"Aprendizagem das ciências e acesso à cidadania".
Eduardo Moacyr Krieger
Presidente da Academia Brasileira de Ciências
Ciência e Cidadania
O desenvolvimento da ciência moderna coincidiu historicamente com o crescimento da noção de indivíduo dotado de liberdade de pensamento e conseqüentemente com a construção da cidadania. Alguns historiadores da ciência costumam estabelecer a época que vai do fim da Idade Média até o séc. XVII como o período em que a ciência experimental foi sendo progressivamente institucionalizada e o conhecimento científico foi se emancipando da matriz de crenças religiosas Durante o século XVII, assistiu-se a uma grande busca no sentido de melhor definir o método científico, distinguindo claramente a ciência da não ciência.
O modelo cognitivo formulado por Descartes marco importante da ciência moderna, separou a ciência da filosofia, alterando a aspiração dos antigos gregos de um saber unitário. Processou-se a partir dai uma crescente compartimentação do conhecimento em áreas, deixando a pretendida unidade a cargo de um estrito modelo de racionalidade que deveria ser compartilhado por todos os ramos do conhecimento sobre o mundo natural, o que garantiria, por si só, as relações entre as diversas dimensões do saber. Entretanto, o progressivo enrijecimento dos critérios de cientificidade, findou por expurgar do mundo da ciência, não só os dogmatismos indesejáveis, mas também outras formas de conhecimentos não sistemáticas, atribuindo crescente prestígio ao método experimental que passou a ter nas ciências físicas seu modelo inspirador.
A super valorização da racionalidade buscou reservar à ciência uma esfera autônoma - o pensamento racional - assegurando seu isolamento e assim protegendo-a da “influencia espúria” das demais formas de pensamento. Esta divisão contribuiu para a separação dos conceitos modernos de ciência e política, um correspondendo ao mundo da “razão pura” e o outro ao universo das “práticas”.
A questão da relação entre Ética e Ciência, no entanto, não desapareceu de forma absoluta. Em trinta anos obtiveram-se mais dados científicos que nos últimos 10 mil anos. A velocidade da mudança tecnológica que acompanha esta acumulação de dados é evidente. Como estas mudanças tecnológicas decorrem de avanços científicos e de teorias científicas, poderia parecer , como explicou o Prof H. Chaimovich na manhã de ontem que o termo "explicação científica" tem um significado claro para a sociedade
Mas numa sociedade democrática é essencial que os cidadãos tenham consciência do significado deste termo.
Como disse Chaimovich uma "explicação" é um enunciado que reformula ou recria as observações de um fenômeno num sistema de conceitos aceitável para um grupo social que compartilha um sistema de validação daquilo que pode ser verdadeiro ou falso. Assim, a religião ou a magia são tão explicativas, para aqueles que as aceitam, como a ciência para aqueles que a aceitam. A diferença específica entre a explicação religiosa ou mágica e a científica é a forma com a qual se gera a explicação. Para a ciência esta forma constitui o seu próprio critério de validação.
Como foi relatado, quatro condições devem ser satisfeitas para que uma explicação possa ser chamada de "científica":
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1.- Descrição do fenômeno a explicar de uma forma aceitável para a comunidade dos observadores. 2.- Proposição de um sistema conceitual capaz de reproduzir o fenômeno a explicar de uma maneira aceitável para a comunidade de observadores. Este conceito se denomina hipótese explicativa. 3.- Dedução, a partir da hipótese explicativa, de outros fenômenos não considerados explicitamente na proposição inicial, assim como das condições de observação para a comunidade de observadores. Este conceito se denomina previsão. 4,- Observação dos fenômenos previstos. Estas novas observações podem, ou não, validar a hipótese explicativa. Se não for validada volta-se a primeira condição.
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Apenas quando estes critérios são obedecidos e somente com este sistema de validação uma explicação é científica. Assim, embora possam existir variadas explicações, somente será científica, dentre todas as possíveis, aquela que obedecer aos critérios acima. Como se fundamenta na verdade – mesmo que transitória – e em rígidos processos de validação, implicitamente a ética é um elemento intrínseco da Ciência, parte do que Merton chamou do ethos do cientista.
