|
|
||
|
|
||
| Posse dos novos Acadêmicos em 2006 | ||
|
|
||
| Arquivos | ||
| Discurso de Posse dos Novos Acadêmicos em 2006 - Discurso dos recém-empossados - Acadêmico Sergio Machado Rezende, Ministro da Ciência e Tecnologia, a quem me dirijo para cumprimentar as autoridades presentes; Acadêmico Eduardo Moacyr Krieger, Presidente da ABC, a quem me dirijo para cumprimentar os membros da Diretoria; Acdêmico Maurício Matos Peixoto, que nos brindou com uma saudação que já está gravada, indelevelmente, em nossas mentes, a quem me dirijo para cumprimentar os demais membros da Academia; Familiares e amigos que aqui compareceram para agregar brilho a este evento: Todos sabemos o que esta cerimônia significa e conhecemos o valor da herança de que nós, os novos Acadêmicos, passamos a compartilhar. Sou, assim, cordialmente grato ao Prof. Krieger pelo convite para falar em nome de um grupo de cientistas cujo brilho ofusca meu currículo. Minha satisfação diante da honra que me foi dada seria plena, se não faltasse aqui um grande Acadêmico com quem tive a felicidade de conviver: o Prof. Antonio Cechelli de Mattos Paiva, já mencionada por nosso Presidente. A memória do Dr. Paiva, de sua existência movida pelos ideais que nos reúnem e, em particular, sua insistência em descartar análises superficiais, me faz deixar de lado a imagem corriqueira da Academia como templo do saber para examinar uma metáfora mais fiel às suas realizações. Peço aos meus colegas recém-empossados que visualizem uma rodovia de mão única, cujos marcos quilométricos são expressos em décadas, porque ela conduz o País do passado para o futuro. A essa estrada, convencionou chamar-se ABC. Antes de nos juntarmos ao tráfego que por ela flui, manda a prudência olhá-la com atenção. Olhemos, pois. Bem distante à esquerda, onde a estrada nasce do horizonte, estão as figuras dos fundadores: Oswaldo Cruz e tantos outros. À frente deles está o primeiro Presidente da Academia, Henrique Morize, o Diretor do Observatório Nacional que lecionava Meteorologia e Física e, nessa época, já criara o primeiro centro radiológico brasileiro e realizara os estudos técnicos que fundamentaram a implantação dos fusos horários no Brasil. Por meio desse engenheiro visionário, temos registro dos ideais que construíram a Academia. No primeiro aniversário da fundação, um discurso de Morize traçou duas grandes linhas de ação. Uma dessas linhas procurava constituir um sistema nacional de pesquisa. "Reputo da maior importância", disse ele, "que esses trabalhos sejam originais, embora saiba que a muitas pessoas, modestas em demasia, pareça difícil a consecução desse desiderato". A segunda linha procurava defender a Ciência perante a sociedade. Naqueles dias, assim como hoje, os brasileiros apreciavam o futebol-arte, mas queriam Ciência de resultados. Morize saiu, então, em defesa da Ciência básica. Dois anos mais tarde, para adicionar uma demonstração prática ao que dizia, ele contribuiu decisivamente para o sucesso da experiência conhecida como "o duelo entre Newton e Einstein" -- e aqui veremos que, também nesse contexto, Lagrange não estava inteiramente certo --, que merece uma digressão. Em desacordo com a gravitação newtoniana, a Teoria Geral da Relatividade prevê que, se as estrelas em torno do disco solar na esfera celeste pudessem ser vistas, pareceriam deslocadas de 2' de arco no céu, porque o campo gravitacional do Sol desviaria a luz que delas provém. Até 1918, várias tentativas de se fotografarem tais estrelas nos minutos em que a Lua esconde o Sol durante eclipses totais haviam resultado em uma dezena de astrofísicos frustrados e fotos imprestáveis. Foi então que Morize identificou Sobral, no Ceará, como o lugar ideal para observação do eclipse que ocorreria em 29 de maio de 1919. Logo depois, uma equipe britânica resolveu aceitar a sugestão e tentar medir o desvio. Morize chefiou o grupo brasileiro que se dirigiu a Sobral para estudar o eclipse e exerceu liderança para conseguir apoio da população local. O sucesso da medida foi notícia no mundo todo. O Times noticiou que "caiu por terra teoria britânica bicentenária". A manchete do New York Times foi mais específica: "As estrelas não estão onde se calculava que estivessem, mas não há motivo para alarme." Em 1920, com a publicação do artigo científico relatando a medida, sem agradecimento ao brasileiro, parecia encerrado esse capítulo da História da Ciência, e Morize se dedicou a outro projeto: em 1923, ele transformou sua paixão pelas ondas eletromagnéticas na primeira emissora brasileira, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro. Dois anos mais tarde, no entanto, Albert Einstein prestou-lhe uma homenagem. Quando veio ao Rio para ser empossado como primeiro membro correspondente