Internacionalização e inclusão social no Ciência sem Fronteiras

  • Compartilhe:

Publicado em 23/06/2016

Confira o artigo do Acadêmico Carlos Nobre, ex-presidente da Capes, e da professora da UnB Concepta McManus, publicado no jornal Valor Econômico, em que avaliam o programa de intercâmbio Ciência sem Fronteiras, implantado de 2011 a 2015 pelo Governo Federal. 




O sistema nacional de pós­-graduação se expandiu e se interiorizou nos últimos anos. Atualmente, há mais de 4.300 programas de pós­-graduação, com 250 mil alunos, mais de 100 mil somente em doutorado. O Brasil forma anualmente cerca de 18 mil doutores e 55 mil mestres. Neste ritmo, chegaremos à média de 2 doutores por mil habitantes na faixa de 25 a 64 anos nos próximos anos ­ ainda longe dos países desenvolvidos, com médias entre 5 e 20 doutores por mil habitantes nessa faixa etária.

Esta expansão absorve a maioria dos doutores e 75% destes encontram-­se nas universidades e órgãos de governo, com menor presença no setor privado, ao contrário dos países industrializados, onde as empresas inovadoras contratam a maioria. Por outro lado, é esse contingente de pessoal capacitado para a pesquisa ­ 68 mil docentes na pós­-graduação ­que vem contribuindo para o Brasil ser um importante gerador de novos conhecimentos: atingimos a marca de 13º país do mundo que mais publica artigos científicos.

Quantidade, no entanto, não basta. A ciência nacional precisa de mais visibilidade e de maior impacto; pesquisadores brasileiros precisam ajudar a responder às grandes questões da ciência atual e a desenvolver sustentavelmente as novas tecnologias que permitirão gerar riqueza no país, com inclusão social. Para isso, é crucial maior inserção internacional, com maior cooperação com os centros avançados de pesquisa em todo o mundo, e maior produção conjunta de novos conhecimentos com pesquisadores de outros países.

Criado em 2011, programa deve ser aperfeiçoado e mantido como política científica e educacional de longo prazo

Mirando o exemplo de economias emergentes como China e Índia, com dezenas de milhares de estudantes no exterior, é sob o emblema da mobilidade científica internacional que nasce o Programa Ciência sem Fronteiras (CsF) em 2011, com meta de enviar 101 mil estudantes e pesquisadores brasileiros para universidades de excelência em todo o mundo. O programa priorizou as áreas conhecidas como STEM (ciências, tecnologias, engenharia e matemática), frente à necessidade de uma mudança de paradigma na cultura de inovação do país para o avanço da sociedade do conhecimento.

Neste ano completa­-se a primeira fase do CsF. Foram enviados 73.353 universitários (79% de todos os participantes) cursando graduação para um ano acadêmico (modalidade "graduação ­sanduíche") para 2.912 universidades de 54 países  entre estas, para 182 das 200 melhores universidades do mundo no Shanghai Ranking: Academic Ranking of World Universities ­, expondo­-os a um "choque de internacionalização". Destes, mais de 40% realizaram estágios de verão em laboratórios universitários, governamentais e industriais, expandindo ainda mais suas vivências em ambientes inovadores. O Brasil aumentou a mobilidade internacional de estudantes e pesquisadores de uma média anterior ao CsF em torno de 5 mil por ano para mais de 40 mil em 2015, auge do CsF.

As avaliações feitas pela Capes mostram resultados preliminares sobre inclusão social. O quadro nesta página mostra a distribuição dos alunos da modalidade graduação ­sanduíche por renda familiar.

A grande maioria é oriunda de famílias com renda de até 6 salários mínimos. Do total de alunos, 26,4% se autodeclararam pardos ou pretos, valor próximo aos 23% da média do sistema universitário brasileiro. Este grau de inclusão social não foi antecipado na implementação do programa e é uma marca de sucesso. A maioria destes jovens, selecionados por critérios de mérito, teve oportunidade única de passar um ano numa universidade de ponta, tornar­-se fluente numa outra língua e

adquirir visão e vivência internacionais, que certamente lhes abrirão caminhos profissionais e pessoais que dificilmente conseguiriam sem apoio de um programa como o CsF.

Já é possível começar a avaliar os impactos de mais longo prazo do CsF analisando os quase 13 mil participantes que já concluíram os cursos de graduação no Brasil após retornarem do exterior. Mais de 20% destes ingressaram em cursos de mestrado e doutorado no país, um número muito maior em relação aos menos de 5% dos graduados nas mesmas áreas

prioritárias do CsF ingressantes em pós-­graduação e que também obtiveram 600 pontos no Enem, critério obrigatório para o participação no CsF. O acompanhamento dos egressos deve continuar, para avaliar o impacto deste programa tanto para a internacionalização das universidades brasileiras quanto para o surgimento de mais jovens inovadores e empreendedores no seio da indústria nacional.

E o futuro? O Senado estuda transformar o CsF em política de Estado. Idealmente, isso deve ocorrer o quanto antes, para que as diversas portas de colaboração abertas pelo CsF não se fechem, ampliando a visibilidade internacional do Brasil nos âmbitos educacional, tecnológico e científico.


Fonte: autores

A experiência adquirida nesta primeira fase recomenda aperfeiçoamentos: 1) ­limitar a 15 mil alunos por ano e aumentar a participação de alunos de pós-­graduação e pesquisadores em estágio pós-­doutoral­ algo como 60% ao invés dos 21% do programa atual ­, pois o benefício para o Brasil de formação de pesquisadores em centros internacionais de excelência é incomensurável; 2) ­expandir para outras áreas necessárias ao desenvolvimento sustentável do país além de STEM, porque nem mesmo inovação tecnológica pode prescindir das ciências sociais; 3)­ enviar alunos de graduação para um número bem menor de universidades, mas todas de ponta, e envolver a universidade brasileira de origem dos alunos em cotutoria e acompanhamento do estágio no exterior, ampliando parcerias com universidades de destino; 4) distribuir os alunos mais uniformemente em vários países e fomentar intercâmbio de estudantes para aumentar o número de alunos estrangeiros nas universidades brasileiras; 5)­ a preparação em outro idioma deve ser feita previamente, no Brasil; 6) definir orçamentos específicos que não se apropriem do financiamento básico do sistema de ciência, tecnologia e inovação, lembrando que uma das críticas pertinentes foi a de que parte das verbas do mais importante fundo público de financiamento de pesquisas do país, o FNDCT, foi direcionada aos alunos de graduação­ sanduíche do CsF, e garantir maior participação de financiamento privado; e 7)­ aumentar significativamente a atração de pesquisadores estrangeiros para o sistema universitário brasileiro.

A bem-vinda e necessária internacionalização de universidades brasileiras exige mobilidade internacional dos corpos docente e discente. O Ciência sem Fronteiras foi uma válida e inovadora experiência. Aperfeiçoado, deve ser mantido como política científica e educacional de longo prazo.

Carlos A. Nobre é doutor pelo MIT, membro titular da ABC, membro estrangeiro da Academia de Ciências dos Estados Unidos e ex-­presidente da Capes.

Concepta McManus é doutora pela Universidade de Oxford, professora titular da UnB e diretora de Relações Internacionais da Capes.

(Carlos Nobre e Concepta McManus para Valor Econômico - Opinião - 21/06/2016)



Cadastre-se para receber
as Notícias da ABC:



Arquivo de notícias


 

Notícias anteriores TESTE


webTexto é um sistema online da Calepino