Euraxess Brasil: Como incrementar sua capacidade de comunicação científica?

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Publicado em 24/10/2016


Com o apoio da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Faperj e Laboratório Em Formação/UFRJ, a EURAXESS Brasil promoveu um encontro preparatório do Science Slam Brasil 2016, concurso de comunicação científica cuja final ocorreu no dia 19 de outubro, no Lapa Café. O treinamento - media coaching - envolveu um conjunto de atividades e palestras promovidas por especialistas para ajudar os cientistas a comunicar de forma mais clara e significativa suas ideias e sua pesquisa para o público.

A EURAXESS é uma iniciativa da Comissão Europeia que ajuda gratuitamente os pesquisadores no desenvolvimento das suas carreiras e facilita a a mobilidade científica entre o Brasil e a Europa.

Esquentando os tamborins

Realizado na biblioteca da antiga Maison de France, hoje Casa Europa, em torno de 20 jovens pesquisadores, jornalistas e professores, além dos cinco finalistas do Science Slam 2016, participaram de um workshop de técnicas de apresentação para pesquisadores. Começando com o coreógrafo João Silveira, doutorando do Laboratório Em Formação (PEGeD/IBqM/CCS/UFRJ) que, focando a questão da ocupação de espaço, pôs todos os participantes para dançar. Os diferentes ritmos - valsa, tango, salsa e forró - foram associados a diferentes estilos de apresentação: mais conservadora, mais intensa, mais dinâmica e mais descontraída. E a atividade demonstrou a eficácia de se começar um evento desse gênero com uma abordagem mais lúdica, para "soltar" o público e quebrar o gelo.

Conteúdo adequado ao público-alvo: parece óbvio, não é?

Em seguida, o publicitário Marco Brandão, organizador do TEDx Rio, falou sobre técnicas de apresentação e da habilidade de contar uma boa história. Ele mostrou o vídeo How to Sound Smart in Your TEDx Talk, com o ator norte-americano Will Stephen, que mostra com muito humor um modelo de apresentação "padrão" e nos faz refletir sobre o quanto uma palestra pode ser inócua e vazia se o conteúdo não for adequado, em termos de clareza e objetividade, aos interesses e conhecimentos prévios do público-alvo.É imperdível, vale assistir!

Internacionalização de boas ideias

A bióloga Marcela Uliano, doutoranda do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho (IBCCF/UFRJ), contou sua experiência do Science Slam para o TED Fellows Program. Este programa conta com uma rede de 400 pessoas, entre cientistas, artistas, ativistas, empresários, jornalistas, médicos e inventores, que colaboram de forma transdisciplinar com o objetivo de gerar mudanças positivas pelo mundo afora.

Anualmente, o TED seleciona um grupo de pessoas através de um rigoroso processo de seleção para se tornarem TED Fellows. O TED - um acrônimo de Tecnologia, Entretenimento e Design - é uma série de conferências realizadas na Europa, na Ásia e nas Américas pela Fundação Sapling, dos Estados Unidos.  Destinadas a comunicação de "ideias que merecem ser disseminadas" e sem fins lucrativos, suas apresentações são limitadas a dezoito minutos e os vídeos são amplamente divulgados na Internet.

O grupo foi fundado em 1984, e a primeira conferência aconteceu em 1990. As sedes da Fundação são em Nova Iorque e Vancouver. Em 2009, foi criado um programa chamado TEDx, organizado regionalmente, de forma independente, que reúne pessoas para dividir uma experiência ao estilo TED. Hoje há eventos TEDx espalhados por todo o mundo.

Os critérios para ser um TED Fellow se baseiam em personalidade marcante, realizações significativas e abordagem criativa para a solução dos mais difíceis problemas mundiais.  Os membros novos e os antigos se reúnem  numa Conferência Anual, onde trocam ideias e interagem com a crescente comunidade TED. Apresentam seus TED Talks, divulgando suas ideias originais para o mundo. Participam de sessões profissionais de treinamento e tutoria, assim como com especialistas em relações públicas. Integram, assim, uma ativa rede global online e frequentam encontros regionais, onde os brain stormings acontecem.

Marcela destacou o desenvolvimento de sua autoconfiança desde que se tornou Ted Fellow, através da interação com líderes globais que podem vir a ser seus parceiros profissionais, colaboradores, apoiadores ou mentores. Ela estimulou os participantes que se sintam potenciais Ted Fellows que apliquem - as inscrições para 2017 já estão abertas, até o dia 13 de novembro.

O que é importante x o que é interessante

O biofísico Mauro de Freitas Rebelo, professor adjunto da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autor do blog Você que é biólogo foi um dos responsáveis pelo coaching científico dos finalistas. Ele afirmou que fazer uma boa apresentação nada mais é que contar bem uma história, com começo, meio e fim. Na história mais recente do desenvolvimento humano, a inteligência se manifesta enquanto coevolução da linguagem e do cérebro. "E a inteligência está associada à capacidade de contar boas histórias, porque cria vantagens competitivas", esclareceu Mauro.

