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  Saudação do Prof. Walter Araujo Zin a Ricardo Gattass, por ocasião de sua ascensão a Professor Emérito da UFRJ
15 de Dezembro de 2003



-Magnífico Reitor da UFRJ, Prof. Aloisio Teixeira, através de quem saúdo os demais componentes da mesa;

-autoridades presentes;

-colegas da Universidade;

-minhas senhoras e meus senhores:

Professor Emérito. Como cientista insatisfeito com definições prontas, e apaixonado curioso pelo mais saber, fui aos livros. Deixemos de lado o “Professor”, que exprime de público seu saber, professa, e passemos de pronto ao “Emérito”. No latim o verbo merere pode significar servir no exército, em Cícero (Filípicas 1, 20), ou merecer, como utilizado por César (Bellum Gallicum, 7, 34, 1 e 1, 40, 5). Parece-me que vamos mal por essa via, pois agora temos emérito composto por “ex”, fora, sem, e “meritus”, que mereceu. Trágico. Seria melhor auscultar Ovídio (Fastos 4, 58) e empregar o verbo emerere, latino, que também significa merecer, ou novamente Cícero, que, em Cato Maior (49), lhe dá o sentido de acabar de prestar o serviço militar. Nessa linha, Tácito (Anais 1, 28) usa “Emeritus” como substantivo, um soldado que encerrou sua vida de batalhas. Melhoramos na busca do significado, me parece. Interessante o cunho militar encontradiço na raiz da palavra. Faz-se mister, neste ponto, recordar que somente os guerreiros vitoriosos se afastavam da máquina bélica dos Césares, pois os perdedores jaziam pelos campos, não reviam Roma. Daí a forma poética do adjetivo emérito, empregada para designar os destacados, bem sucedidos. Assim, peço permissão a todos para ver em “Emérito”, e no nosso homenageado em especial, um excepcional sábio e destacado guerreiro da ciência, do ensino, da Universidade, em suma.

Definido o “Emérito” agucemos o foco. Permiti-me apresentar-vos Ricardo Gattass sob minha visão de personagem de Luigi Pirandello, Nobel de Literatura, em Così è si vi pare (1918). Não tenciono, nem posso, ser exaustivo; ressaltarei apenas alguns poucos pontos. O principal traço da personalidade de Gattass é sua intensidade. Quase uma obsessão-compulsão pelo fazer, por resolver problemas, pelo auxiliar o próximo. Naturalmente, essa faceta expressar-se-á de diversas formas ao longo da trajetória de Ricardo.

Vejamos o início de sua carreira profissional: ao término da Faculdade obteve o “Prêmio Universidade Federal do Rio de Janeiro”, outorgado ao mui seleto grupo de alunos integrantes dos 3% melhores em cada turma. Dessa dedicação profunda ao saber médico decorre a identificação de Gattass como doutor-mor oficial do corpo social do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho. Deveras, seu laboratório amiúde se transforma em consultório, para enorme prazer do médico de plantão! Ainda mais, a pesquisa translacional, moderninha, já fez história em seu laboratório de há muito!

Citemos mais uma expressão daquela intensidade. Ricardo é um cientista além de seu tempo, exemplo admirado pelos neófitos. Ainda na Avenida Pasteur, Praia Vermelha tão saudosa, o Instituto de Biofísica contava com um computador fantástico para a época: PDP-12, programado em linguagem assembler, portava magníficos 8 Kbytes de memória, um colosso maior que um refrigerador de 500 litros. Carlos Eduardo da Rocha Miranda dedicava muitos de seus preciosos minutos a ensinar aos estagiários de iniciação científica, dentre os quais me encontrava, a programá-lo, posto que iríamos utilizar a possante ferramenta nos laboratórios em que nos localizávamos. Talvez aqui eu precise fazer um parêntesis e explicar um pouco a geografia do lugar: havia um salão central para o qual convergiam cinco laboratórios de pesquisa, sem contar a janela do Prof. Leopoldo de Meis, que ficava no mesanino, além da sala do tal computador. Da outra extremidade dessa sempre agradavelmente fria sala passava-se aos laboratórios dos Eduardos, como carinhosamente chamávamos os Profs. Carlos Eduardo da Rocha Miranda e Eduardo Oswaldo Cruz. Retornando ao uso do PDP-12, como poderíamos, de nossos laboratórios, comandar a máquina? Ricardo sabia a resposta e, junto com o “Major Brasil”, nosso engenheiro eletrônico em parceria com o IME, montou, literalmente parafuso a parafuso, potenciômetro a potenciômetro, a nossa primeira rede de computação. Era grandiosa, caixas e tubos de alumínio, cabos coaxiais, plugs telefônicos, chaves e mais chaves. E não servia somente à Neurobiologia, onde Gattass trabalhava, mas ainda aos laboratórios dos Professores Antonio Paes de Carvalho e Ayres da Fonseca Costa. Com a mudança para o Fundão, a nossa rede veio junto, claro, certamente a primeira no Centro de Ciências da Saúde. Continuou funcionando por muito tempo, facilitando a produção de ciência biomédica e até mesmo computacional, pois me recordo de um trabalho científico publicado, em 1981, no Internacional Journal of Biomedical Computing por W.A. Zin e E. Oswaldo Cruz, resultado do que se adjetivaria hodiernamente como pesquisa multi, inter, trans, e por aí afora, disciplinar.

