Posse dos novos Acadêmicos em 2007

Arquivos
 

Discurso de Posse dos Novos Acadêmicos em 2007
Academia Brasileira de Ciências
Acadêmico Glaucius Oliva
30 de maio de 2007

- Discurso dos recém-empossados -

· Excelentíssimo Senhor Ministro da Ciência e Tecnologia, Acadêmico Sérgio Machado Rezende, em nome de quem saúdo a todos os representantes do Poder Executivo da República e do Estado, bem como das agências de fomento aqui presentes.

· Excelentíssimo Senhor Presidente da Academia Brasileira de Ciências, Prof. Jacob Pallis, a quem cumprimento pela sua recente eleição para a presidência desta Casa e a quem agradeço pelo honroso convite para falar em nome dos Novos Membros eleitos para a ABC. Em seu nome saúdo também a todas as autoridades acadêmicas e universitárias que hoje nos honram com sua presença,

· Caríssima Profa. Belita Koiler, a quem agradeço, em nome de meus colegas neoacadêmicos, pelas inspiradoras palavras de boasvindas à Academia.

· Caros familiares e amigos que hoje abrilhantam este momento de grande emoção e responsabilidade para todos nós.

· Caros colegas novos acadêmicos.

Vivemos em um país em desenvolvimento, carente, entre outras coisas, de instituições e referências nas quais se fundamentem os pilares da nação. Neste contexto, destaca-se a Academia Brasileira de Ciências, a qual, desde sua fundação em 1916, tem exercido proeminente papel no cenário científico nacional. Congregando, em toda a sua história, as maiores lideranças científicas do país, a Academia tem exercido com maestria sua missão de promover a Ciência brasileira com paradigmas de excelência e de contribuir decisivamente para o desenvolvimento econômico e social do país pela proposição de políticas de Estado, tanto na área da Ciência, Tecnologia e Inovação, como em outros temas nos quais as análises baseadas na Ciência são essenciais.

É indissociável a relação entre o nascimento e crescimento da Ciência Brasileira e esta Academia. Nela foi gerada a principal publicação científica nacional no século passado, a Revista da Sociedade Brasileira de Ciências, depois Anais da Academia Brasileira de Ciências; foi também pelas mãos de vários acadêmicos que nascem as principais instituições universitárias brasileiras, como a Universidade do Rio de Janeiro e a Universidade de São Paulo, com forte impacto na difusão da educação e da pesquisa científica no Brasil; como imaginar a Ciência brasileira sem o CNPq, a CAPES, a FINEP e mesmo um Ministério específico para a área, todos estabelecidos com o apoio essencial da ABC; a criação de outras instituições como o CBPF, o INPA, a CNEN e o INPE tiveram também forte influência da Academia, como instrumentos da consolidação da Ciência no nosso país.

À luz de toda esta história, ter sido eleitos como Novos Membros da Academia Brasileira de Ciências, em processo cada vez mais competitivo, é, portanto, uma honra maior para todos nós, e que nos traz também grande responsabilidade na contribuição para o avanço das suas atividades.

Vivemos um momento histórico complexo e com grandes desafios para a sociedade brasileira e para o nosso planeta, e a nossa Academia, tem exercido sua missão institucional de engajar-se na buscas de saídas para as crises atuais. Nos seus primeiros 91 anos de vida a jovem Academia Brasileira de Ciências tem demonstrado o quanto a educação superior de qualidade, a pesquisa, a inovação tecnológica e a capacidade empreendedora podem construir. O crescimento da riqueza e a pujança alcançados pelo Brasil neste mesmo período de existência da Academia são uma prova disso. No entanto, os desafios à frente são ainda monumentais. Temos, no Brasil, sido capazes de gerar riqueza e bem-estar, porém para uma fração ainda pequena da sociedade brasileira. Temos uma imensa dívida social, com uma fatia significativa da população nacional ainda condenada à miséria. Temas como desemprego, educação para todos, acesso á saúde e medicamentos, segurança, habitação, alimentação, desenvolvimento sustentável e preservação do meio ambiente constituem hoje grandes dívidas da nação. Temos que continuar a mostrar que o crescimento econômico e social do Brasil passa necessariamente pelo desenvolvimento e disseminação ampla da Ciência, da tecnologia e da inovação.

Por outro lado, as instituições de pesquisa e mesmo os cientistas brasileiros estão sob fortes ameaças provenientes de diferentes áreas: o obscurantismo que quer proibir qualquer tipo de experimentação científica com animais de laboratório; a legislação imobilizadora que praticamente impede qualquer atividade de pesquisa científica ou tecnológica envolvendo nossa biodiversidade; a incompreensível politização no âmbito da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança, na discussão sobre as pesquisas e aplicações biotecnológicas dos organismos geneticamente modificados, inclusive com ameaças morais, físicas e jurídicas a nossos colegas cientistas, muitos deles também acadêmicos, hoje membros da CTNBio; as pressões exercidas por alguns setores religiosos sobre as pesquisas com células tronco embrionárias, mesmo após sua regulamentação na Lei de Biossegurança, são alguns exemplos das ameaças obscurantistas à racionalidade científica que estão sistematicamente sendo promovidas por alguns setores da sociedade, muitas vezes com interesses econômicos excusos. Não menos negativas são as constantes ingerências e crescente pressão de agentes externos às Universidades e institutos de pesquisa, criando imposições que conflitam diretamente com a excelência acadêmica pela violação da autonomia universitária, tema hoje candente em minha própria Universidade.

