Jovens cientistas da ABC apresentam propostas a autoridades

  • Compartilhe:

Publicado em 08/08/2016

O encerramento do 3º Encontro Nacional de Membros Afiliados da Academia Brasileira de Ciências (ABC) reuniu autoridades na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em Belo Horzionte, onde aconteceu o evento, para ouvir as conclusões dos 80 jovens cientistas participantes, após três dias de debate. Os relatores das três sessões temáticas apresentaram os principais pontos levantados por cada um dos grupos de trabalho, montados ao fim das respectivas sessões.



Os relatores das sessões Antonio Gomes de Souza FIlho, Raquel Montenegro e Kildare Miranda

 


Um dos objetivos do Encontro foi justamente a elaboração de propostas e possíveis soluções para as principais dificuldades no sistema nacional de CT&I, questões essas debatidas ao longo do evento. A partir dessas discussões, será gerado um documento reunindo esses pontos, a ser entregue às autoridades institucionais e governamentais. A ideia é evitar que os próximos debates sejam apenas um "museu de grandes novidades", expressão cunhada pelos membros afiliados relativa a problemas apontados dede o primeiro Encontro, em 2011, que se mantêm sem solução.


Os Acadêmicos Hernan Chaimovich, Renato Cotta, Álvaro Prata, Paulo Beirão e Marcia Barbosa


Estavam presentes o secretário de Desenvolvimento Tecnológico e Inovação do Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), Álvaro Prata; o presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Hernan Chaimovich; o diretor de Ciência, Tecnologia e Inovação da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais (Fapemig), Paulo Sérgio Lacerda Beirão; o presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), Renato Cotta; a diretora da ABC Marcia Barbosa; e a pró-reitora de pesquisa da UFMG, Adelina dos Reis. 

O relator da primeira sessão "o impacto da ciência brasileira", Kildare Rocha Miranda (UFRJ), foi o primeiro a apresentar os principais pontos desse debate, que foi coordenado por Bruno Duarte Gomes (UFPA) e teve como provocadores Ado Jório Vasconcelos (UFMG), Edleno Moura (Ufam) e Fernando Galembeck (Unicamp).Miranda apresentou os pontos elaborados pelos grupos que discutiram subtópicos relativos à sessão 1: o impacto científico e cultural, o impacto socioeconômico e o impacto estratégico e as políticas publicas adotadas. Entre eles, a importância de medidas como a ampliação da divulgação científica; a melhoria de métricas pra avaliar o impacto e da legislação científica; e um maior engajamento em relação aos planos de desenvolvimento. Saiba mais sobre os subtópicos na matéria da sessão "o impacto da ciência brasileira".  

Raquel Montenegro (UFPA), relatora da segunda sessão, cujo tema foi "Independência e autonomia dos jovens cientistas", apresentou os pontos tratados após as discussões dos subgrupos, dentro dos temas "como lidar com as dificuldades de fazer ciência no Brasil", "ciência com qualidade e ética"e "apoio institucional/governamental aos jovens no estabelecimento da carreira científica". Esses temas foram apresentados, respectivamente, pelos provocadores Dario Zamboni (USP), João Batista Calixto (UFSC) e Marcello Barcinski (ANM/Fiocruz), tendo a sessão sido coordenada por André Báfica (UFSC).  

Entre os pontos elaborados, ela apontou a necessidade de melhorar o sistema de avaliação e da profissionalização do cientista/pesquisador; de uma mudança no sistema para favorecer financiamento de projetos de risco; da melhoria da avaliação ad hoc; e da ampliação do apoio de editais pelas FAPs para jovens doutores. De um modo geral, a ética foi um ponto em comum abordado por todos os grupos, bem como o incentivo a programas para inserção dos jovens pesquisadores. Todos os pontos elaborados pelos grupos da Sessão 2 podem ser conferidos nesta matéria. 

Antonio Gomes de Souza Filho (UFC) foi o relator da sessão 3, que teve por tema "Publicar como meio e não como fim", a participação de Olavo Bohrer Amaral (UFRJ), Eduardo Fraga (UFRJ) e Stevens Rehen (IDOR/UFRJ) como provocadores e a coordenação de Lisiane Porciúncula (UFRGS). Gomes comentou que uma das conclusões da sessão foi a de que as agências de fomento como Capes e CNPq não são entidades abstratas, mas compostas por pessoas - geralmente cientistas - com quem se pode discutir. Portanto, a responsabilidade pelas melhorias é, também, da comunidade científica. 

