ano da declaração do estado de emergência em saúde pública no país, que gerou uma série de ações nacionais e internacionais. "Estas ações resultaram em avanços substantivos no conhecimento sobre as doenças neurológicas causadas pelo vírus zika como sobre seu controle, na perspectiva do controle do vetor, do ponto de vista terapêutico e vacinal." Savino destacou a importância da comunidade científica brasileira e dos profissionais de saúde envolvidos nesse desafio. "Eu gostaria de render um tributo àqueles que desenvolveram um trabalho exemplar no sentido de gerar conhecimento rápido e eficaz para enfrentar essa epidemia, de forma brilhante e emocionante. O nosso trabalho é dar respostas à sociedade. Vamos refletir sobre o que já foi feito avançado e avaliar os desafios e perspectivas de enfrentamento dessa epidemia global." 

Pontes fundamentais

O presidente da Fiocruz, Paulo Gadelha, destacou que a academia tem cumprido de maneira exemplar não só seu papel de reflexão no campo do conhecimento, mas também exercendo sua vocação de levar para as políticas públicas do Ministério da Saúde referências significativas, orientações e recomendações fundamentais para a área de saúde pública. "O ministro Ricardo Barros estaria presente hoje, mas foi convocado de última hora pela presidência. Então, estou falando também em nome do Ministério da Saúde, agradecendo aos organizadores do evento", ressaltou Gadelha.


A questão da zika, segundo ele, colocou a comunidade científica e o Ministério para refletir também sobre desafios mais amplos. "Como atuamos em momentos de emergência? Qual é o papel do Estado? Como a sociedade se relaciona com momentos de epidemia, que trazem problemas em todas as dimensões? Gostaria de enfatizar que o que garantiu a capacidade de resposta brasileira foi a integração do campo de ciência, tecnologia e inovação, com todo o esforço que foi feito para construir essa base, e do outro lado a construção do Sistema Único de Saúde (SUS), que com sua presença em todo o território nacional fez as pontes necessárias para que possamos enfrentar esse desafio da saúde pública e esse enigma científico."


Gadelha agradeceu a consolidação da parceria do IAP for Health e de IANAS, fundamental no enfrentamento de um problema internacional de saúde pública. "Precisamos consolidar essa parceria em cima da construção e compartilhamento do conhecimento da forma mais aberta possível, em benefício da sociedade. "E temos que estar unidos e preparados, porque o desafio é permanente."


(Elisa Oswaldo-Cruz Marinho para NABC)



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