Posse dos novos Acadêmicos em 2008

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Discurso de Posse dos Novos Acadêmicos em 2008
Academia Brasileira de Ciências
Acadêmico Luiz Bevilacqua
06 de maio de 2008

- Boas Vindas aos Novos Acadêmicos -

Bem-vindos! Bem-vindos vós todos que sois hoje recebidos nesta Academia para ocupar um lugar conquistado pelo mérito de vossas contribuições ao avanço do conhecimento científico. Bem-vindos vós que, escolhidos por vossos pares, aceitais também hoje mais essa responsabilidade.

Ser membro dessa Casa não é apenas mais uma honraria na coleção de tantas que preenchem os vossos currículos. É também assumir a responsabilidade de contribuir para fortalecer a presença da Academia no processo de desenvolvimento do Brasil.

Entrar para a ABC é de certa forma ultrapassar o círculo delimitador das competências que muitas vezes vos aprisionam nos tradicionais compartimentos especializados, é aventurar-se pelos caminhos inexplorados de um mundo maior cada vez mais rico e mais complexo. É construir as matrizes da nova ciência abrindo janelas para o futuro.

E para projetar o futuro eu vos convido a considerar o passado, o passado bem distante que nos remete a 2.500 anos atrás. Foi a época da grande efervescência na construção da civilização helênica. Talvez a primeira grande tentativa do sempre sonhado reducionismo universal. De fato podemos dizer que hoje sobrevoamos em um nível mais elevado a mesma conjuntura histórica de 2.500 anos atrás. Naquela época, mais próxima de todos capazes de compreender tudo, e hoje mais perto de tudo explicado por quase nada.

De qualquer forma, as grandes conquistas do século XX, empurradas pelos extraordinários avanços na capacidade de observação tanto do micro como do macro-cosmo e na capacidade de calcular e armazenar informação, cujos limites previstos estão caindo sucessivamente ano após ano, empurrados por essas grandes conquistas fomos levados a uma situação ambígua. De fato, ao mesmo tempo em que esse extraordinário progresso só foi possível dada a grande especialização temática, ele nos mostrou que essa mesma especialização é insuficiente para prosseguir no processo de investigação dos fenômenos naturais.

E mais: os resultados dos últimos cem anos de pesquisa nos forneceram instrumentos que vêm permitindo a quebra de barreiras antes intransponíveis, se vistas dentro dos limitados poços disciplinares. Isto é, o avanço extraordinário da ciência do século passado, conseguido a custa de uma grande concentração disciplinar, nos levou a becos sem saída e ao mesmo tempo nos forneceu instrumentos que permitem encontrar novas vias.

Acontece, porém, que esses novos caminhos não são fáceis de serem trilhados, porque exigem o reconhecimento da impossibilidade de avançar com as ferramentas tradicionais, que foram muito bem sucedidas não faz muito tempo. Requerem a ampliação do campo de conhecimento. Isto representa uma dificuldade para os mais velhos, mas é um imperativo na formação dos mais jovens. O progresso daqui por diante, pelo menos por algum tempo, só poderá ser feito com a convergência de competências. Os sistemas complexos que desafiaram os sábios da civilização helênica nos últimos 500 anos antes da era cristã mais uma vez emergem a nos desafiar. E é nesse sentido que voltamos a sobrevoar a era da aurora da civilização helênica da qual somos herdeiros. Certamente a civilização já viveu momentos semelhantes, talvez a Renascença tenha sido uma época semelhante à nossa, mas a nossa era, pela universalização do conhecimento, o acesso à informação e na presteza das comunicações tem algo de muito peculiar.

Chegou a hora de sairmos dos nossos poços disciplinares e nos juntarmos no grande patamar da convergência disciplinar. Vivemos um momento extraordinariamente rico, repleto de desafios e esperanças e a nova ciência nos convida a mergulharmos em imprevisíveis aventuras neste universo infinito do conhecimento. Temos que ter a coragem e a humildade de Shrodinger que, nos anos 40, escreveu o que talvez tenha sido a primeira carta declarando a saída de seu poço disciplinar para se aventurar por novos campos. Está assim no ultimo parágrafo do prefacio do seu livro What is life?:

“(...) Mas a expansão, tanto em largura como em profundidade, dos multivariados ramos do conhecimento ocorrida nos últimos cem anos, confrontou-se com um dilema singular. Percebemos claramente que só agora nós estamos começando a colher material confiável para soldar num todo a soma integrada de tudo o que é conhecido; mas por outro lado torna-se praticamente impossível para uma única mente dominar a não ser uma pequena porção especifica desse todo. Eu não consigo ver escapatória desse dilema (exceto se o nosso verdadeiro objetivo seja perdido para sempre) a não ser que alguns de nós nos aventuremos a embarcar na síntese de fatos e teorias, a despeito do conhecimento incompleto e de segunda mão de alguns deles, e com o risco de passarmos por tolos.”