Só que, para tanto, a seleção da informação a ser exposta é primordial. Segundo Rebelo, até 2002 foram reunidos 12 bilhões de GB de informação nos computadores da rede mundial. De 2002 a 2004, esse número foi quadriplicado. Hoje, a quantidade de bilhões de GB de informação na internet dobra a cada dez  meses.

Diante desse quadro de crescimento exponencial da quantidade de informação disponível, Rebelo destacou que não há como passar todo o conteúdo referente a um determinado tema, sobre o qual o pesquisador se debruça por anos a fio, em poucos minutos. Portanto, é preciso ser extremamente criterioso em identificar as prioridades e escolher bem as palavras. Ele destacou que saber diferenciar o que é importante do que é interessante e saber quando e que prioridade dar a cada coisa é a questão que está no âmago da comunicação científica. "O que é 'importante' é o que afeta a vida de muitas pessoas. O resto pode ser interessante para alguns e menos para outros. A não ser a vida das outras pessoas, pelo que todo mundo se interessa", brincou o pesquisador.

Mas a brincadeira tem um fundo de verdade. Rebelo explicou que uma das técnicas de captar a atenção do público é falar da vida dos outros, inclusive da sua. "Trazer um pouco da sua história associada às coisas que você acha importantes as torna interessantes", ensinou.

Ele estimulou os participantes a gravarem duas chamadas de dois minutos, o que corresponde a aproximadamente 300 palavras, explicando seu trabalho: Um "síncrono", que seria dirigido aos treinadores do evento, e outro "assíncrono", voltado para a câmera. E essa foi a atividade prática do workshop: todos os participantes que quiseram gravar saíram com seu "pitch"gravado, um bom começo para analisar sua postura, sua seleção de conteúdo e tudo mais que foi colocado pelos treinadores naquele dia. E, a partir daí, melhorar sua comunicação com o público. 

 

Uma boa mistura de ciência correta e bem humorada

O vencedor do Science Slam Brazil 2015, Leonardo Parreira, é biomédico e doutorando de Ciências da Saúde na Unifesp. Fundador do Grupo Gatu de Comunicação Científica, apresentou um padrão que é consenso como modelo de boa apresentação - e do qual ele discorda em parte. É o chamado padrão 1:6:6 - uma ideia por slide, seis tópicos, seis palavras por tópico. Para ele, a ideia geral parece boa. Mas se a seleção de informação não for bem feita e se as seis palavras para cada tópico não forem bem escolhidas, não adianta seguir o modelo. "Vocabulário técnico sem explicações não contribuem em nada para a compreensão do conteúdo".

Leonardo exemplificou com um título de uma apresentação de um pesquisador, cujo vídeo está no You Tube: "Investigating the Use of Phragmites australis (Trin Ex. Steud) as an Energy Feedstock for Anaerobic Digestion in Ontario, Canada". Instado a criar um título com apelo para o público, ele chegou a "Tall grass biomass for biogas", que perde na tradução por conta da sonoridade das palavras, mas significa "Biomassa de grama alta para biogás". Ainda não tendo alcançado comunicabilidade total com este título, o autor foi provocado e chegou ao seguinte título final: "The power of plants farts", algo como "O poder dos puns das plantas". "Esse título pode ser entendido por qualquer pessoa", concluiu, bem-humorado.

Para ele, é fundamental que antes de montar uma apresentação se faça um roteiro bem detalhado, como se fosse um texto de teatro, com o cuidado de adequar todas as palavras ao público-alvo. Em relação a gráficos e tabelas, Leonardo também foi bastante enfático: vale ater-se apenas aos dados significativos, aqueles que realmente importam. "Muitas vezes, de uma tabela enorme só o que interessa realmente para a comunicação com o público é a última coluna. Então, esta coluna pode ser transformada num gráfico simples e objetivo. E manter o padrão de uma ideia por gráfico." Para ajudar nisso, Leonardo sugeriu o site Infogram. "Lá a pessoa insere os dados, escolhe o formato e sai pronto, bonito e bem feito."

Um ponto apontado pelo palestrante, e muito importante na comunicação científica, é o uso do humor. Segundo pesquisas na área da publicidade, a alegria estimula o desejo de aprender. E o que torna algo engraçado? Para Leonardo, primeiro ponto: o próprio palestrante precisa achar graça na piada. E até para piada existe um modelo: no TED Talk de Peter Mc Graw, ele mostra que a piada fica na interseção entre o benigno e a violação.  O exemplo dado  por Leonardo foi o do vídeo: o ato de fazer cócegas em um estranho. É benigno, porque não tem nenhuma má intenção. Mas tem um quê de violação, na medida em que alguém toca no corpo do outro sem a "permissão" dele. Fechando o tema do humor, há a distorção cômica. "A informação real somada à distorção cômica gera a piada", explicou Leonardo.