Por parecer esse um princípio óbvio para a comunidade científica os debates sobre a relação entre Ética e Ciência, permaneceram como objeto de atenção de uma parte significativa mas não majoritária, da comunidade científica, restringindo-se o debate a seu uso com finalidades bélicas.
Nos dias de hoje, existe uma crescente preocupação com a ética da ciência e tecnologia. A Unesco tem uma Comissão de Ética em Ciência e Tecnologia (COMEST) que se reuniu em dezembro passado, no Rio de Janeiro, em um simpósio extremamente pertinente. Essa preocupação está ligada ao grande número de novos desenvolvimentos e aplicações do conhecimento científico e tecnológico, como o uso de organismos geneticamente modificados e o desenvolvimento de produtos da nanotecnologia. Nesses casos, a comunidade científica em todos os países do mundo tem claro que há um imenso potencial de benefícios mas há também possibilidades de riscos. Portanto, é essencial que se faça uso, em todos os momentos, da melhor informação científica existente para instruir as delicadas decisões políticas que devem ser tomadas.
As Academias de Ciências de todo o mundo –tanto no âmbito do InterAcademy Pannel quanto individualmente - têm se empenhado em reunir, debater, avaliar e divulgar o melhor conhecimento disponível a respeito de cada nova descoberta, para que as oportunidades criadas pelas novas tecnologias não se transformem em problemas futuros. A perda de uma oportunidade tecnológica, por qualquer sociedade, acaba penalizando-a com o empobrecimento e o desemprego. Esta é uma questão básica para a cidadania, na qual a Ciência desempenha um papel essencial: uma comunidade ou mesmo nação que renuncie a uma nova tecnologia poderá estar se protegendo dos eventuais riscos criados por esta, mas também estará arriscando perder produção, mercados e empregos para os que dominarem as novas tecnologias.
Como disse Lord May Presidente da Royal Society em seu discurso anual de 2002 naquela Academia:
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Algumas questões postas para os cientistas muitas vezes não têm como ter seus riscos avaliados com maior grau de precisão. Isso se verifica no corrente debate sobre os organismos geneticamente modificados. Por um lado, os críticos aos transgênicos argumentam que não se deve adotar uma nova tecnologia caso esta não possa ter seus riscos potenciais identificados e quantificados. Alguns argumentam inclusive que tal condicionante deve levar em conte tanto os riscos conhecidos, como os desconhecidos. Como, por definição, os riscos desconhecidos são difíceis de serem identificados e quantificados, isso - que podemos chamar de radicalização do princípio da precaução - é uma receita que inevitavelmente conduz à paralisia. Tal pressuposto inviabilizaria o desenvolvimento de qualquer nova tecnologia.
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Há um crescente consenso que as decisões sobre a aceitação e aproveitamento das novas tecnologias não cabem apenas aos cientistas: elas devem ser tomadas levando-se em conta as numerosas instituições de uma sociedade democrática: o Executivo, o Congresso, uma imprensa livre e forte, os grupos interessados, sobretudo, pelos que receberam democraticamente seus mandatos. Entretanto, as decisões políticas dependem basicamente da capacidade que os cidadãos e seus representantes tenham de avaliar as oportunidades e os riscos criados pelas novas descobertas.
Observando diferentes regiões do globo, vemos nações ricas e outras pobres. Identificamos aquelas que investem em Ciência, Tecnologia e Inovação ao lado de outras que não o fazem. Sem dúvida, os melhores padrões de vida são encontrados nos paises ricos que dominam a ciência e a tecnologia e os piores em nações pobres e cientificamente atrasadas. Há um outro interessante aspecto a ser notado: existem paises ricos mas com pouca tradição em C&T, como no Oriente Médio, que têm padrões de vida elevados mas não investem em C&T. Provavelmente sua riqueza se desvanecerá com o esgotamento das reservas de petróleo. Por outro lado, a Noruega, que sempre foi o país mais pobre da Escandinávia e é um país democrático que enriqueceu com o petróleo, está se preparando para o esgotamento das suas reservas, com um vigoroso programa de desenvolvimento baseado no seu fortalecimento científico e tecnológico. Certamente a Noruega busca um caminho de sustentabilidade enquanto os países petrolíferos do Oriente Médio possivelmente não conseguirão manter seu atual nível de vida uma vez esgotadas suas riquezas naturais.
