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| Posse dos novos Acadêmicos em 2002 | ||
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Academia
Brasileira de Ciências A cerimônia anual de posse dos novos membros é sempre o grande momento da Academia Brasileira de Ciências. É o ritual, simples mas significativo, no qual ela cumpre uma de suas funções maiores: reconhecer o mérito, premiar a qualidade e servir de referencial de excelência da Ciência Brasileira. Não tendo quadros fixos, o número de acadêmicos eleitos anualmente depende da qualidade dos candidatos e da produtividade de cada uma das dez áreas que compôem a Academia, hoje abrangendo a totalidade do saber. Os candidatos, previamente avaliados nas respectivas áreas, só vão à votação geral após a aprovação feita pela Comissão de Seleção que propõe à Diretoria o número de vagas a serem disputadas, exigindo-se, e essa é a regra áurea da Academia, que haja pelo menos dois candidatos qualificados para concorrer a cada uma das vagas. É, pois, uma eleição baseada exclusivamente no reconhecimento do mérito científico que hoje traz os novos acadêmicos a esta Casa. Diferentemente de outras profissões que têm nos valores pecuniários boa fonte de estímulo e retribuição, para o cientista o importante são os prêmios e títulos, o reconhecimento do seu trabalho proclamado pelos pares e pelas entidades cientificamente respeitáveis como é o caso da Academia Brasileira de Ciências. Ela hoje cumpre essa função, e de forma festiva, ao dar posse aos novos acadêmicos. A eles renovamos os cumprimentos e a saudação feita pelo Acadêmico César Timo Iaria em nome da Academia.
No ano transcorrido desde a última posse, a Academia trabalhou com afinco no cumprimento de sua missão principal que é a de promover a Ciência no País. Também participamos de vários programas internacionais que estão sendo desenvolvidos em conjunto com as Academias de Ciências de numerosos países. Acentuou-se na última década entre os cientistas do mundo a conscientização de que a Ciência, e os produtos dela derivados, devem ser mais eqüitativamente partilhados em benefício de toda a humanidade, e não só para os que vivem nos poucos países industrializados. Cresceu, também, a preocupação de enfrentar ativamente os principais desafios para a transição da sustentabilidade do século 21 definidos na Conferência de Tóquio: erradicar a fome a pobreza, mitigar as alterações climáticas, a deterioração ambiental e as desigualdades econômicas. Aumentou, também, a responsabilidade da comunidade científica em fornecer dados da melhor ciência para que os governos e as sociedades decidam corretamente sobre os programas de Ciência, Tecnologia e Inovação, fundamentais para o desenvolvimento sócio-econômico. Igualmente, para que se pondere com maior acerto a aplicação dos novos conhecimentos, geralmente com enormes repercussões sobre a qualidade de vida do homem e sobre a natureza que o cerca. O uso da genômica, a degradação ambiental pondo em risco a vida atual e futura em nosso planeta, a criação de fontes limpas de energia, a disponibilidade de alimentação e água para os que vivem em regiões menos favorecidas, o conhecimento mínimo que deve ter qualquer cidadão para acompanhar o impacto das novas descobertas e usar as novas tecnologias, são alguns dos temas tratados pelos cientistas tanto em nível nacional como também no âmbito internacional. Foi essa a principal razão que incentivou a integração de oitenta e quatro academias de ciências do mundo que hoje contituem o Inter-Academy Panel for International Issues, com a Presidência compartilhada pela França e pelo Brasil e com a secretaria junto à Academia de Terceiro Mundo em Trieste. Nossa Academia também faz parte das quinze Academias que constituem o ramos executivo, o Inter-Academy Council, com a secretaria sediada em Amsterdam, junto à Academia de Ciências da Holanda. Dentre os programas em desenvolvimento pelas Academias, destacam-se: o ensino de ciência, a difusão da ciência pela