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| Posse dos novos Acadêmicos em 2002 | ||
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Discurso
de Posse dos Novos Acadêmicos em 2002 Considero proferir esta para saudar os novos acadêmicos que se juntam a nós esta noite na Academia Brasileira de Ciências uma grande honra e uma séria responsabilidade. Agradeço ao nosso presidente, professor Eduardo Moacyr Krieger, por haver-me distinguido com essa incumbência. Esta ocasião memorável faz-me lembrar muito vividamente de quando, em 1977, indicado pelo saudoso professor Carlos Chagas Filho, fui eleito e depois, em solenidade inolvidável para mim, empossado como membro desta Academia. Confesso que na noite de minha posse senti-me uma pessoa relevante, apesar de não ser ator de televisão ou cinema, cantor, futebolista ou tenista, seres que há cerca de 40 anos são considerados oficialmente a aristocracia moderna pelos meios de comunicação. No ano de 1590, quando a Itália concentrava a maioria dos cientistas daqueles tempos, os quais estavam estabelecendo as bases da ciência moderna, criou-se em Roma a primeira Academia científica do mundo, a famosa Accademia dei Lincei. Essa Academia foi logo seguida pela Accademia del Cimento, que funciona em Florença desde 1651, a qual se destacou por ter semeado os primeiros observatórios meterológicos do mundo por vários países da Europa, equipados com os termômetros recém-inventados por Galileo e com os barômetros também recentemente criados por Torricelli. Por que a Accademia dei Lincei recebeu esse insólito nome? Lincei em italiano significa linces. E os linces, ágeis felinos de orelhas empinadas que habitam vários países do hemisfério norte, há muitos séculos são folcloricamente considerados animais privilegiados por sua visão de alta acuidade, o que lhes permite enxergar bem a grandes distâncias, tal como acontece com as aves pescadoras e as assim chamadas "aves de rapina", cuja acuidade visual é de 28 segundos de arco, o dobro da nossa, que não passa de 1 minuto de arco. Os homens de ciência, então tidos como verdadeiros linces, porque enxergavam mais longe do que os demais, geralmente se dedicavam a estudar vários domínios do conhecimento, justificando tal crença. A criação das academias de Londres (em 1645), de Paris (em 1666) e de Berlim (em 1700) ocorreu quando essas cidades começaram a destacar-se pela criação de conhecimento científico, substituindo lentamente em relevância científica as italianas, que em meados do século XIX começavam a decair, talvez inexoravelmente. Essa tendência, que destruiu várias civilizações ao longo da História passada, parece ser uma lei natural, que provavelmente continuará a ocorrer ao longo de toda a História futura, constituindo ciclos que o filósofo alemão Oswald Spengler, importante intelectual do século XX, em sua famosa obra Decadência da Civilização Ocidental, denominou "a espiral da História", já intuída por outros historiadores mas não tão bem esmiuçada e esquematizada como o fez Spengler. Os objetivos das primeiras academias era o de possibilitar a qualquer pessoa do povo saber o que era ciência e como eram feitas as descobertas científicas, já que em suas reuniões o que se praticava geralmente era a realização de experimentos para que os leigos as vissem. Porque a intensidade da pesquisa científica cresceu muito em fins do século XIX, inventaram-se os congressos, cujos objetivos continuavam sendo as demonstrações práticas, mas então para os próprios cientistas. Esses objetivos foram muito desvirtuados após a segunda guerra mundial, alterando-se radicalmente as finalidades dos congressos, hoje transformados em eventos sociais e investimentos muito rentáveis de empresas especializadas. Gloriosos tempos das academias e dos congressos, sem dúvida. Memoráveis experiências de Galileo Galilei, de Luigi Galvani, de Alessandro Volta, de Humphrey Davy, de Michael Faraday e mais tarde de Joseph Priestley, realizadas nessas academias, passaram à história como reveladoras de grandes descobertas científicas. Priestley, professor de Física e de Química em Leeds, na Inglaterra, também ensinava Religião e vários idiomas. Descobridor do CO2, que ele chamava de "ar fixo", demonstrou sua existência em uma sessão da Academia de Londres e fascinou os que o viram comprimir esse gás e depois injetá-lo sob pressão no interior de um vaso de água, que em seguida bebeu e "viu que era bom", para usar a linguagem bíblica, assunto de que era profundo conhecedor. Priestley havia inventado o que nos tempos de minha infância chamávamos de "água sincronizada", não sei porquê, e hoje pedimos nos restaurantes como "água com gás". Os primeiros cientistas geralmente dedicavam-se a vários campos do saber. Nesse contexto, ninguém ultrapassou o grande Aristóteles, injustiçado pela ignorância quase completa a respeito de sua incomparável obra. Aristóteles inventou a Biologia, inventou a Meteorologia, inventou a lógica formal, que atravessou os séculos intocada até que George Boole a matematizou em meados do século XIX. Aristóteles descreveu com maestria a evolução dos embriões de numerosas espécies e a mecânica do parto e descobriu como os peixes, os insetos e as