Todos reconhecemos que a ciência trouxe enormes benefícios para a humanidade, mas também tem sido usada de forma perversa. Ao discutirmos o ensino de ciências para a cidadania temos de ter este fato em mente, evitando a ingenuidade otimista e educando-nos para reconhecermos que os resultados científicos, por si só, não trazem o bem sem limites. Por isso mesmo, não podemos colocar a ciência acima da ética. Ética e ciência devem, juntas, estar presentes no desenvolvimento da cidadania.
O aprendizado das ciências e a cidadania
Até um passado recente, um ser humano podia exercer plenamente os seus direitos e deveres de cidadão com um mínimo conhecimento sobre as ciências. O Brasil foi durante muitos anos chamado de "República dos Bacharéis", onde o termo "bacharel" era de fato restrito aos formados em Direito, cuja educação científica não ia além de dois ou três anos do "ginásio" que corresponderiam ao sétimo e oitavo anos de ensino fundamental de hoje. Pessoas de sólida formação humanística, mas ignorantes em ciência e mais ainda em tecnologia, legislavam e julgavam para toda a nação, inclusive em matérias relacionadas á ciência .
Essa situação foi denunciada por muitos, inclusive por destacados bacharéis, como o escritor Monteiro Lobato. Seus personagens-crianças, Narizinho e Emília, tinham como companheiro permanente o sábio Visconde de Sabugosa que os introduzia às ciências durante suas aventuras, aproveitando fatos do cotidiano para ensinar. Às vezes, como na "Viagem ao Céu", o Visconde criava toda uma aventura para ensinar astronomia. Já na "Chave do Tamanho" ele ensinava fatos sobre o meio-ambiente e sobre a criação de novas tecnologias, apropriadas ao meio em que viviam. É interessante notar como os personagens de Monteiro Lobato aprendiam, e muito, durante as suas férias. Talvez aprendessem até mais do que aprendiam na escola, que na sua época era séria e exigente, mas livresca e pouco chegada às realidades da matéria e dos seres vivos.
Hoje, cada ser humano está imerso em ciência e tecnologia e nas suas conseqüências: o nosso tempo de vida aumenta continuamente, porque temos mais e melhores alimentos, medicamentos e conhecemos muito melhor o corpo humano, suas potencialidades, mazelas e necessidades. Surgem novos empregos e profissões, baseadas em conhecimentos recentes, que em muitos casos datam de apenas vinte ou trinta anos. Ao mesmo tempo, muitas profissões são extintas e empregos desaparecem, simplesmente porque as atividades correspondentes não têm mais importância econômica, estratégica ou mesmo social. Nunca é demais lembrar que a informática revolucionou o mundo do trabalho, que os materiais descobertos durante o século XX afetaram grandemente as atividades de mineração e metalurgia e fizeram diminuir o valor econômico de muitos minerais, que produtos sintéticos descobertos cientificamente fizeram diminuir o valor de muitos produtos naturais, acarretando o desemprego.
Por essas razões, qualquer cidadão de hoje e do futuro precisa ter uma educação científica que o capacite, pelo menos, a entender o que se passa ao seu redor. A ignorância penaliza duramente, tanto o pobre como o rico. O cidadão de hoje, e certamente o de amanhã, tem de tomar decisões complexas que exigem informação sobre a ciência, sobre a natureza do conhecimento científico e sobre suas limitações e potencialidades.
Precisamos ter a humildade de reconhecer que a ciência, ao contrário das religiões, não é feita de certezas. Lembremos de Galileu, que nos ensinou que o método da ciência é a dúvida. Ao aprendermos ciência, e por mais que aprendamos, sempre surgem novas perguntas, sempre há espaço para dúvidas.
