Membro da SBQ, Vitor Ferreira fala sobre os desafios da química

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Publicado em 15/07/2016



O que lhe vem à cabeça quando você pensa em química? Segundo o Acadêmico Vitor Francisco Ferreira, professor do Instituto de Química da Universidade Federal Fluminense e membro do conselho consultivo da Sociedade Brasileira de Química (SBQ), a sociedade em geral associa esse ramo da ciência a "chaminés fumegando gases poluente e rios envenenados", ou à disciplina burocrática ensinada nas salas de aula, esquecendo-se do valor e da presença dos processos químicos em nosso cotidiano.

Desenvolvendo essa análise, professor Ferreira apresentou a palestra "Como a química melhora nossa qualidade de vida" durante a 68ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) em Porto Seguro (BA).

Medicamentos, pigmentos de roupas, tintas de parede, motores de automóveis e inúmeros outros elementos com os quais lidamos habitualmente existem por conta de processos químicos conhecidos. Mesmo nossos sentimentos e sensações são fruto das interações de moléculas em nosso organismo, como a dopamina, responsável pela sensação de bem-estar de quando estamos apaixonados ou a adrenalina, que nos aumenta os batimentos cardíacos.

Nova face

De maneira geral, o que a química pretende é entender as formas, funções e interações de moléculas entre si e com os organismos e isso envolve outros ramos científicos. "Há uma amplitude imensa de possibilidades", afirma Ferreira. "A química não está mais restrita a orgânica, inorgânica, biológica e física. Os últimos prêmios Nobel de química trabalham nessa interface."

Isso pode ser verificado. Em 2015, foram laureados com o prêmio Nobel de química Paul Modrich e Aziz Sancar, ambos geneticistas, e Tomas Lindahl, médico, por pesquisas sobre DNA, campo habitualmente associado à biologia.

Desafios

Uma das atividades econômicas mais importantes no Brasil atualmente é a fabricação de produtos e geração de energia a partir do petróleo. Por causa disso, a petroquímica é um dos ramos da química mais valorizados pelo retorno financeiro - mas, segundo Ferreira, esse cenário precisa mudar. "O petróleo um dia vai acabar e nós precisaremos produzir tudo sem ele. A alternativa para isso é a biomassa".

Embora o petróleo seja aproveitado quase integralmente - a taxa de resíduos é em torno de 100g para cada Kg de material produzido - o problema é a persistência dos materiais no meio ambiente. "A popularidade da química é uma coisa que a gente pode solucionar com divulgação científica. O grande desafio, realmente, é o da química industrial, que precisa começar a fazer produtos com um ciclo de vida pensado, que se não forem biodegradáveis, possam ser reutilizados", disse o pesquisador.

Alguns exemplos de reaproveitamento de materiais apresentados pelo professor são o uso da fibra do coco para fabricação de copos e outros utensílios e do bagaço da laranja para óleo para combustível e fabricação de medicamentos.

O planejamento da vida útil de um material e a sua reutilização caracterizam a chamada "química verde". "A expectativa do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) do governo brasileiro é que até 2020 o Brasil produza R$ 20 bilhões em química verde", afirma Ferreira. "O custo é menor, o consumo de energia também e as fontes são renováveis. Com o tempo, a produção não-renovável vai acabar. Esse é o futuro da química", garante.

Entretanto, para que isso se concretize, o professor afirma que a química precisa superar a resistências dentro do setor empresarial. "O modelo econômico em que vivemos visa o lucro e acumulação de riqueza a curto prazo e isso é uma das barreiras da química sustentável."

(Samil Chalupe para NABC)



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