da Academia Brasileira de Ciências, o físico alemão cunhou uma frase que, em 14 palavras, descreve a experiência, seu resultado e a contribuição de Morize: "The problem conceived by my head, the luminous sky of Brazil had to solve". Henrique Morize já tinha 22 anos quando Joseph Schumpeter nasceu e é improvável que a obra do economista austríaco o tenha influenciado. Não obstante, sua biografia projeta no mundo acadêmico a imagem schumpeteriana do empreendor que transforma a sociedade. Embalada pelo impulso que ele lhe deu, a Academia avançou durante décadas ao longo das duas diretrizes delineadas por seus fundadores. Esse trabalho somou-se aos fatores políticos, sociais e econômicos que influenciaram o desenvolvimento da Ciência brasileira. Em que pesem tais fatores, tão estreita é a relação entre as Histórias da Academia e da Ciência brasileira que a evolução desta permite avaliar o sucesso daquela. Sob essa óptica, percebe-se descompasso entre os avanços ao longo das duas diretrizes. Aprimorou-se muito mais o sistema de pesquisa do que seu relacionamento com a sociedade. Um marciano que comparasse as preocupações de hoje com o apelo feito aos cientistas em 1917 saberia de pronto que o sistema se fortaleceu desmedidamente. No eixo do relacionamento com a sociedade, porém, o progresso é menos palpável. Encontramos aqui rotas que atravessam a estrada da Academia na contra-mão. Como ilustração, o episódio do Movimento das Mulheres Camponesas, que confundiu conspurcação com glória ao escolher o 8 de março para destruir um laboratório de pesquisa seria suficiente. Não podemos esquecer, porém, das outras forças aberta ou veladamente organizadas para flexionar o bom senso até perto do limite da ruptura. Exemplos são as que emperram sistematicamente a aprovação de projetos pela CTNBio; as que criam neologismos para impedir a liberação dos Fundos Setoriais; as que cerceiam o trânsito de instrumentos e objetos de estudo pelos aeroportos; e, mais danosas, as que adornam prioridades como Educação e Inovação com tal número de particularidades e vínculos que as fazem soçobrar. Não quer dizer que tenhamos retrocedido. Na República Velha, as dificuldades que mencionei nem poderiam ser articuladas. Alguns dos problemas mais recentes só despontam agora porque contrastam com um sistema de fomento robusto e que começa a se capilarizar. (Tendo acompanhado de perto o trabalho de Flávio Fava de Morais e de José Fernando Perez na FAPESP, sei quantos litros de suor são consumidos por palmo de progresso nessa direção.) Não menos importante no terreno de relacionamento com o grande público, o interesse do cidadão comum pela Ciência cresceu substancialmente nas últimas décadas; prova disso é a tiragem das revistas de divulgação. E a presença de um acadêmico -- um Acadêmico também schumpeteriano -- à frente do Ministério de Ciência e Tecnologia dá testemunho de que, embora menos que a capacitação do sistema de pesquisa, o relacionamento com a sociedade evoluiu. Voltemos agora nossa atenção para o outro lado, o do futuro. Aqui, a estrada ainda está em construção e, para que ela conduza a algum destino, é necessário acordo sobre o País que queremos. A Academia tem contribuído, mais do que qualquer outra instituição, para a construção de um tal consenso. Os debates aqui ocorridos nestes dois dias são somente uma minúscula parcela desse trabalho, graças ao qual já dispomos de uma visão de médio prazo para o futuro que desejamos. Nessa visão, um competente setor acadêmico abre novas avenidas científicas ao resolver cooperativamente grandes problemas transdisciplinares estrategicamente escolhidos. Laboratórios de pesquisa ligados a empresas subcontratam parte desse trabalho e se beneficiam da cultura gerada pela pesquisa científica; paralelamente, eles aproveitam as oportunidades e desafios criados pelo crescimento do comércio internacional para fortalecer sua capacidade de inovar. Mais adiante ainda, onde a estrada da Academia volta a mergulhar no horizonte, a visão é mais nebulosa. Da neblina sobressai um País que, embora ainda em desenvolvimento, já alcançou patamar invejado por outros povos, porque sua população é homogeneamente educada. Ainda que desconheçamos o número de décadas que nos separa desse Brasil, no qual os sistemas de quotas e de enviesamento de notas do vestibular são relíquias que nem aos museus interessam; no qual os sites de venda na internet não dão conta dos pedidos de livros; no qual os aposentados discutem a Revolução Francesa com seus netos; e no qual as noites de autógrafo congestionam o trânsito -- ainda que desconheçamos o número de décadas que nos separa desse Brasil, eu dizia, sabemos o caminho que conduz a ele. Convido, pois, meus colegas a fincar pé na estrada.
|
||