Aproveitando a linha da programação, Gattass conseguiu, junto à Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, curso de programação Fortran para todos os interessados do Instituto, obviamente disponibilizando amplamente a linguagem de alto nível e nos permitindo, por conseguinte, rodar rotinas no Núcleo de Computação Eletrônica da UFRJ.

Como o uso diuturno daquele computador não permitia mais tempo para o programarmos, Ricardo trouxe outro, óbvio, de Princeton, e dentro dele, bem camuflado, um micro, nosso primeiro. E sempre avante no tempo, conseguiu a doação de seis computadores IBM modelo AT para entrarmos, em definitivo na era dos microcomputadores e processamentos “on-line” personalizados. Daí para a rede institucional foi um pequeno grande passo e, hoje, temos o Instituto interconectado em par trançado e um “cluster” de processadores de alta velocidade com ligação ao Laboratório Nacional de Computação Científica do Ministério de Ciência e Tecnologia, localizado em Petrópolis.

A intensidade com que defende a sua verdade é notória. Honesto com suas crenças até o último dos neurônios, Gattass não se cansa de ousar e, por conseguinte, de se expor. Outros menos convictos mudariam de partido ou portariam máscara. Ele não! Como um recém-apaixonado, ou melhor, sempre apaixonado, enfrenta os desafios seguro de si. Dessa forma, manteve coesa nossa UFRJ em alguns momentos muito difíceis de sua trajetória. Ousou e criou, como já o vem executando a nível das agências federais. Para Ricardo a Universidade representa uma enorme academia, como a de Platão, a ser povoada por pensadores da todas as correntes filosóficas, científicas e culturais, jamais se deixando permear por interesses alheios à vida acadêmica.

Outra faceta da intensidade motriz de Gattass: o saber degustar. Tanto que resolveu escrever um livro de receitas culinárias árabes, para permitir a todos provar o prato preparado corretamente, resultado das experiências acumuladas por gerações de sua família, quitutes, além disso, tão sabiamente preparados por ele. Ainda um outro exemplo nessa linha: estava eu para embarcar para Montreal, onde realizei a parte experimental de meu doutoramento, quando Ricardo me telefona, ele em Princeton no pós-doutorado. Solicitou-me que lhe levasse cinco quilogramas de café brasileiro. Lá fui eu com o pacotão, de todos bem conhecido, e, tão logo nos encontramos, fui convidado a provar o café americano, digamos, eufemisticamente, indescritível. Com seu onipresente interesse em ajudar, me transladou do JFK para La Guardia, um auxílio inestimável.

Desse seu enorme coração, de sua paixão pelo laboratório e pelos discípulos decorrem alguns fatos interessantes. Vamos a um exemplo, e, para citá-lo, peço licença ao casal Gattass. Em tempos idos, notai bem a expressão escolhida com precisão, a Professora Cerli Gattass esperava por Ricardo para retornarem ao lar. Quase invariavelmente vinha a resposta: “Já vou” ou “Falta só um minuto” e assim afora. Difícil interromper uma tarefa, aflora a bem-vinda obsessão. Como resultado de infindáveis esperas, e demonstrando sua compreensão em relação ao caráter do esposo, Cerli passa a dirigir seu próprio automóvel. Assim, perdemos um excelente, e quase invariável, papo de fim de tarde com Cerli.

Encerro aqui, com imenso prazer em poder saudá-lo, caríssimo amigo, certo de que essa sua paixão jamais se abaterá, e nós o queremos assim, um excepcional sábio e destacado guerreiro da ciência, do ensino, da Universidade.

Walter Araujo Zin é acadêmico da ABC





Saudação do Prof. Antonio Paes de Carvalho a Ricardo Gattass
Palavras do Prof. Ricardo Gattass em agradecimento ao título de Professor Emérito