Toda essa conjuntura nos leva mais adiante a uma revisão mais profunda dos valores predominantes na nossa sociedade. A concepção integrada da ciência, este movimento que nos empurra para fora dos nossos limites de especialização, nos abre os olhos para um horizonte maior, recuperando os valores dos bens do espírito em contraposição aos bens materiais. Contrapõe a beleza do conhecer e a satisfação pelo conhecer ao utilitarismo consumista de nossos dias. Estamos, pois, prontos para recuperar hoje o espírito de Alexandria: busca desinteressada pela expansão do horizonte do conhecimento com o concurso e a convivência de todas as ciências, para fazer o todo maior que a soma das partes.

Quero vos conclamar, vós que hoje entrais para a nossa Casa como também a todos os membros da ABC, a fazer desta Academia um pólo de irradiação do verdadeiro espírito de Alexandria, para que vivendo-o possamos levá-lo às nossas universidades e institutos de pesquisa.

Além do valor intrínseco dos bens do espírito, pergunto se há alguma saída para o desenvolvimento sustentável, para preservar o que resta do nosso planeta, se a voracidade do consumismo não for retida. Creio que por mais que se busque fontes de energia para atender a demanda por mais bens materiais, não será possível evitar uma catástrofe sem que se use a forma mais eficiente de energia para preencher as aspirações humanas, aquelas mais nobres: a inteligência.

É preciso mais ousadia. Que os riscos que se corre ao embarcar em novos paradigmas não sejam obstáculos para uma nova aventura. O que seria da ciência sem riscos e sem aventuras? Há de haver pescadores de águas turvas? Sim, mas sempre os houve. Muitos ficarão perdidos no patamar das superficialidades? Sim , que não a tomem como meta. Creiam, porém que a maioria perseverante e apaixonada pelo conhecimento encontrará terreno adequado para a abertura de novos poços disciplinares que recomeçarão o ciclo do novo sobrevôo do conhecimento científico em altitudes cada vez maiores.

As dúvidas que se levantam quanto a interdisciplinaridade, na realidade só fazem sentido quando se referem ao mau uso que se faz dessa palavra. Mas a solução não é desqualificar essa tendência, mas evitar o aparecimento de artificialidades multidisciplinares.

E aqui, senhor presidente dessa Casa, lanço um desafio para consideração dessa Diretoria. Como legítima Casa da Ciência, porque não derrubar as barreiras que nos dividem em compartimentos estanques? Porque não começar aqui a recuperação do espírito de Alexandria? Pergunto: se Shrodinger fosse proposto para a ABC, em que capítulo seria ‘enquadrado’? Porque não simplesmente ‘Acadêmico’? Onde melhor se enquadram muitos de nós? Quantos cientistas da mais alta qualificação estão fora dos nossos quadros muitas vezes por não se encaixarem nas clássicas divisões? Fica a sugestão.

Ao lado das extraordinárias riquezas proporcionadas pela ebulição das descobertas cientificas, vivemos também uma época de contradições provocadas pelas mesmas conquistas. A um tempo a voz de vários cientistas se levanta a proclamar a necessidade de uma profunda revisão na atual cristalização das barreiras entre os diversos ramos da ciência, mas nesse mesmo tempo o quase indestrutível conservadorismo das instituições acadêmicas opõe-se a qualquer tentativa de progresso. Aqui e em qualquer lugar do mundo a nova ciência tem enorme dificuldade de prosperar em instituições bem estabelecidas. Criam-se então centros de pesquisa, institutos interdisciplinares e coisas semelhantes, para abrigar os imigrantes dos poços disciplinares.

A Alemanha, por exemplo, criou um programa de apoio a centros de excelência, uma espécie de instituto do milênio, que apóia a integração de universidades com institutos de pesquisa das redes Max-Planck, Frauenhoff ou semelhantes. O apoio está condicionado a certas iniciativas que claramente incluem a implementação de pesquisa interdisciplinar, fugindo da rígida estrutura dos clássicos e inflexíveis Institutos das universidades alemãs. Nos Estados Unidos, a criação de Institutos e centros de pesquisa dentro das universidades de maior prestígio, independentes dos departamentos e reunindo professores com interesses científicos convergentes, cresce aceleradamente.

Alem disso, a preocupação de uma formação acadêmica que ofereça aos novos estudantes a oportunidade de se envolverem desde cedo com uma nova ciência também enfrenta grandes dificuldades. Mas para nossa satisfação e para a confirmação de que o enraizamento no conservadorismo extremado é insustentável a longo prazo, várias iniciativas vêm ocupando lugar importante no sistema universitário em todo o mundo.

A ABC tem promovido encontros e produzido textos que se alinham com essas novas propostas. Aliás, um desses textos sobre a reforma universitária tem servido de inspiração para a elaboração de novos projetos acadêmicos nas universidades brasileiras. Ao lado dessas iniciativas em execução aqui, outras propostas se apresentam em vários lugares do mundo. Seja o processo de Bologna na Comunidade Européia, sejam iniciativas particulares em universidades norte-americanas.

