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  Abertura do encontro sobre a popularização da ciência, Rio de Janeiro, 2 de fevereiro de 2004



Ilustríssimo representante do Ministério da Ciência e Tecnologia, Jocelino Francisco de Menezes; digníssima Diretora da Oficina de Ciência e Tecnologia da Organização dos Estados Americanos, Dra. Alice Abreu; estimado Presidente da Comissão Interamericana de Ciência e Tecnologia (COMCYT, Panamá), Dr. Gonzalo Córdoba; meu caro Diretor do Museu de Astronomia e Ciências Afins, Dr. Alfredo Tolmasquim, que com o característico brilho e competência brindou-nos com a organização deste evento; prezado Dr. Ennio Candotti, Presidente de nossa entidade irmã, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência; ilustríssimas autoridades presentes; colegas e amigos

Na qualidade de presidente da Academia Brasileira de Ciências, tenho a honra de me dirigir a esta distinta audiência na sessão inaugural do Seminário de Popularização da Ciência, organizado pelo Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST), em parceria com o Escritório de Ciência e Tecnologia da Organização dos Estados Americanos (OEA) e com o nosso Ministério de Ciência e Tecnologia (MCT).

A popularização da ciência tem impacto direto sobre o progresso social e o desenvolvimento de uma nação. Esta relação pode ser percebida desde os tempos mais remotos, mesmo antes do aparecimento do que convencionamos como ciência moderna. A influência da ciência na sociedade é determinada pelo nível do desenvolvimento científico, por um lado, e pelo grau de compreensão pública de sua importância, por outro. É pela popularização da ciência que a sociedade passa a ter consciência da importância das descobertas científicas para o desenvolvimento, se estabelece um ambiente propício à identificação de novas vocações e se chega a compreensão de que os investimentos em ciência e tecnologia são estratégicos em todos os níveis para que se alcance desenvolvimento e independência. Só quando essa consciência existe em toda a sociedade é possível compreender-se que o desenvolvimento científico e tecnológico é um instrumento fundamental para a superação das distinções entre as nações desenvolvidas e em desenvolvimento, entre os países pobres e os países ricos.

No período do alvorecer da ciência, o público aceitava as descobertas científicas de uma forma espontânea e natural, quase se como fossem frutos de uma revelação. Mas a partir do século XVII a ciência moderna surgida na Europa, começa a criar um vocabulário, um simbolismo e um modo de pensar próprios, distintos da linguagem e da lógica convencional que exigiram dos cientistas esforços para promover a compreensão pública da ciência. Paradoxalmente, hoje o mundo é confrontado pelo crítico problema da compreensão pública da ciência, que hoje exerce uma influência na vida das pessoas numa escala que, no passado, seria inimaginável. Na medida em que a ciência foi se afastando cada vez mais da capacidade de compreensão e do senso comum das pessoas, mais difícil foi se tornando a compreensão precisa da ciência moderna e das mudanças acarretadas por ela. A contradição entre o atual desenvolvimento científico e tecnológico e o grau de desconhecimento da sociedade sobre o funcionamento da ciência tem constituído motivo de preocupação para muitos, que consideram este fato um desafio a ser enfrentado.

De uma forma geral, a compreensão pública da ciência advém da educação científica recebida ao longo do processo educacional fornecido aos cidadãos. Genericamente, uma pessoa passa parte significativa de sua vida recebendo educação escolar, mas na maior parte desta o conhecimento obtido é adquirido por outros meios. A ciência hoje evolui a passos largos e novas tecnologias são desenvolvidas em ciclos cada vez menores. Pessoas vivendo no mundo contemporâneo terão a oportunidade de testemunhar, ao longo de suas vidas, a substituição de algumas gerações de tecnologias de grande impacto no cotidiano da sociedade. Assim, tendo já encerrado os seus ciclos escolares, a única fonte de renovação e acúmulo de novos conhecimentos que a maior parte destas pessoas terá reside na capacidade da sociedade em oferecer educação científica continuada para a sua população. Isso depende diretamente de nossos esforços para popularizar a ciência, tornando-a mais acessível e desta forma permitindo, à população, uma constante revisão de seus conceitos e comportamentos, à luz da evolução do conhecimento e da tecnologia.

Para medirmos o nível educacional de um país deveremos medir, então, não somente a qualidade de ensino oferecido nos bancos escolares, mas, também, o grau de alfabetismo científico da população. Com uma população analfabeta cientificamente, fica difícil pensar qualquer perspectiva de um mundo melhor. E, como enfatizamos aqui, o êxito desta capacitação do cidadão encontra-se não somente na escola, mas também diretamente na sociedade, fora do processo de educação formal.

O desafio da popularização da ciência pode, a primeira vista, parecer uma empreitada de menor importância para os menos atentos. Os ganhos deste processo podem não parecer tão evidentes, mas o significado destes é de grande importância para a sociedade. Infelizmente, muitas vezes as dificuldades para promover a popularização da ciência provêm de uma parcela da comunidade científica, que entende que tal campanha nada tem a ver com a ciência e, por conseguinte, não se envolve com ela. É preciso que se entenda que a compreensão pública da ciência propiciará condições externas favoráveis ao exercício da atividade científica, conferindo a esta maior legitimidade social e, conseqüentemente, maiores recursos para a sua realização.

É chegado o tempo de nós cientistas assumirmos claramente o compromisso social da ciência. A ciência deve afirmar o seu compromisso com a sociedade, para o seu próprio bem, e para o bem da humanidade. Dadas as enormes diferenças entre as realidades, as aspirações e as habilidades dos homens e mulheres do planeta, uns poucos vão se tornar cientistas. No entanto, é possível ao público geral ter uma compreensão dos preceitos da ciência, entender a dinâmica e a natureza do pensamento científico, compreender as inter-relações da ciência e da sociedade; e mais ainda, é possível ao público enxergar e entender a importância dos cientistas, suas potencialidades... e suas limitações. Não podemos esperar que todos se tornem compositores, mas todos têm o direito a ouvir, apreciar e entender a obra de Mozart ou Beethoven, por exemplo. De forma análoga, mesmo não sendo cientista é possível ao cidadão adquirir a compreensão da ciência, apreciando os encantos do universo e usufruindo os benefícios do conhecimento e da tecnologia.

Como teremos a oportunidade de discutir neste encontro, já são várias as iniciativas bem sucedidas que são desenvolvidas no Brasil e outros países da América com vistas à popularização da ciência. Tenho a certeza de que ao longo das discussões neste seminário teremos contato com experiências inovadoras, que podem trazer um novo fôlego para este desafio. Aqui saúdo, em nome da Academia Brasileira de Ciência, os participantes deste evento, desejando a todos uma boa estadia no Rio de Janeiro e um proveitoso processo de discussão, particularmente aos nossos colegas de outros países e à nossa colega, professora Alice Abreu, pelo seu excepcional desempenho como diretora do Escritório de Ciência e Tecnologia da OEA.



Dr. Eduardo Moacyr Krieger
Presidente da Academia Brasileira de Ciências