Membro correspondente da ABC, Serge Haroche afirma que ciência é um projeto de longo prazo

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Publicado em 20/07/2016



"Tenho 71 anos e nasci na França. Cresci na época do lançamento de satélites e foguetes e acabei descobrindo que poderia calcular coisas como a velocidade desses foguetes. Desde então fiquei fascinado com a possibilidade de, através da Matemática, descobrirmos coisas sobre o mundo físico. E decidi que ia trabalhar com isso."

Conte algo que não sei

Os fótons são as partículas de luz. São muito importantes, pois, através deles, recebemos todas as informações do mundo externo. Quando você olha para mim, vê no seu olho os fótons espalhados pelo meu rosto. Mas, na verdade, quando a imagem é processada pelo seu cérebro aqueles fótons já estão mortos. Nas pesquisas que realizo, conseguimos manter esses fótons vivos para observar seu comportamento. Além de serem importantes para explicar nosso mundo, praticamente todas as informações que temos sobre o resto do Universo são obtidas a partir deles.

Qual é o papel da Física em nossa sociedade?

Todos os mecanismos que utilizamos dependem da Física para existir ou foram criados com base nas leis da Física, descobertas no século XX. Desde os celulares até mecanismos que utilizam raios laser. O nosso mundo é o mundo da tecnologia baseada em ciência fundamental. A Física está em todos os lugares.

Você participou de um debate sobre Física e guerra. O que pensa sobre isso?

A aplicação da Física pode ser ruim algumas vezes, mas a pesquisa fundamental, como aquisição de conhecimento, é sempre boa. É melhor conhecer as coisas do que não conhecê-las. No entanto, é preciso haver considerações éticas. A situação dos físicos envolvidos nas pesquisas na Segunda Guerra Mundial era terrível, principalmente dos americanos que desenvolveram a tecnologia da bomba atômica. Eles não tinham como saber o que Hitler estava fazendo do outro lado. Não tenho dúvida de que tiveram que fazer o que fizeram, mas a forma que a bomba foi usada é extremamente questionável. A decisão de lançar as bombas (sobre Hiroshima e Nagasaki) foi política, estava fora das mãos da ciência.

Hoje há algum dilema parecido com esse na ciência?

Vivemos situação parecida na área da Biologia, com a questão do uso e da manipulação do genoma humano. Acredito que seja uma área muito delicada e que exige cuidado. Isso não quer dizer que não deva ser investigada.

O que você pensa sobre o desarmamento?

Acredito que o desarmamento seja um problema importante para as relações internacionais. Infelizmente, isso envolve política e depende de acordos e leis. No momento um dos mais importantes problemas que o mundo enfrenta é a questão da imigração. As pessoas estão saindo de seus países justamente por causa da violência. A América do Sul está mais isolada dessa questão, mas, na Europa, é o assunto central, e não acho que estamos agindo da melhor maneira. A Europa está dividida, e há cada vez mais reações populistas.

O que você acha da ciência brasileira?

Visitei o Brasil algumas vezes nos últimos 30 anos e testemunhei o desenvolvimento da ciência aqui. Observei mais de perto o campo da ótica quântica, onde o Luiz Davidovich, grande amigo meu, obteve importantes progressos, fora outras pesquisas, que fazem daqui um dos centros nessa área. Há alguns anos, podíamos atribuir a falta de investimento ao pouco desenvolvimento do país, mas hoje é impossível não tratar a ciência como essencial e adequá-la ao momento econômico pelo qual o país passa. Ciência é um projeto de longo prazo. Os políticos têm que olhar para o futuro quando pensam na ciência, sem se deixar levar por situações conjunturais. Suspeito que não seja essa a visão no Brasil atualmente.

Confira a matéria original.

(Gabriela Antunes para O Globo - Sociedade - 19/07/2016 - Foto: Leo Martins / Agência O Globo)



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