As idéias subjacentes a esses projetos são todos semelhantes. Todos acentuam a necessidade de contornar a estrutura departamental, a necessidade de rever a organização dos temas científicos nos conteúdos das disciplinas, promovendo de alguma forma a integração dos conhecimentos, antes apresentados como estanques em disciplinas diferentes. Todos estimulam a maior participação ativa dos alunos no processo de aprendizado, exortando o exercício da criatividade e estimulando a independência intelectual. Direta ou indiretamente valoriza-se a educação por ser mais uma porta para a liberdade do que para o exercício de uma profissão.

Aqui vai como exemplo o conceito explicitado pela Universidade de Harvard em maio de 2007: “Uma educação ‘harvardiana’ é uma educação liberal - isto é, uma educação conduzida segundo o espírito do livre questionamento, assumida sem nenhuma preocupação por relevâncias temáticas ou utilidade vocacional. Este tipo de aprendizado não é apenas uma das riquezas da vida; é uma das conquistas da civilização”.

Estes são conceitos muito próximos à concisa declaração do Presidente Lula feita perante o Congresso Nacional em janeiro de 2007: “Mais do que formar para o trabalho a educação deve ser, sobretudo, libertadora. Um país cresce quando absorve conhecimento, mas só é forte se for capaz de gerar conhecimento”.

Não cabe aqui alongar-me sobre os pormenores desses projetos. Cabe sim dizer que, o que foi proposto no Brasil em 2005 por um comitê de cerca de 30 engenheiros e cientistas a partir de um documento gerado nesta Casa, o que foi publicado pela Universidade de Harvard em maio de 2007 e o que recentemente foi apresentado pela Universidade de Princeton tem grandes semelhanças. Esperemos que as propostas desenvolvidas aqui sejam devidamente valorizadas, ainda que seja pelo respeito a essas 30 pessoas que se debruçaram durante cerca de seis meses para elaborar a estrutura fundamental de uma universidade para o século XXI. Esperemos que sejamos capazes de reconhecer o nosso próprio valor e de desenvolver a auto-estima que muito nos faz falta.

Está na hora de sairmos da esteira deixada pelos países mais desenvolvidos e de nos pautarmos pelas nossas próprias soluções. A condição de subordinação à chancela do exterior como se nós não soubéssemos o que bom e o que é mau é um suicídio cultural. Chamo a atenção sobre esse ponto porque já ouvi sugestões de se adotar a proposta de Princeton, quando se tem uma aqui à mão em certos aspectos até superior à de Princeton.

As Agências nacionais de desenvolvimento, Finep, CNPq, Capes e as outras estaduais, bem como os ministérios, particularmente o MEC e o MCT, podem contribuir sobremaneira para a consolidação da autoconfiança nacional. Estimular, por exemplo, a promoção do maior intercâmbio entre instituições brasileiras é indispensável, afirmar a valorização da produção científica e tecnológica gerada no país é essencial.

Mas para que a administração pública possa exercer suas funções, é necessário que a nossa contribuição mais original seja dirigida para as nossas melhores revistas, o que é elemento crítico na consolidação da contribuição brasileira no contexto internacional. A internacionalização da educação está em marcha, não podemos ser atropelados. Entre outras ações, gostaria de insistir em que todos os que estejam envolvidos em temas interdisciplinares publiquem nos Anais da ABC e façam dos Anais uma fonte significativa de demonstração da riqueza da convergência disciplinar. É preciso prestigiar mais a nossa publicação mais importante e fazer dela o foco das nossas melhores contribuições. Se nos não a valorizarmos, quem o fará?

Bem-vindos à comunidade que busca o desenvolvimento de novos temas, de novos poços de conhecimento, que já começam a se aprofundar a partir do patamar da interdisciplinaridade. Bem-vindos à era dos sistemas complexos, do equilíbrio instável dos sistemas ecológicos, da capacidade de adaptação de certas espécies, da misteriosa matéria escura e da mais intrigante energia escura que nos mantêm sobreviventes neste cosmo maravilhoso, bem vindos à modelagem matemática e computacional, à simulação e à representação; bem vindos à era da exploração dos processos cognitivos que especula para alem do conhecimento racional, bem-vindos as hipóteses de universos paralelos.

Bem-vindos a Academia Brasileira de Ciências.

 



Discurso do Presidente do CNPq, Acadêmico Marco Antonio Zago
Discurso do Presidente da Fundação Conrado Wessel, Américo Fialdini Junior
Discurso do Agraciado com Prêmio Alm. Álvaro Alberto, Acadêmico Sérgio Henrique Ferreira
Saudação aos Acadêmicos, pelo Acadêmico Luiz Bevilacqua
Discurso dos recém-empossados, pela Acadêmica Vera Lúcia da Silva Valente Gaiesky
Discurso do Presidente da ABC, Acadêmico Jacob Palis