Outro ponto apresentado foi a dificuldade de equilibrar a produtividade, qualidade da pesquisa e os indicadores. O excessivo peso dado às publicações (volume, fator de impacto etc) nas avaliações dos pesquisadores, dos programas de pós-graduação e na distribuição dos financiamentos tem transformado a publicação na finalidade maior da pesquisa. O foco do pesquisador, na avaliação do grupo, deveria ser em fazer uma boa pesquisa e não visando a avaliação. Os resultados vão aparecer naturalmente. Mas a valorização excessiva dos resultados, ele lembrou, é dada pela própria comunidade cientifica, porque os comitês de avaliação são formados por seus próprios integrantes. 

Além disso, o sistema atual de publicação - principalmente no que tange ao peer review, às editoras e bases comerciais -  necessita de reflexão por parte da comunidade científica e das agências de fomento. Há problemas como a demora na divulgação dos resultados, o custo muito alto e o fato de a sociedade financiar a pesquisa do cientista e depois ter que pagar de novo para ter acesso ao trabalho. "É um bom negócio somente para as editoras", afirmou Gomes. Veja mais detalhes na matéria sobre a Sessão 3. 

A visão das autoridades

O bioquímico Paulo Beirão, da Fapemig, afirmou que as ideias apontadas são muito importantes e todas elas merecem que as agências, a ABC e as universidades se debrucem sobre elas. Ele comentou que estas últimas instituições estão apoiando cada vez menos os pesquisadores em relação a questões de infraestrutura e burocracia, como por exemplo, a prestação de contas. "Temos que nos preocupar também com a regulamentação da legislação - a do Marco legal de CT&I pode trazer muitos retrocessos." 

Sobre a avaliação, Beirão afirmou que a "extrema judicialização do que acontece no país" é uma ameaça ao trabalho feito nas universidades. Disse, também, que existe uma pressão sobre os comitês, que acabam tendo que se agarrar um pouco à avaliação quantitativa, criticada pelos afiliados. "Peer review, minha opinião a partir do olhar de agência, é o pior método, exceto todos os demais", alegou. "Tem muitos defeitos, mas ainda não vi um melhor. Temos tentado aperfeiçoá-lo. Um mecanismo que as agências podem usar é o de não valorizar o tipo de publicação 'pagou, publicou'". 

A física Marcia Barbosa se disse mais otimista, por ter assistido algumas palestras do evento. "Vendo essa nova geração, tive a certeza de que o Brasil vai deixar de ser um país produtor de commodities para ser produtor de tecnologias, porque esses jovens estão fazendo as perguntas certas." Ela enfatizou que os jovens cientistas devem participar dos grupos de estudo da ABC para ajudar a elaborar propostas em relação a muitas das ideias apresentadas que, segundo a Acadêmica, as agências e governos não têm condições de responder. "Uma delas é a questão do acesso aberto: como financiar a ciência depois de tudo estar disponível?"

Marcia Barbosa também falou sobre a importância da visibilidade para a ciência. "Não seremos capazes de engajar o país para que em, 2020 tenhamos 2% do PIB investidos em CT&I, se a pessoa da rua não souber que existem cientistas. Precisamos produzir material que vá além de um vídeo de dois minutos em que vocês contam sobre o que fazem. Isso não funciona", afirmou a Acadêmica. Ela contou que, há dez anos, os professores do Instituto de Física da UFRGS, onde trabalha, dão palestras em livrarias todo mês. O IF também mantém um programa na rádio da universidade, chamado "Fronteiras da Ciência". Nesse período, a procura de alunos pelo curso de física dobrou.


O químico Hernan Chaimovich, presidente do CNPq, criticou o fato de as apresentações dos jovens cientistas serem "politicamente corretas, suaves, sem raiva." Segundo o Acadêmico, estamos num momento que requer mudanças na forma como a ciência brasileira se desenvolveu nos últimos 40 anos. "Temos pessoas aqui que podem fazer uma ciência mais relevante, com mais impacto cultural e social. Todos os problemas apontados aqui existem. Comunicar a sociedade quantos papers eu publiquei é perda absoluta de tempo; mas comunicar que eu descobri que o sol tem planetas habitáveis comove as pessoas. Existe uma diferença astronômica entre resultado e impacto."