plantas se reproduzem. Ele sabia que havia vegetais com os dois sexos e vegetais com sexos diferentes, descoberta inacreditável de se fazer há 2.400 anos. Ele também descreveu as principais manifestações comportamentais do sono, inclusive descobriu os movimentos oculares que ocorrem durante os sonhos, considerados como uma marcante descoberta de alguns super-especialistas dos meados do século XX. Aristóteles descobriu que os insetos dormem e descreveu admiravelmente bem o sono das abelhas, o qual estudou com experimentação muito engenhosa. Em 1987 um artigo publicado na revista Nature descreveu o sono das abelhas, estudado precisamente com a mesma técnica utilizada por Aristóteles, porém o livro desse grande cientista em que tratava do sono não constava da lista de referências. Aristóteles sabia que o arco-íris resultava da dispersão da luz pelas gotículas de água das nuvens, precedendo de muito a descoberta do espectro luminoso por Isaac Newton. E foi Aristóteles o primeiro a estudar a origem e a estrutura da arte e o único que a explicou adequadamente. Sua descrição da criação do teatro, arte originária da antiga Grécia e com cuja criação ele conviveu, é um modelo de obra intelectual, que Aristóteles estudou com abordagem científica, como de fato deveria ser. Um matemático, Giovanni Borrelli, estudou magistralmente a locomoção de numerosas espécies animais, inclusive das aves e dos peixes. Em seu famoso livro De Motum Animalium, sobre a locomoção, percebe-se sua desesperada tentativa de efetuar a análise matemática desse importante comportamento, impossível em sua época porque a análise minuciosa dos movimentos da marcha, do vôo e do nado aguardava a invenção do cinema e da eletrofisiologia, para não dizer do cálculo diferencial e integral. O cinema foi inventado pelos irmãos Lumière em fins do século XIX, mas baseados na cronofotografia, antes criada por Etiènne-Jules Marey, professor de Fisiologia da Faculdade de Medicina da Sorbonne, em Paris. Marey foi o genial criador de numerosos métodos de registro da contração do coração, da respiração e dos movimentos em geral. Seus métodos eram amplamente utilizados até que os computadores modificaram inteiramente as técnicas de registro de fenômenos biológicos. E a primeira aplicação útil do cinema foi precisamente a filmagem sistemática, realizada por Marey, dos movimentos de locomoção de numerosas espécies terrestres, aéreas e aquáticas.
O matemático Borrelli aventou, em 1680, a hipótese de que os nervos ativam os músculos por intermédio de alguma substância liberados na região de acoplamento entre ambos, antecipando em quase 300 anos a descoberta da neurotransmissão química, definitivamente estabelecida pelo farmacologista alemão Feldberg em 1933. René Descartes, genial matemático francês que criou, à mesma época em que Borreli pontificava em Nápoles, a geometria analítica, uma das invenções mais importantes de toda a historia da ciência. É quase impossível imaginar como seriam a ciência e a tecnologia modernas sem a geometria analítica, porque é ela que nos permite representar graficamente a maioria dos fenômenos que estudamos. Descartes foi eminente embriologista e descobriu os reflexos nervosos e a inervação recíproca. Poucos sabem que o grande poeta germânico Johann Wolfgang Goethe fez fundas incursões em ciência, tendo originado, com Laplace e Kant, um físico e matemático, o outro filósofo, mas independentemente deles, o conceito hoje prevalecente da origem do sistema solar. E suas pesquisas sobre a evolução dos vegetais foram muito relevantes para a Botânica. O grande físico e matemático britânico Hamilton era um competente especialista em línguas orientais, sendo capaz de ler correntemente em latim aos dez anos de idade. E outro brilhante cientista britânico, Thomas Young, que demonstrou pela primeira vez a natureza ondulatória da luz, incursionou no campo da Fisiologia e descobriu que a visão humana é tricromática. Como se isso não bastasse, quase conseguiu decifrar a escrita hieroglífica egípcia, proeza efetivada independentemente dele e logo depois por Champolion. Outro cientista germânico, Hermann von Helmholtz, talvez o mais completo cientista dos tempos modernos, começou sua vida primeiro como psiquiatra e em seguida como cirurgião militar, tornou-se fisiologista e como tal estudou a produção de calor durante a contração muscular, o que o levou a inventar o primeiro termômetro com resolução de décimos de grau centígrado e a interessar-se pelo que mais tarde tornou-se a Termodinâmica, que ajudou a criar. Helmholtz mediu a velocidade do impulso nervoso, criou o oftalmoscópio, descreveu precisamente o olho como sistema óptico e descobriu como as vibrações do ar excitam os receptores auditivos no ouvido interno (ou orelha interna, como se diz hoje, subservientemente, no Brasil), tendo até determinado, de forma sumamente engenhosa, a representação tonotópica das freqüências sonoras na membrana tectória da cóclea. Suas descobertas no campo da teoria musical são da mais alta relevância. Como se isso não bastasse, tornou-se importante físico, foi um dos fundadores da Termodinâmica e terminou sua vida acadêmica em fins do século XIX como professor da mais cobiçada