mídia, o reforço do sistema de Ciência e Tecnologia de cada país, o fortalecimento das academias, a alimentação, especialmente na África, e mais recentemente o programa sobre águas proposto pelo Brasil. Coordenamos no País as eficientes Redes Temáticas, Biologia, Física, Matemática e Ciências da Terra, que o COSTED mantém na América Latina. A Comissão do International Human Dimension Program (IAHDP), coordenada no Brasil pela Academia, realizou em outubro último no Rio de Janeiro o quarto Open Meeting do IAHDP. Para o evento, foi preparada a publicação Human Dimensions of Global Environmental Change: Brazilian Perspectives, com excelentes colaborações de pesquisadores nacionais. Em setembro próximo, nossa Academia será a sede da Assembléia Geral que o International Council for Science (ICSU) realiza a cada três anos. O ICSU é a maior organização mundial de ciência, congregando as representações nacionais, geralmente as Academias de Ciências, vinte e quatro uniões de ciência, e inúmeras comissões permanentes que tratam de temas multidisciplinares de âmbito internacional. Na programação destacam-se o Simpósio de três dias sobre o ensino de ciência, organizado pelo Committee on Capacity Building in Science e o simpósio sobre o fortalecimento das Academias de Ciências da América Latina e do Caribe, organizado pela nossa Academia e o IAP, semelhante ao que foi realizado para as Academias da África em Trieste, no ano passado. Um dos simpósios será dedicado à Ciência Brasileira, para o qual estamos concluindo um livro, fruto de contribuição de diversos acadêmicos, contendo o estado da arte da ciência brasileira, detalhando cada uma das dez áreas de conhecimento que integram a nossa Academia. Nas ações internacionais, devemos mencionar a estreita sintonia e colaboração com o Ministério de Ciência e Tecnologia, ilustrada pelo convite do Ministro Sardenberg para integrarmos a delegação que visitou Washington em abril último e que incluiu entre as importantes entidades visitadas, a National Academy of Sciences dos Estados Unidos. Há duas semanas, recebemos o Presidente da Academia de Ciências da China, que retribuiu visita que fizemos a Pequim em janeiro de 2001. Como a Academia da China, além de ser uma organização honorífica igual às demais Academias, conta com mais de cem instituos de pesquisa (tem cerca de 600 acadêmicos e 50.000 pesquisadores), o ponto alto das negociações foi a reunião em Brasília presidida pelo Ministro Sardenberg. Várias áreas de cooperação entre os dois países foram definidas e um protocolo de intercâmbio foi assinado entre as duas academias. Nossa Academia integra oficialmente a delegação brasileira nas reuniões da ONU preparatórias ao evento Rio+10, que será realizado em Johanesburgo em setembro próximo. Simultaneamente, representamos o Inter-Academy Panel na elaboração de documentos onde a comunidade científica internacional acentua a importância de os Governos reconhecerem o papel estratégico da ciência para que a humanidade promova um desenvolvimento sustentável preservando a natureza. Se foi intensa a nossa atuação internacional, maior ainda foi o esforço dispendido no País. Ponto alto foi a nossa parceria com o Ministério de Ciência e Tecnologia na organização da Conferência de Ciência, Tecnologia e Inovação realizada em setembro último em Brasília. O Livro Verde preparatório, e agora as conferências e mesas-redondas, o Estado da Arte da Ciência Brasileira e o Livro Branco, prestes a serem publicados, representarão importantes marcos para o estabelecimento de metas e estratégias para a Ciência, Tecnologia e Inovação e, consequentemente, para o desenvolvimento de nosso País. Também, na conferência foi criado o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, hoje em pleno funcionamento, sob a Presidência do Professor Evando Mirra de Paula e Silva. A criação dos quatorze Fundos Setoriais e do Centro de Gestão de Estudos Estratégicos, que deve otimizar o seu funcionamento, abrem enormes perspectivas para o