Posse dos novos Acadêmicos em 2006

Saudação aos Acadêmicos, pelo Acadêmico Maurício Matos Peixoto

2/05/2009

Discurso de Posse dos Novos Acadêmicos em 2006
Academia Brasileira de Ciências
Ex-Presidente da ABC, Acadêmico Maurício Matos Peixoto
06 de junho de 2006

- Saudação aos novos Acadêmicos na Academia Brasileira de Ciências -

Senhor Presidente Eduardo Krieger, demais membros da Diretoria, minhas senhoras e meus senhores.

Inicialmente, desejo expressar meus agradecimentos ao nosso presidente Krieger pelo convite que me fez para saudar os colegas recém-eleitos.

Portanto, bem vindos a esta Casa, caros colegas!

A solenidade de que hoje participamos é a mais importante de nossa vida acadêmica, pois ela é a culminância do processo de seleção dos novos acadêmicos, através do qual a Academia se renova e permanece. Numa certa medida, esse processo de seleção define a Academia.

O prestígio de que goza a Academia na sociedade é, em boa parte, devido à lisura e seriedade com que esse processo sempre foi tratado.

Ao completar 90 anos de sua fundação, nossa Academia continua jovem e cada vez mais atuante.

Dentre os acadêmicos que hoje são empossados, os dois matemáticos eu os conheço bem, são colegas de reputação internacional. De longa data, os admiro pela matemática que fazem e pelo trabalho que desenvolvem em prol da matemática brasileira na PUC / Rio e na Universidade de Brasília. E há também uma nova acadêmica que é minha sobrinha, digamos assim, de coração.

É tradição nesta Casa que o acadêmico encarregado de saudar os novos membros tem a liberdade de fazer alguns comentários que lhe pareçam oportunos.

Em 1798, Napoleão Bonaparte invadiu o Egito com um exército numeroso, acompanhado de muitos cientistas, dentre os quais, os matemáticos Monge (seu grande amigo) e Fourier, o químico Berthollet, o naturalista Geoffroy Saint-Hilaire e muitos outros. No ano seguinte, resolveu voltar para a França com parte de seu exército. Houve um atraso nas operações e ficou resolvido que Napoleão aguardaria o embarque reunido com os cientistas, trocando amenidades. Explicou o general que gostava muito do contacto com os cientistas e que ele próprio, quando jovem, pensou seriamente em seguir uma carreira científica, mas que a vida decidiu de outro modo. Explicou o general que seu objetivo era ser um inventor, um Newton.*

Monge replicou - O que é isso, meu general? Não conhece o senhor o que diz Lagrange: ninguém atingirá a glória de Newton, pois existe apenas um mundo a ser descoberto, o que Newton já fez (com sua lei fundamental).

Ao que Napoleão respondeu: "Nada disso. Newton resolveu o problema do movimento dos sistemas planetários; é magnífico para todos vocês, homens de espírito e das matemáticas, mas eu, se eu tivesse ensinado aos homens como se operam e como se comunicam os movimentos nos pequenos corpos, eu teria resolvido o problema da vida no universo. E isso faria, como eu supus, que eu teria ultrapassado Newton de toda a distância que existe entre a matéria e a inteligência. Conseqüentemente, não há nada de exato no que diz Lagrange. O mundo dos detalhes resta a ser pesquisado. Eis esse outro mundo que é o mais importante de todos e que eu teria orgulho de ter descoberto. Apenas de pensar nisso, me dá uma dor na alma!"

Essa crítica devastadora de Napoleão ao dito de Lagrange sobre Newton, essa percepção clara do mundo (das pequenas partes) que precisaria ser investigado post Newton, essa visão que já incluía os fenômenos da vida, mostram um homem dotado de incrível penetração intelectual, um homem de gênio. Na época, provavelmente, não havia ninguém com uma visão, um pressentimento tão corretos dos rumos da ciência nos dois séculos seguintes. Teoria atômica, Química, Mecânica quântica, Genética, Biologia molecular, ...

Mas quanta empáfia, quanto orgulho, quanto papo furado em relação ao que ele próprio achava que poderia ter feito! E tudo isso partindo de um general de 30 anos, já alvo de uma bajulação geral e que estava em marcha batida, voltando para a França para ser, primeiro Cônsul e, em 1804, Imperador da França, com poderes absolutos.

Confesso que, ao escrever as linhas acima, me senti, de certo modo, desconfortável com essa agressividade do vulcão Napoleão ...

Como contraponto, transcrevo abaixo dois textos de um homem tranqüilo - o escritor Seneca, que os escreveu há dois mil anos atrás, textos extraídos das "Questiones naturales, livro VII" (bilíngüe, em latim e inglês). O primeiro, na minha opinião, tem a ver com a lei de Newton, o segundo com a atividade do cientista, inteiramente válido nos dias de hoje.

Há quem nos diga: Você está errado se julga que alguma estrela pode parar ou alterar sua órbita. Não é possível para corpos celestes ficarem parados ou dar meia volta. Eles sempre andam para a frente. Uma vez postos em movimento, eles avançam. O fim do seu movimento orbital é o mesmo que seu próprio fim. Essa criação eterna tem movimentos irrevogáveis. Se eles pararem em qualquer tempo, isso significa que os corpos, que agora são mantidos por uma constância e equilíbrio, colidirão um com o outro.

O tempo chegará quando pesquisas diligentes, efetuadas por longos períodos, lançarão luz sobre coisas atualmente escondidas. Uma única vida, mesmo que voltada inteiramente aos céus, não será suficiente para investigar tão vasto objeto ... Assim, esse conhecimento será adquirido apenas depois de longos períodos de atividade. Chegará o tempo em que nossos descendentes ficarão espantados porque não conhecíamos coisas tão evidentes para eles .. Muitas descobertas estão reservadas para épocas futuras, quando a memória a nosso respeito terá se apagado. Nosso universo é uma pobre, pequena coisa, a menos que nele exista algo para cada época investigar ... A natureza não revela todos os seus mistérios de uma única vez.

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