Chaimovich ressaltou que é responsabilidade dos jovens mudar o conservadorismo da comunidade científica, pois as agências não conseguem fazer isso sozinhas. "Estou convicto de que, se não há editais específicos para apoiar jovens doutores, esse país vai perder uma grande geração que nesse momento não têm acesso a bolsas de produtividade, a um edital universal. Minha esperança é a qualidade da ciência que vocês fazem." Ele comentou que o Brasil já provou que é capaz de gerar impacto com sua ciência, e um exemplo é a liderança no campo de pesquisa do vírus zika, já que, em seis meses, publicamos mais de 120 papers em grandes revistas.

O engenheiro Álvaro Prata, do MCTIC, disse que o impacto da ciência é um dos nossos maiores desafios. "O brasileiro, leigo, não gosta muito de ciência. Pior do que isso, é muito ignorante cientificamente. Quantos deputados conhecem as leis clássicas da mecânica de Newton?" Segundo o Acadêmico, não existe nação que, produzindo uma boa ciência, não faça uso dela em prol do desenvolvimento econômico e social. "A única talvez seja o Brasil, uma das 10 economias do mundo, uma das que mais fazem ciência, mas pouco competitiva. E não fazemos isso porque a ciência não esta incluída na nossa pauta."

Prata falou, ainda, sobre a importância do empreendedorismo entre os cientistas, e afirmou que os jovens cientistas não devem estar tão preocupados com a visibilidade e com a expectativa de se tornarem reconhecidos um dia. "Preocupem-se em fazer muito bem feito o que vocês se propõem. Ao longo do tempo, vocês vão construir suas carreiras. O sistema precisa reconhecer isso. Nós sabemos que o julgamento mais importante que fazemos não é baseado em uma quantidade específica, então cada um tem que tocar sua vida pensando na obra". Ele também opinou que a profissionalização da carreira de cientista não é um bom caminho. "Fazemos confusão entre a formação, atuação e profissão. As condições para se fazer ciência não serão dadas por meio de uma profissionalização formal." 

Também engenheiro e Acadêmico, Renato Cotta, da CNEN, endossou a sugestão de Marcia Barbosa para que os jovens cientistas participem e proponham novos grupos de estudos da ABC, que tem um papel importante de propositora/formuladora. Ele disse ter sentido falta de uma discussão sobre marco legal e inovação, tão essencial em um momento de crise, bem como sobre financiamento. Cotta mencionou também o impacto da divulgação ampla da ciência, "que vá além do grupo de 10 pessoas que conseguem entender", sugerindo a realização de um evento dedicado a esse tema. 

Segundo o Acadêmico, é mais eficiente levar a escola até a ciência do que o contrário, de modo que não apenas os alunos, mas também os professores conheçam a prática científica, de modo a formar replicadores. "Temos que melhorar a qualificação dos nossos professores de ciência." Cotta falou que, em tempos de crise, é importante pensar em outras fontes de financiamento, entre elas as formas colaborativas de buscar recursos, como crowdfunding. "É preciso ser um pouco atirado nesse momento de vacas magras." Ele disse, ainda, que os cientistas devem ser mais audaciosos e se arriscar mais em seus projetos. "Não existe ciência sem risco."

Adelina dos Reis, da UFMG, disse ter certeza de que os jovens cientistas apresentarão um belo trabalho após o evento e que cada um sairia modificado do encontro. "Nos últimos seis anos, houve uma mudança de cerca de 30% do corpo docente da UFMG, então a hora da renovação é agora. É o momento de vocês proporem mudanças." Ela mencionou a importância de se lembrar da educação básica, o que deve envolver também os pesquisadores, formando uma grande corrente de forma que as crianças de quatro anos já comecem a aprender o que é ciência. 

Veja os pontos apresentados na sessão, que ainda serão elaborados pelo Comitê Científico para se tornar o documento oficial do evento. 

(Clarice Cudischevitch para NABC)



Cadastre-se para receber
as Notícias da ABC:



Arquivo de notícias


 

Notícias anteriores TESTE


webTexto é um sistema online da Calepino