Acadêmica Vanderlan Bolzani relata dificuldades do Parque Nacional da Serra da Capivara por falta de verbas

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Publicado em 30/08/2016



Em abril deste ano tive o privilégio de visitar o Parque Nacional Serra da Capivara, um lugar incrivelmente belo, formado por 1200 sítios arqueológicos localizados na pequena cidade de São Raimundo Nonato, Piauí.  A cidade abrigou a Reunião Regional da SBPC, ocorrida no período de 20 a 23 de abril de 2016, cuja temática tratou do "Homem e o Meio Ambiente: da Pré-história aos Dias Atuais".

Ao tomar conhecimento das notícias veiculadas pela mídia na última semana, de que a pesquisadora e arqueóloga Niède Guidon comunicou à Unesco sua saída da direção da Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham), no Parque Nacional Serra da Capivara, a primeira coisa que me veio à cabeça para expressar um grito contido, foi pensar na música de Renato Russo, Que país é esse?

Assistimos, preocupados e constrangidos, a mais um episódio da tradicional dificuldade brasileira em lidar com as riquezas naturais do País. Algo que coloca novamente em relevo a urgente necessidade de políticas consistentes, apoiadas em fontes de financiamento permanentes, para as áreas de educação, ciência, tecnologia e inovação, sempre afetadas pelas crises econômicas e políticas.

Premiada pela absoluta falta de recursos que se arrasta há anos, a arqueóloga Niède Guidon, coordenadora da Fumdham, e responsável pela administração do Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí, anunciou sua decisão de abandonar essa missão já que o órgão não consegue dar conta de seus custos e compromissos trabalhistas.

O anúncio do Ministério do Meio Ambiente, feito na última quarta-feira (17), de um repasse emergencial para sanar as atuais dificuldades do Parque ilustra, de forma eloquente, o estilo local de resolver problemas criados pela própria "desatenção" dos nossos governantes.  Uma visão guiada pelo equivoco de que educação e CT&I são custos e não investimentos para o País que almeja um futuro sustentável.

Acervo único no continente americano, com mais 1200 sítios arqueológicos, que abrigam inúmeras pinturas rupestres e o registro de um crânio de Zuzu, descoberto pela equipe de Niède (1997) no magnífico complexo pré-histórico do Parque Nacional Serra da Capivara. Datado de 12 mil anos, é considerado o mais antigo registro humano no Brasil. Outro achado que salta aos nossos olhos no Parque são os restos de carvão oriundos de fogueiras, ocorridas possivelmente entre 20 mil e 50 mil anos atrás. Tais dados não deixam dúvidas sobre as descobertas arqueológicas de que o homem americano já existia naquela região, contrapondo-se à teoria de que o homem das Américas teria vindo da Ásia, cruzando o estreito de Bering rumo ao Alasca, há 12 mil anos. Este Parque é uma fonte de pesquisa e conhecimento sobre a vida no Planeta, cuja importância levou a Unesco a inscrevê-lo como Patrimônio Mundial.

A manutenção e preservação desse espaço significam não apenas o desenvolvimento de pesquisas de grande impacto científico, como a que revela as origens do homem americano no continente, mas, também, a sobrevivência de espécies ameaçadas de extinção numa área de Cerrado fantástica.

Essa importância, no entanto, não tem sido suficiente para despertar a atenção de governantes, empresários e terceiro setor sobre esse tesouro maravilhoso que está abrigado no semiárido nordestino e é desconhecido pela maioria da população.

No momento em que o mantra da inovação é repetido a cada hora como uma palavra mágica, a desatenta mentalidade nativa ignora o potencial de riquezas e visibilidade mundial que poderia explorar no Parque, devidamente cuidado e preservado. Alguém tem dúvida que se o Parque Nacional Serra da Capivara estivesse nos Estados Unidos ou em um país europeu já teria se tornado um grande sucesso no roteiro turístico mundial? Com direito a selfies tendo como fundo as pinturas feitas há dez mil anos ou as flores belas e exóticas do semiárido? O sítio arqueológico de Tulum, no México, por exemplo, também de grande importância histórica recebe anualmente cerca de 1,2 milhões de visitantes, enquanto que o nosso, registrou 18 mil visitantes em 2015, dados colhidos do Ministério do Turismo, Fundação Getúlio Vargas e Sebrae.

O episódio registrado nas últimas semanas, em que uma respeitada pesquisadora é levada ao extremo de exaustão e desânimo, a abandonar o trabalho a que se dedicou durante a maior parte de sua vida por falta de recursos, deveria servir como um alerta agitado em letras garrafais. Talvez seja a hora de se preocupar também com a inovação da mentalidade que é incapaz de valorizar a riqueza de nosso patrimônio natural que é da humanidade!

(Vanderlan Bolzani para Jornal da Ciência - 29/08/2016 - Foto: Madiano Marchetti)



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