Muitas pessoas se desiludem com a ciência, por essa razão. Elas gostariam de uma ciência que fosse feita apenas de verdades muito bem garantidas, mas não é assim. Por isso, é extremamente importante que o ensino de ciências não seja um ensino de fatos, de teorias e de fórmulas. É essencial que seja um ensino de atitudes, de análise, de descoberta, de observação e de trabalho, tanto feito pela criança como feito em equipe. Essa é a principal razão pela qual a Academia Brasileira de Ciências tem dado todo o apoio possível ao projeto "Mão na Massa".
Os projetos de ensino de ciências baseados no trabalho investigativo das crianças têm sido muito bem sucedidos, em toda a parte onde foram aplicados. Além do aprendizado das ciências, esses projetos têm contribuído para a formação das crianças, no que diz respeito ao domínio da linguagem. Parece curioso que um projeto de ensino de ciências contribua para o ensino de língua. Isso se explica: as crianças que põem a "mão na massa" trabalham com entusiasmo e, ao escreverem sobre seus experimentos, escrevem bastante e com dedicação.. Dessa forma vão exercitando e desenvolvendo suas habilidades de comunicação, especialmente de redação.
Crianças que aprendam e pratiquem o processo científico com prazer deverão tornar-se adultos entusiastas da ciência, sem ingenuidades mas sem preconceitos. Esperamos que estas crianças se tornem adultos que percebam e compreendam as mudanças que a ciência introduz em nossas vidas continuamente, e que percebam a importância de que cada pessoa esteja permanentemente empenhada em aprender, seja lendo e estudando, seja descobrindo ou seja, fazendo ciência.
Nesse ponto, quero lembrar uma história bem conhecida de todos os brasileiros, que é a da borracha amazônica. A árvore da qual se extrai a borracha natural, a Hevea brasiliensis, é natural da Amazônia e, durante muitos anos o Brasil foi o único produtor de borracha do mundo. Esse monopólio enriqueceu muita gente e foi o responsável pelo "ciclo da borracha". Essa situação durou até que sementes da árvore fossem contrabandeadas por ingleses para a Malásia, onde a seringueira foi plantada e se tornou uma grande riqueza. A ascensão da borracha na Malásia coincidiu com a decadência econômica da Amazônia que durou mais de meio século. Isso podia ter sido evitado? Como?
Sem dúvida, o contrabando poderia ter sido evitado, o que é um problema de polícia. Entretanto, se durante o tempo do monopólio nós brasileiros nos tivéssemos dedicado a descobrir a biologia da Hevea, se tivéssemos desenvolvido técnicas agrícolas, variedades resistentes ao fungo que ataca plantações de seringueira e se tivéssemos aprendido cientificamente a química da borracha natural, teríamos uma vantagem que poderia nos ter dado a capacidade de competirmos no mercado mundial.
Infelizmente, nada disso foi feito. Ao invés de usarem ciência e tecnologia para valorizar seu produto, os que se enriqueceram com a borracha continuaram a apenas explorar as seringueiras como plantas nativas, esparsas no meio da floresta e pouco produtivas. Quando as plantações da Malásia começaram a produzir, o preço da borracha caiu vertiginosamente, causando a miséria de pessoas e de comunidades inteiras na Amazônia.
É preciso lembrar sempre desta história e de outras histórias como esta. Mais que tudo, é preciso impedir que ela se repita. Como isso pode ser feito? Só há uma maneira efetiva, que é introduzirmos Ciência, Tecnologia e Inovação em todas as nossas atividades, continua e intensamente.
Criar ciência e tecnologia não é atividade de pessoas isoladas, não é atividade de alguns gênios em uma torre de marfim. Cada vez mais é uma atividade coletiva, que obrigatoriamente mobiliza muitas pessoas - e essas pessoas têm de estar capacitadas para isso. Não podemos pensar no ensino de ciências como sendo uma atividade voltada para umas poucas crianças talentosas, deixando as outras livres disso. Ao contrário, temos de universalizar o ensino de ciências, porque precisamos de cada vez mais pessoas que possam exercer atividades de elevado conteúdo científico e tecnológico. Se não o fizermos, estaremos perdendo para outros as oportunidades de explorarmos nossas próprias riquezas, como ocorreu no caso da borracha.