Obter informações prévias sobre o público presente também é ótimo para o palestrante, porque permite que ele, mesmo que não faça parte daquele universo, utilize exemplos que digam respeito àquele conjunto de pessoas. Isso aproxima o público e gera interesse.

E, por fim, o "efeito" chamado de call back. Alguma informação relevante que tenha sido explicada ou comentada no início da apresentação, não necessariamente uma coisa engraçada, é retomada no final sem que os ouvintes esperem por isso. É o que dá a sensação boa de conclusão da palestra. Leonardo mostrou então um vídeo de 1'35'': um comercial da Shell sobre biocombustíveis que é uma excelente peça de comunicação científica, pois trabalha bem a seleção de informação, a linguagem, o humor e o call back, enfim, tudo que foi visto na sessão de coaching. Assistam e tirem suas próprias conclusões!

O Grupo Gatu, que Leonardo Parreira integra, promove a Liga Nacional de Comunicação Científica, com o projeto 5 minutos de ciência. Nesse programa, o grupo entrevista alunos de pós-graduação e os estimula a apresentar suas pesquisas em cinco minutos, de forma original e criativa. E ele destaca fortemente que quanto menor o tempo de apresentação que o palestrante tiver disponível, mais tempo ela deve usar preparando-a. Acesse a página do Grupo no Facebook e veja quantas dicas interessantes e vídeos com excelente nível de comunicação você vai encontrar!

Sucesso na internet depende de muito estudo

O comunicador científico Atila Iamarino começou contando sua própria história - bem de acordo com as dicas dadas no coaching. Durante o doutorado em virologia, Átila começou um blog de divulgação científica. Já no pós-doutorado pelo Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (ICB-USP), lançou o canal Nerdologia, no YouTube - que já tem mais de um milhão e meio de pessoas inscritas.

Seu sucesso veio com muito empenho e estudo. Ele citou Dominique Brossard, diretora do Departamento de Comunicação de Ciências da Vida na Universidade de Wisconsin-Madison (EUA) que, em artigo publicado pela NAS (Academia de Ciências dos Estados Unidos), mostrou resultados de sua pesquisa sobre o cenário do interesse online por ciência. Brossard explica que as pessoas procuram por ciência na internet pelo interesse educacional, por estar associada a eventos midiáticos e para conferir opiniões sobre assuntos já conhecidos.

A partir daí, Átila Iamarino foi desenvolvendo pesquisa própria, tendo como objetivo tornar seu conteúdo acessível e interessante para quem não está buscando por ciência na internet. E ele resumiu alguns tópicos importantes. O primeiro é reconhecer o poder de uma história. Histórias bem contadas, que contenham conteúdos de economia, história e ciência, são as que mais fazem sucesso. O segundo é reconhecer o poder do contexto social. Até 2014, o Facebook e o You Tube eram as mídias sociais mais acessadas do mundo. Hoje, o Snapchat já passou a frente. "E outros se sucederão: precisamos estar sempre atentos e à frente", comentou Átila. Como exemplo de informação adequada ao contexto, Átila citou um vídeo do geneticista Eli Vieira, em resposta às posições do pastor Silas Malafaia sobre homossexualidade. O vídeo - que dura 15 minutos, quase um longa-metragem para o padrão do You Tube - já teve mais de um milhão e setecentas mil visualizações.

A seguir, Iamarino valorizou o pré-roteiro para vídeos de comunicação científica. E para isso, colocou muitas questões. Qual o propósito do vídeo? Se refere a um problema que o ouvinte desconhece? Esta questão é bem explicada? Há uma atitude a ser tomada que está sendo negligenciada? E para preparar bem a mensagem, há fatos que a embasam? Quais os fatos mais claros e compreensíveis e qual a confiabilidade das fontes? Quais são os contra argumentos? Você está preparado para responder a eles?

Com relação ao modo de transmitir a mensagem, Iamarino também foi simples e contundente: a mensagem tem que ser transmitida de forma clara, fatos controversos devem ser tratados com cuidado e a empatia pelos contra argumentos funciona bem para facilitar a compreensão. Destacou ainda que autoridade conta: cientistas são tidos como confiáveis, de acordo com pesquisa de percepção pública de ciência, conduzida pelo CGEE/MCTI 2015. Números são importantes, mas sempre contextualizados e apresentados de forma compreensível. E concordou com Leonardo Parreira, reforçando que mensagens pessoais são mais bem recebidas. "Fica mais fácil de transmitir sua paixão", resumiu.

Então, a recomendação final do especialista para a produção de vídeos e apresentações de comunicação científica é: cinco minutos, com boa seleção do conteúdo. "Serão selecionados alguns fatos, portanto, a mensagem será sempre incompleta. Mas o objetivo primordial é contextualizar o conhecimento."

(Elisa Oswaldo-Cruz para NABC)



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