nosso setor pelo volume e perenidade dos recursos. Estamos, ainda, na fase de implantação e é natural a ansiedade e a expectativa da comunidade científica para que os Fundos se estruturem e funcionem seguindo as diretrizes traçadas pelo Ministro Sardenberg, isto é, que eles atendam a totalidade da cadeia do conhecimento: a solução de problemas técnicos setoriais sim, mas igualmente a criação de novos conhecimentos indispensáveis para aplicar no setor e a formação de recursos humanos qualificados sem o que não haverá funcionamento efetivo das políticas setoriais. A experiência realizada em outros países já demonstrou que não se pode só colher os frutos ou apostar exclusivamente no conhecimento existente sem investir na criação de conhecimentos novos e na formação de pessoal qualificado. Daí, a nosa expectativa de que os Fundos Setoriais serão grandes incentivadores da pesquisa básica, possibilitando, igualmente, a absorção dos novos doutores nos grupos existentes e nos novos que necessitam ser criados. A Academia deu continuidade aos Programas: Educação e Divulgação em Ciência, Preservação da Memória Científica Nacional, Aristides Leão de Estímulo à Vocação Científica, Organização de Informação de C&T em Saúde, Ecologia e Biodiversidade, Microgravidade e Ciência e a Exceção. Nossa revista, Anais da Academia, modernizou-se e está inserida nos principais indexadores internacionais. Dois simpósios realizados devem ser destacados. Um sobre Sustentabilidade na Geração e Uso de Energia no Brasil, realizado em colaboração com a UNICAMP em março último. Outro sobre Papel e a Inserção do Terceiro Setor no Processo de Construção e do Desenvolvimento da C,T&I, realizado há poucas semanas em Brasília, em colaboração com o Instituto de Tecnologia Social, dando sequência à iniciativas originadas na Conferência de Ciência, Tecnologia e Inovação. Nossa atuação na defesa da Ciência no Brasil, e ultimamente nossa participação ativa no fortalecimento mais geral do sistema de Ciência, Tecnologia e Inovação, é histórica e permanente. Queremos de modo especial agradecer esse reconhecimento, e também as parcerias que efetuamos com o Ministério de Ciência e Tecnologia, na pessoa do seu titular, o Ministro Embaixador Ronaldo Sardenberg. Com o Ministro compartilhamos de uma aspiração comum, que é a de ter no País um sistema de Ciência, Tecnologia e Inovação forte e eficiente, fornecendo os instrumentos que possibilitarão as grandes e profundas mudanças econômicas e sociais que o Brasil necessita. Da mesma forma, queremos agradecer a estreita colaboração que mantemos com as duas agências, a FINEP e o CNPq, na pessoa de seus presidentes, Mauro Marcondes e Ésper Cavalheiro, que também é membro desta casa. Menção obrigatória deve ser feita aos 40 anos de existência da modelar instituição de apoio à pesquisa de São Paulo, a FAPESP, e aos 50 anos de criação do internacionalmente reconhecido Instituto de Matemática Pura e Aplicada - IMPA - que amanhã, no fim da tarde, realiza uma solenidade para a qual fomos todos convidados. Às duas grandes entidades brasileiras a nossa homenagem. É universalmente aceito não haver sucesso que não gere novos desafios. A criação da pós-graduação e a formação de novos doutores, que vem batendo recordes ano a ano e que atingiu a extraordinária cifra de 6.300 em 2001, pode ser apontada como um dos maiores sucessos da comunidade científica e universitária brasileira. A pergunta desafiadora do momento é como serão aproveitados os novos doutores. Nos países industrializados, a grande maioria vai para o setor industrial, o que em nosso País ocorre de forma incipiente por motivos e razões que vêm sendo amplamente debatidos, inclusive na última conferência sobre Ciência, Tecnologia e Inovação. Constata-se com satisfação que várias medidas foram criadas e estão em desenvolvimento para beneficiar o setor, tanto na esfera federal como estadual e mesmo municipal, destacando-se o Fundo Verde-Amarelo de Interação Universidade-Empresa. A ABC vem participando