As peculiaridades do Brasil
O Brasil é cheio de contrastes com imensas desigualdades tanto econômicas, sociais e educacionais, quanto regionais. Há alguns anos referíamo-nos às cidades como pólos dinâmicos para a modernização da sociedade enquanto as áreas rurais eram consideradas retrógradas e mesmo reacionárias. Mas este já não é mais o caso: toda grande cidade brasileira exibe hoje o melhor e o pior da vida contemporânea.
Grandes cidades como Rio de Janeiro e São Paulo são habitadas por pessoas ricas que desfrutam dos benefícios das modernas tecnologias e de um ambiente cultural diversificado e por um grande número de pessoas que vivem à margem da cidadania praticamente sem acesso a uma alimentação decente, habitação e transporte sem falar em saúde e educação.
Os impactos da Ciência e da Tecnologia na vida dos brasileiros podem atingir situações extremas..Até meados de do século XX milhões de brasileiros não tinham acesso à eletricidade, usavam água de poços ou de riachos perto de suas casas e se alimentavam de uma agricultura de subsistência, usando lenha para cozinhar. Esse modo de vida tão primitivo podia ser encontrado a menos de cinqüenta quilômetros dos grandes centros urbanos onde os mais ricos desfrutavam da importação do que havia de mais avançado.
A migração para as favelas nas cidades foi acompanhada pela preservação de práticas rurais que se mostravam inteiramente inadequadas á vida nas cidades. Por exemplo, a distância entre os poços-cisternas e as instalações sanitárias diminuiu drasticamente com óbvias conseqüências. Isto foi percebido por alguns administradores municipais que ao ampliarem significativamente a distribuição de água potável à população sem grandes investimentos em desenvolvimento de novas tecnologias alcançaram resultados significativos na melhoria da qualidade de vida das populações.
Outros fatos devem ser lembrados: o Brasil não teve até meados do século XX uma tradição científica importante e que práticas tecnológicas foram freqüentemente introduzidas por imigrantes enriquecidos que, desligados de seus países de origem, ainda assim tendiam a supervalorizar o que se produzia lá fora.
Talvez por essa razão, a ciência e principalmente a tecnologia tenha tido um caráter majoritariamente exógeno na cultura brasileira.
A necessidades de erradicação das grandes endemias nas metrópoles e a solução de problemas da produção agrícola, foram os principais vetores de mudança que motivaram a criação de importantes institutos de pesquisa, ao lado das universidades, do programa nacional de pós-graduação e de necessidades de inovação.
Mais recentemente alguns grandes sucessos em saúde pública foram obtidos pela Pastoral da Criança através de algumas práticas extremamente simples mas eficazes como o soro caseiro para as crianças com diarréia e a introdução do hábito de cozinhar os alimentos em panelas de ferro ou colocando pedaços de ferro diretamente na panela como forma de prevenir ou curar anemia. E importante ressaltar essas práticas simples para demonstrar que muitas vezes a solução de grandes problemas não exigem soluções nem caras nem sofisticadas mas apenas boa informação.
Hoje vivemos no Brasil uma situação absolutamente nova, em que Ciência, Tecnologia e Inovação são reconhecidas como elementos essenciais de criação de riquezas e de emprego, que é um elemento fundamental da cidadania. Esse reconhecimento está baseado em algumas realidades importantes, especialmente a grande contribuição positiva do agronegócio e de alguns setores industriais dinâmicos para a qualidade de vida da população especialmente pelos empregos que são criados e oferecidos.
Estes novos empregos têm ajudado a diminuir o impacto violento da supressão de empregos em setores tradicionais, o que freqüentemente ocorreu associado à introdução de novas tecnologias. Um exemplo dramático é o do setor bancário, que no passado foi um grande empregador: estima-se que o número de empregados do setor não passa hoje de 30% do máximo atingido há algumas décadas, mesmo apesar do grande vigor do sistema bancário brasileiro e do crescimento da população. Essa redução no número de bancários foi devida, exatamente, à introdução das novas tecnologias de informação no sistema, com a participação de muitos pesquisadores e profissionais brasileiros.