Entendo que temos que cada vez mais nos unir e cerrar as fileiras contra estes ataques e a melhor forma de fazê-lo é aproximarmo-nos cada vez mais da sociedade e do povo brasileiro, demonstrando o quanto a Ciência e a Tecnologia são importantes para todos nós. Isso passa, necessariamente, pela conscientização de toda a comunidade acadêmica, de que a Ciência Brasileira tem um compromisso fundamental e essencial com a sociedade que nos paga.

Neste sentido, a Academia Brasileira de Ciências não apenas segue, mas lidera, com a promoção e divulgação de estudos fundamentados nas evidências dos fatos e nas análises científicas que sustentam o estabelecimento esclarecido de Políticas de Estado.

Compreendemos que embora institucionalmente destinada à sua missão precípua de promover a Ciência de excelência, a Academia atua também como agente promotor da educação geral da sociedade, um direito essencial do cidadão e que se constitui no principal vetor de inclusão social e redução de desigualdades, permitindo identificar os nossos melhores talentos, indistinguívelmente de sua história social e econômica.

Entendemos que a responsabilidade sobre a maior compreensão pública em relação à C&T cabe à nós mesmos, da comunidade científica, que temos demonstrado pouca capacidade em conquistar o apoio da sociedade para a convicção de que sem conhecimento não haverá crescimento econômico e social. O antigo contrato social entre Ciência e Sociedade, que operou com alguma eficiência no século 20, baseou-se numa relação de total confiança por parte da sociedade naquilo que os cientistas realizassem. No entanto, este panorama tem mudado, particularmente nas últimas décadas. Cada vez mais espera-se uma adequada prestação de contas à sociedade, quanto às realizações e progressos em ensino, pesquisa e extensão. Nós professores e pesquisadores temos que, cada vez mais, de forma equilibrada e balanceada, adotar programas de pesquisa dirigidos à solução dos grandes problemas nacionais. E é com grande orgulho que hoje vemos vários colegas acadêmicos realizando excepcional trabalho à frente das principais instituições de gestão e apoio da Ciência e Tecnologia Brasileira, como o Ministério de Ciência e Tecnologia, o CNPq, a FINEP, a CAPES e as várias FAPs estaduais. Estas instituições tem encontrado o equilibrio no atendimento das demandas qualificadas de projetos individuais de pesquisa, assim respondendo pela manutenção da ciência básica nas universidades e institutos de pesquisa, bem como no aproveitamento do momento favorável de financiamento para a área de Ciência e Tecnologia, para assim catapultar o avanço na pesquisa voltada às prioridades nacionais tecnológicas, econômicas e sociais, através de programas dirigidos. Somente a Ciência pode encontrar as respostas para os grandes desafios nacionais e mundiais do século XXI, como o controle das mudanças climáticas resultantes da ação do homem sobre o meio ambiente; a necessidade de utilização de fontes renováveis e sustentáveis de energia e alimentos para atender, com igualdade de condições, a demanda de consumo pela crescente população mundial; o atendimento das necessidades de saúde básica e o avanço nos recursos para o tratamento das doenças; a universalização da educação como principal instrumento de igualdade social e segurança; a preservação da competitividade do Brasil na economia mundial pela adequada apropriação do conhecimento gerado, através da inovação tecnológica. Assim, o novo contrato social entre Ciência e Sociedade, pressupõe um conhecimento que eu chamaria de “socialmente robusto”. Não basta ser confiável, sob a óptica convencional científica. É necessário também ser sensível a um espectro mais amplo de implicações sociais. Assim, temos que incessantemente buscar acertar o foco.

Além disso, precisamos cuidadosamente nos preocupar com o desenvolvimento de mecanismos que permitam uma maior comunicação entre a Ciência e a Sociedade. Em particular, tenho a convicção que uma parte essencial da atividade científica é sua clara exposição para a sociedade como um todo, através de uma intensa e constante interface educativa, em todos os níveis, que permitam a permeabilidade dos novos conhecimentos e tecnologias de forma natural e permanente. Precisamos estreitar os laços entre os que fazem ciência e os que consomem ciência, mesmo sem o saber. Não há mais espaço para a arrogância dos detentores do conhecimento e da informação, que por tal circunstância se auto-atribuem poderes ilimitados em decisões e ações que podem afetar a sociedade como um todo. E também não há mais espaço para a repressão irracional e obscurantista sobre a Ciência, que pode prejudicar progressos e benefícios tremendos para a humanidade. É preciso encontrar um campo comum, em que conhecimento, informação, educação e ética sejam um patrimônio geral da sociedade.

Nós, Novos Membros eleitos, sentimo-nos privilegiados pela oportunidade de contribuir com a nossa Academia e com a nossa Ciência exercida no cotidiano de nossos laboratórios de pesquisa, sempre com o compromisso de dedicação incondicional ao progresso de nosso Pais.

Gostaria também de dedicar algumas palavras a cada um de nossos familares e amigos hoje aqui presentes, com a certeza indelével de que aqui não estaríamos se não fosse pelo apoio e estímulo constante de todos vocês, a quem, em nome de todos os novos acadêmicos, agradeço profundamente.

Muito obrigado a todos.

 



Discurso da Acadêmica Belita Koiller
Discurso do Acadêmico Jacob Palis