ativamente dos debates por entender que o conhecimento criado deve ser o mais rapidamente aplicado no desenvolvimento sócio-econômico do país. Também, porque o apoio que a sociedade dá à Ciência é influenciado pela percepção que ela tem dos benefícios gerados por um sistema de Ciência, Tecnologia e Inovação eficiente. Outro local privilegiado para absorção dos novos doutores são os Institutos de Pesquisa e as Universidades. Aí há que reconhecer a existência de sérios problemas. Alguns podem ser considerados conjunturais, como a falta de reposição de docentes e pesquisadores nas Universidades e Institutos de Pesquisa mantidos pelo setor público. Há, no entanto, um problema mais complexo representado pelo modelo de expansão de ensino superior adotado em nosso País. Temos cerca de dois milhões e quinhentos mil alunos matriculados nos cursos de graduação das Universidades, mas precisamos contar com um número muito maior porque menos de 15% da população entre 18 e 24 anos frequenta as nossas Universidades, enquanto que nos países avançados essa cifra é próxima de 50%. Com a retração do poder público são as Universidades Privadas que preponderantemente respondem atualmente, e possivelmente ainda responderão em futuro próximo, pela expansão do número de alunos. Atualmente nos estados do sudeste, as Universidades Públicas contam com menos de 20% dos alunos de graduação, mas são elas que realizam a quase totalidade da pesquisa e formam a quase totalidade dos doutores. Consequentemente, apenas uma pequena fração dos alunos é exposta a um ensino de melhor qualidade, realizado em ambiente de pesquisa e criatividade. Considerando-se as atuais condições, dificilmente pode-se esperar que a Universidade Privada, que conta e pode até contar crescentemente com a maioria dos alunos de graduação, incorpore e mantenha um número expressivo de doutores preparados para ensinar e pesquisar, salvo algumas exceções bem conhecidas. Saúde e Educação são duas áreas de extrema importância para a sociedade e onde as leis de mercado não podem ser preponderantes, aí há que contar com o Estado, presente e forte na defesa do que é considerado um bem público. Redesenhar a estrutura e o funcionamento, atual e futuro, do sistema universitário brasileiro, é tarefa dificil, complexa e que envolve diferentes segmentos da sociedade. Nossa Academia, pela vinculação estreita que existe entre a Cíência e a Universidade, não pode retrair-se e deve assumir um papel mais ativo nos debates, em função mesmo da seriedade e credibilidade conquistadas na defesa dos legítimos interesses nacionais. Finalmente, há que se destacar que o compromisso maior da Academia é e continua sendo o de promover a Ciência no País. Expandir a base científica nas diferentes regiões do país, aumentando o número de Institutos e Universidades bem qualificadas cientificamente, aumentar o número e a qualidade dos grupos de pesquisa melhorando as condições de trabalho dos cientistas, contribuir para o desenvolvimento de um eficiente sistema nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, participar ativamente na educação de ciência em todos os níveis e batalhar para que a importãncia estratégica da Ciência seja reconhecida pela sociedade aqui como o é nos países desenvolvidos são alguns de nossos grandes desafios. É com grande esperança que recebemos hoje os novos acadêmicos que certamente irão colaborar, para que a nossa Academia cumpra com os compromissos com o País e participe mais ativamente do esforço para a melhoria das condições de vida de nossa gente. Bem vindo a todos eles e os nossos agradecimentos aos que aqui compareceram abrilhantando esta cerimônia. Um agradecimento especial às autoridades presentes na pessoa do Senhor Ministro Ronaldo Sardenberg, que representa também o Presidente, Senhor Fernando Henrique Cardoso. Agradecimentos igualmente aos membros da comunidade científica na pessoa da Presidente da SBPC, Professora Glacy Zancan.
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