Temos que aceitar a inexorabilidade do avanço tecnológico alimentado pelo avanço ininterrupto da ciência, preparando a população, através da educação científica, para ser partícipe e beneficiária do processo, ao invés de ser a sua vítima.
Isso tem motivado cada vez mais pessoas a procurarem se educar e, particularmente, a procurarem educar-se cientificamente, criando pressões e oportunidades para o ensino de ciências, em todos os níveis. Oferecer um ensino de ciências atual, atraente, motivador e de alta qualidade é uma obrigação do poder público e dos cientistas e professores. Isso exige que nós, brasileiros, conheçamos o que de melhor se faz no mundo em matéria de educação científica.
Temos de dominar o conhecimento científico atual a respeito de como as crianças aprendem. Essa é uma área de intensa investigação que se beneficia dos rápidos e impressionantes avanços das Neurociências, em todo o mundo. Não podemos ficar eternamente atados a conceitos e práticas que nos sejam familiares, mas que podem ser errôneos e danosos. Precisamos estar sempre dispostos a mudar práticas e atitudes, baseados na melhor Ciência existente e cada vez menos presos aos preconceitos e ideologias superadas.
Precisamos reconhecer a necessidade da universalização de uma educação de boa qualidade, ao mesmo tempo em que reconhecemos a limitação dos recursos materiais disponíveis. O Brasil já deu um grande passo, na última década, ao conseguir universalizar o ensino primário. Infelizmente, não podemos esquecer que alguns dos países vizinhos ao Brasil fizeram isso há cerca de um século, portanto a universalização do ensino primário é apenas o resgate de uma parte da nossa imensa dívida social. Por outro lado, temos de reconhecer o mau desempenho de estudantes brasileiros, em comparação com estudantes de outros países, em provas de avaliação de conhecimento de ciências.Temos também notícia de excelente desempenho de jovens brasileiros em Olimpíadas de Matemática e outras ciências. Isto é estimulante, mas se trata de brilhantes exceções em um cenário lamentável, infelizmente.
Precisamos de campeões de Olimpíadas de Ciências, sim, mas precisamos muito de que uma grande parte dos nossos jovens receba uma educação científica que lhes dê, no futuro, a possibilidade de construírem uma nação que contribua para um mundo decente e digno. Um mundo dividido entre os que sabem e os que não sabem é um mundo em que uns têm um poder imenso e outros são subjugados e explorados, de muitas formas, pelos primeiros.
Atuação da ABC
A participação da ABC no programa teve como ponto de partida um termo aditivo ao Convenio de Cooperação que a Academia Brasileira de Ciências mantêm com a Académie des Sciences da França. A ampliação do Convenio permitiu que em 2002 3 pesquisadores e professores do Rio de Janeiro e 5 de São Paulo fossem à França para treinamento e ,em 2004, 2 pesquisadores do Rio e 4 de São Paulo fossem treinados naquele país.
O projeto ABC na Ciência - Mão na Massa: participantes e apoio “Mão na Massa” no Rio de Janeiro
No Rio de Janeiro o principal parceiro da Academia é o Instituto Oswaldo Cruz (IOC/ Fiocruz) instituição acadêmica centenária que, além de sua missão tradicional de pesquisa, também agregou o compromisso social com a educação, tendo inaugurado um Programa de Pós-graduação em Educação Científica em 2000 cujo público-alvo preferencial é constituído de professores do ensino médio e fundamental.
Desde agosto de 2001, a equipe do Rio de Janeiro vem desenvolvendo um trabalho que estimula a criação de estratégias e materiais educacionais inéditos com base na parceria entre professores regentes e pesquisadores. Busca valorizar, ainda, as culturas locais durante o processo desta criação. No projeto, investiu-se na formação docente dentro da abordagem “Mão na Massa”, assim como na implantação do projeto em dezoito cidades através de professores, em sua maioria da rede pública estadual ou municipal.
