Posse dos novos Acadêmicos em 2005

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Discurso de Posse dos Novos Acadêmicos em 2004
Academia Brasileira de Ciências
Acadêmico Evando Mirra de Paula e Silva
08 de junho de 2005

-Discurso em nome dos recém empossados -

Agradeço, sensibilizado, o convite para assumir a palavra em nome daqueles que são hoje recebidos pela Academia, nessa bela cerimônia que sustenta um dos segredos da vitalidade desta Instituição: a reafirmação da sua continuidade, celebrada no ritual da sua renovação.

Fomos eleitos pela Academia. Sabemos o valor deste voto. Sabemos também a responsabilidade que ele implica. Conhecemos a missão civilizadora da Academia, seu papel determinante na implantação e na sustentação do empreendimento científico nas culturas.

Seria assim imensa, em qualquer época, a honra que sentiríamos ao sermos acolhidos nesta Casa.

Mas a alegria e o entusiasmo se multiplicam neste momento em que se cruzam um processo de amadurecimento da ciência brasileira, talvez sem precedentes, e uma recriação do papel da Academia, que afirma a sua capacidade inovadora e seu poder de articulação, tanto na institucionalização da competência científica, quanto na inserção do país no plano internacional.

A prática científica, superando todos os obstáculos, vai se consolidando entre nós.

Mais do que os números, que conhecemos, indicadores de crescimento da produção científica e tecnológica nas nossas Universidades, nos nossos institutos, é a sua realidade palpável, nos seus processos e nos seus produtos, no diálogo que se amplia a cada dia com segmentos mais amplos da sociedade, na presença dos pesquisadores brasileiros nos organismos internacionais, no espaço político que ganha hoje a ciência brasileira, é esta existência tangível que ganha corpo entre nós.

É justo dizer que, no espaço internacional da pesquisa, deixamos de ser aqueles seres improváveis, um pouco mais do que figurantes, um pouco menos do que personagens.

Estamos ingressando de pleno direito no quadro daqueles que, na escala planetária, aportam sua parcela à construção do acervo de conhecimento.

Mas sabemos também o quanto são vulneráveis essas conquistas, o quanto devem ser permanentemente confirmadas e, mais ainda, o quanto estamos distantes do que queremos ser, do que podemos ser, do que devemos ser.

É nesta agenda de transformação que se inscreve o papel singular da Academia, com o peso de sua autoridade, sua função de referência, seu lugar privilegiado no encontro da ciência com a nação e na projeção da nação entre as nações.

O Seminário da Academia, realizado nestes dois dias, já explicitou - sintomaticamente - boa parte desta agenda.

Dentre suas tarefas mais centrais eu insistiria na necessidade imperiosa de acelerar nossa capacidade de transformar informação em conhecimento, transformar conhecimento em compromisso e mobilizar toda esta aventura humana para o crescimento sustentável, para a geração de riqueza, para uma sociedade mais igualitária, para uma vida mais digna e muito mais interessante.

Sabemos que não é uma utopia ociosa, pois já demonstramos que somos capazes de fazê-lo. Mas é preciso superar a pequena escala, ir além do efeito local, da dispersão em ilhas, do gesto heróico que ainda o configura. É preciso expandir a cultura de inovação.

É preciso compreender melhor aquilo que já está acontecendo, para transformá-lo, com todas as divergências e os saudáveis desencontros, em um tumultuado e convergente mutirão de todos.

Insisto nas virtudes do diverso e do contraditório. Exercitados, pela prática da pesquisa, na dúvida metódica e nas artes da contestação; temperados, pelo trabalho em condições freqüentemente incertas, nas artes da superação dos obstáculos, estamos plenamente capacitados para enfrentar a construção na controvérsia.

Navegadores da bruma e da incerteza, temos lastro para levar a cabo a aposta radical no risco, na inteligência e no conhecimento.

E insisto também na virtude integradora desse movimento, que percorre todos os recantos da malha do saber, que exige freqüentação ativa das fronteiras do conhecimento, proficiência nas técnicas e desenvoltura nas aplicações.

Que exige o diálogo entre disciplinas e, além das disciplinas, o olhar indagador e atento para o mundo em que nos encontramos. E é necessário que este movimento se propague além dos contornos das comunidades de pesquisa, dos ambientes de produção, que implique um processo coletivo de aprendizado, que diga respeita a toda a cidadania.

É nesta agenda que nos engajamos, nós, novos membros da Academia, convidados a participar deste ambiente estimulante e oferecer o nosso esforço nesse embate desafiador.

Viemos de horizontes distintos, das Ciências Matemáticas, Físicas e Químicas; das Ciências da Terra, da Engenharia, da Saúde; das Ciências Biológicas, Biomédicas; das Humanas, das Agrárias; do país e do Exterior. Mas, aqui, as diferenças aproximam.

E é nessa vontade múltipla e convergente que este mosaico de trajetórias e de posturas intelectuais se coloca à disposição do empreendimento comum.

Este é para nós um momento de festa e um momento de agradecimento.

Agradecemos àqueles que nos acolhem pela distinção que nos fazem e pela generosidade com que o fazem.

Agradecemos àqueles com quem construímos nosso itinerário científico e compartilhamos nossos sonhos: nossos mestres, nossos colegas, nossos alunos, as instituições por que passamos.

E agradecemos carinhosamente às nossas famílias a extensão humana e o valor do afeto que nos trouxeram até aqui.

Atribui-se às vezes um significado emblemático às datas. Se assim for, nosso ingresso na Academia se faz sob bons auspícios. Porque o 8 de junho é dia rico em evocações para as histórias de ciência, tecnologia e inovação.

Podemos lembrar, de início, uma saborosa inovação que aniversaria hoje.

A invenção que lhe deu origem é muito mais antiga, mas a inovação (no sentido próprio de novo processo ou produto levado ao mercado, melhor ainda, conhecimento levado ao mercado, introdução de uma tecnologia na prática social), é mais recente.

Hoje aniversaria o sorvete... Sua apresentação pública ruidosa se deu no Café Procope, em Paris. E, nas Américas, o sorvete seria democraticamente oferecido ao público pela primeira vez, em Nova York, em 8 de junho de 1786...

Mas foi também em 8 de junho, em 1637, que Descartes publicou o Discours de la Méthode, o Discurso sobre o Método, o texto fundador que conhecemos.

Descartes, menos cartesiano do que seus paladinos, teve a grandeza de nos ensinar tanto pela fulguração do gênio quanto pela generosidade de seus erros.

E nos legou a dúvida metódica e o eixo emotivo e intelectual da reflexão que marcaram tão profundamente o espaço mental do novo tempo.

E, mais próximo de nós, em 8 de junho de 1992, foi criada a Comissão das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, nesta cidade do RJ, uma das mais importantes conquistas da Cúpula da Terra, processo no qual a Academia Brasileira de Ciências teve participação fundamental, e em cujos desdobramentos continua a ter participação fundamental.

Estes três acontecimentos singulares e díspares, uma inovação que suaviza nossas vidas, uma reflexão que procura os caminhos da verdade e um evento emblemático do lugar do cientista nas lutas do seu tempo, nós os percebemos como sinais do ânimo que nos inspira e do compromisso que reafirmamos aqui, em nosso ingresso na Academia.

Muito obrigado.

(Fonte: JC e-mail 2785, de 09 de Junho de 2005)



Discurso do Presidente da ABC, Acadêmico Eduardo Moacyr Krieger
Discurso do Acadêmico Adalberto Fazzio
Discurso do Ministro de Estado da Ciência e Tecnologia, Eduardo Campos