cátedra de Física do mundo naqueles tempos, a da Universidade de Berlim. Foi um químico, Lavoisier, quem descobriu a respiração animal, a qual denominou "combustão animal". Lavoisier não sabia exatamente onde esta ocorria mas a imaginava nos pulmões, já que o oxigênio entrava no organismo diretamente nesses órgãos. Quem desvendou esse mistério? Nada menos que um grande matemático, físico e astrônomo, Lagrange, que calculou que a temperatura da combustão, se esta se realizasse apenas nos pulmões, seria suficiente para incendiá-los. E por fim demonstrou que a oxidação, isto é, a respiração celular, ocorre em todos os tecidos do organismo, não apenas nos pulmões. Dois grandes físicos modernos, Erwin Schrödinger e Györgiy Gamow, foram os primeiros a aventar o código genético e foi Schrödinger quem desvendou o grande mistério da entropia negativa dos seres vivos. O que caracteriza a pesquisa científica em nossa época? A precoce especialização das pessoas que fazem ciência e o afunilamento rápido e feroz dos campos de pesquisa estão apequenando os que se dedicam à ciência. O prof. Carlos Chagas Filho definiu certa vez as pessoas que fazem ciência como "pesquisadores ou cientistas". O pesquisador sabe tudo sobre a ponta do alfinete mas nada sabe da haste nem da cabecinha. O cientista sabe tudo sobre a ponta mas conhece bem a haste e a cabecinha. A desastrosa divisão do conhecimento em ciência e filosofia, engrendrada por Descartes no século XVIII, contrariando frontalmente a unidade do conhecimento da filosofia grega, separou o que se chama ciência do que se chama filosofia. Como resultado da avassaladora divisão entre ciência e filosofia, instalou-se, sobretudo após a segunda guerra mundial, a divisão entre ciência e cultura. Mas, como perguntou certa vez o saudoso professor José Reis, "o quê pode ser mais cultura do que a ciência"? Recuso-me a aceitar essas divisões. Em primeiro lugar, não é verdade que o conhecimento é tão amplo em nossos tempos que impede que alguém domine mais que um campo muito restrito. Cada divisão do conhecimento que os especialistas dominam é bem menos extensa do que o que se tinha quando a cultura dos cientistas era ampla e diversificada. Por isso, nada justifica que se ignore quase tudo sobre quase tudo. A tendência a afunilar a cultura individual a um campo muito restrito reduz mais e mais o que cada um sabe, especialmente o de cada geração subseqüente. O conhecimento da massa é imenso porém o conhecimento de cada um é muito limitado. Por isso cada campo restrito está sendo mais e mais reduzido, produzindo microcampos científicos que obnubilam a visão de quem a eles se dedica e deixando, sem dúvida, muito espaço livre para estudar outros campos da ciência e da chamada cultura. Infelizmente, entretanto, a visão dos que fazem ciência em nossos tempos afasta-se cada vez mais da visão do lince, que inspirou a criação da Accademia dei Lincei e norteou a criação das demais academias. Parcialmente devido a essa catástrofe cultural, os super-especialistas das chamadas humanidades geralmente ignoram e até desprezam o culto à ciência. Os super-especialistas da chamada ciência, por seu lado, freqüentemente também consideram as humanidades como algo desprezível e irrelevante. Essas posições adotadas por uns e por outros são desastrosas para o conhecimento e, a meu ver, muito humilhantes para quem as esposa. Como admirador da civilização grega, a mais importante de toda a História, adoto o critério helênico de que todo o saber deve ser unificado, no que os gregos chamavam "filosofia" (isto é, afim do saber, amigo do saber) ou no que hoje chamamos "ciência" (isto é conhecimento, em latim). Acercando-me do fim de minha vida, não posso deixar de apelar para os novos acadêmicos, bem mais jovens do que eu, para que almejem tornar-se "linces", como eram considerados os membros da primeira academia do mundo. Que enxerguem muito longe, abrangendo um ângulo acadêmico de saber muito amplo e passando essa atitude para seus alunos. Precisamos deixar de formar formiguinhas, treinadas para carregar pedacinhos de folhas de um lugar a outro quase que cegamente, e voltar a formar linces. Por tudo o que acabo de dizer, foi muito auspiciosa e acertada a decisão da Academia Brasileira de Ciências de abrir-se recentemente para o que se denomina ciências humanas, já representadas por figuras de proa desse campo da ciência e que este ano inclui mais três de seus grandes nomes. Esse foi um passo enorme para anularmos a separação artificial entre "ciência" e "humanidades" e contribuirmos para que a alta intelectualidade brasileira se torne toda uma grande agremiação de linces. Em nome dos acadêmicos mais antigos saúdo os recém-chegados, dando-lhes nossas boas vindas e esperando que se dediquem à nossa academia sempre que possível e o quanto lhes seja possível. É inegável o progresso da pesquisa científica no Brasil nas últimas décadas e em futuro talvez até previsível nosso país deverá tornar-se um dos países mais relevantes do mundo. Esta Academia deverá então refletir estreitamente tal relevância. Fazer tudo por ela hoje contribuirá para que isso aconteça quando esse futuro chegar.
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