A formação dos professores participantes do projeto em sua filosofia e metodologia se deu inicialmente através de um curso de Especialização em Educação Científica, oferecido pela FIOCRUZ durante trinta meses, através da coordenação do projeto no Estado do Rio.
Mais tarde, foi criada a pós-graduação Stricto sensu (mestrado e doutorado) com a colaboração da coordenação, no intuito de aprofundar a questão da educação científica. Alguns professores formadores foram selecionados. Parece-nos também que o curso será fonte de surgimento de novos potenciais professores interessados em se juntar ao projeto. Continuaremos com as reuniões semanais que já provaram ser cruciais para a troca, reflexão, debate e produção no âmbito do projeto.
Até o momento os resultados do Projeto no Estado do Rio de Janeiro são expressos nos seguintes objetivos para 2004: Pretende-se a expansão do projeto “ABC na Educação Científica – Mão na Massa” / Rio de Janeiro em 18 Municípios abrangendo 29 escolas e professores formadores responsáveis por 156 novas turmas.
O projeto ABC na Ciência - Mão na Massa: participantes e apoio “Mão na Massa” em São Paulo
No Estado de São paulo os dois parceiros da Academia na implantação do Programa são a Estação Ciência (Centro de Difusão Científica, Tecnológica e Cultural da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da Universidade de São Paulo) e a Coordenadoria de Ensino e Normas Pedagógicas (CENP) da Rede Estadual de Ensino de São Paulo cuja parceria obteve os seguintes resultados:
Participantes do projeto “ABC na Educação Científica – A Mão na Massa” em 2001, 2002 e 2003, em São Paulo
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Professores e coordenadores |
Escolas |
Alunos |
| FASE I - Implantação do projeto Julho a dezembro de 2001 |
60 educadores |
03 escolas |
1.940 alunos |
| Fase II - Expansão 2002 |
500 educadores |
28 escolas |
18.500 alunos |
FASE III-Expansão 2003/2004* * (até maio/2004) |
1.640 / 2.100 educadores |
112 / 135 escolas |
68.500/ 80.000 alunos |
No Município de S. Carlos a Academia tem como parceiros o Centro de Divulgação Científica e Cultural da Universidade de São Paulo em parceria com a Secretaria Estadual de Educação e Cultura (SMEC) e Diretoria de Ensino – Região São Carlos. Nessa região os resultados foram os seguintes:
Participantes do projeto “ABC na Educação Científica – A Mão na Massa” em 2001, 2002 e 2003, em São Carlos
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Professores e coordenadores |
Escolas |
Alunos |
Multiplicadores/cidades |
| 2001 |
47 |
08 |
1.134 |
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| 2002 |
92 |
44 |
2.950 |
05 / 02 |
| 2003 |
254 |
73 |
6.469 |
12 / 05 |
Considerações finais
O compromisso financeiro dos cientistas continua sendo com a ciência, com o “saber pelo saber” que herdamos dos antigos gregos, com a utilização da experimentação e do método científico que nos legaram Galileo e os romanos da Renascença, e que se tornaram o mais poderoso instrumento de progresso criado pelo homem. Com ele estamos desvendando os segredos do Universo, a composição da matéria e o código genético, fazendo da Ciência um dos campos mais fascinantes de atuação do espírito humano, onde os desafios não tem limites.
Mas há também, e concomitantemente, o grande compromisso dos cientistas para fazer com que a Ciência, e os produtos dela derivados, de fato sejam utilizados em benefício do homem, para melhorar a qualidade de vida, preservar o meio ambiente, assegurar um desenvolvimento sustentável e diminuir as desigualdades. “Ciência para a Sociedade” é o grande lema que congrega a comunidade científica internacional e a educação para a ciência é considerada como um dos instrumentos mais efetivos para implementar as ações nesse campo. Daí a satisfação da ABC em participar, juntamente com a “Académie des Sciences” desse evento, para o qual desejamos o maior sucesso.