No momento o mundo se depara com o problema ocasionado pela disseminação da gripe aviária. É possível que o processo evolua para uma pandemia de gripe humana. Pandemias são raras, mas podem ter conseqüências devastadoras para a saúde pública mundial. A SARS (Síndrome Respiratória Aguda Severa) provocou elevadas perdas econômicas, com estimativas de cerca de trinta bilhões de dólares americanos. As conseqüências sociais e econômicas de uma pandemia de gripe poderiam ser consideravelmente maiores.
A gripe aviária é uma das muitas doenças infecciosas com as quais nos deparamos. É, por enquanto, uma preocupação para a saúde animal e para o comércio avícola, tendo potencial para iniciar uma pandemia humana. Atualmente, contudo, não é de forma alguma a preocupação mais relevante para a humanidade como um todo. Enquanto algumas providências que estão sendo tomadas são de relevância apenas para a gripe aviária, outras (por exemplo, o estabelecimento de redes de monitoração nacionais e internacionais de doenças) também serão de utilidade para outras doenças infecciosas. Será de importância crucial para a comunidade mundial não esquecer essas outras doenças enquanto aborda os problemas da gripe aviária. Por outro lado, a gripe aviária poderia se transformar numa catalisadora para melhorar a investigação e a capacidade de resposta à ameaça de doenças emergentes ou re-emergentes.
A experiência mais recente tem demonstrado que medidas de controle de zoonoses emergentes, tanto para reduzir sua disseminação, como para diminuir perdas econômicas, têm que ser coordenadas internacionalmente, a fim de prevenir riscos de longo prazo para a saúde humana.
Recomendações
Todos os paises do mundo deveriam cooperar na abordagem dos problemas envolvendo a gripe aviária, assim como nas estratégias mundiais de longo prazo quanto a outras doenças infecciosas e emergentes importantes. Isso irá demandar ações coordenadas numa escala mundial de partes interessadas, que incluem governos, cientistas, especialistas em saúde pública, veterinários, economistas, representantes da comunidade empresarial e do público em geral.
Apelamos, pois, aos lideres mundiais, em particular aos que participarão da reunião do G8 em julho de 2006, em São Petersburgo, a implementar as recomendações abaixo. Da nossa parte, nós nos comprometemos a trabalhar com os governos e outros parceiros apropriados para atingir essas metas.
- Dar apoio às iniciativas internacionais para o monitoramento e o combate à gripe aviária, em particular àquelas da Organização Mundial de Saúde (WHO), da Organização Mundial de Saúde Animal (OIE), da Organização das Nações Unidas de Alimentos e Agricultura (FAO) e do Banco Mundial. A WHO, em particular, desenvolveu um protocolo, tanto para respostas apropriadas a uma possível pandemia, como para restringi-la, incluindo aspectos de biossegurança, e tem feito numerosas recomendações. Os paises deveriam prestar particular atenção a essas recomendações ao esboçar e implementar suas próprias estratégias nacionais em antecipação à possível chegada da gripe aviária e outras ameaças pandêmicas dentro de seus territórios.
- Fornecer apoio às nações em desenvolvimento na implementação de suas estratégias nacionais para abordar problemas da gripe aviária e outras doenças infecciosas, na criação de competência das respectivas infraestruturas (particularmente no monitoramento e na detecção) e também para reduzir os efeitos sociais e econômicos inevitáveis do acometimento das camadas mais pobres de suas populações.
- Nem todos os paises têm suficiente capacidade para implementar medidas de combate à gripe aviária ou a outras doenças infecciosas. Suas infraestruturas são criticamente importantes no combate à ameaça para manter o crescimento econômico e o desenvolvimento sustentável. Recente conferência internacional sobre filantropia, realizada em janeiro de 2006, em Pequim, confirmou a disponibilidade de governos e organizações internacionais para dar apoio a ações coordenadas de nações em desenvolvimento em seus esforços para conter a gripe aviária. Essas ações têm que ser implementadas.
- A supervisão global é o instrumento fundamental para controlar as zoonoses e doenças emergentes. O presente sistema fragmentado e não coordenado não é adequado na cobertura geográfica e para a capacidade humana ou científica. A política de melhoria e coordenação envolverá diversos níveis de instituições governamentais nacionais e internacionais, assim como uma diversidade de organizações científicas, de saúde pública e não governamentais como partícipes nos atuais e futuros sistemas.
Governos do G8 deveriam, pois, buscar estudo independente, baseado em evidências (por exemplo, pelo InterAcademy Council, envolvendo especialistas dos paises do G8 e dos paises em desenvolvimento), para fazer recomendações para um maior desenvolvimento da competência global de supervisão. Tal estudo deveria incluir os papeis, a coordenação e os mecanismos para relatar; as competências humanas, científicas e tecnológicas; e o custo para melhorar a capacidade de monitoração das doenças mundiais.
- As comunidades médicas e científicas deveriam ser mobilizadas a desenvolver novas vacinas e medicamentos, e novos métodos mais céleres na produção de vacinas (a capacidade mundial da produção de vacina contra a gripe é estimada em torno de 300 milhões de doses por ano). Mais investigação é também necessária para obter uma melhor compreensão das formas mais eficazes para usar as atuais vacinas e medicamentos disponíveis no mercado.
Tendo em vista a origem zoonótica da gripe aviária e outras doenças infecciosas importantes, os governos e as comunidades científicas deveriam promover uma cooperação internacional entre especialistas de saúde publica e de veterinária para elaborar novos métodos para a detecção, diagnóstico, prevenção e tratamento de doenças infecciosas, que levam em consideração a variedade mundial de meio ambiente e comunidades, e que possuam a necessária diversidade de capacidade para atuar nas epidemias.
- Os governos deveriam ser encorajados a colaborar mais na coleta de dados clínicos e epidemiológicos. A eclosão da SARS pôs em perspectiva problemas de trocas de dados clínicos de pacientes infectados. Os paises deveriam implementar estratégias que permitissem acesso e compartilhamento de dados, particularmente nas fases precoces de uma pandemia, para que a informação sobre a doença permitisse que fosse identificada e distribuído aos de maior risco o melhor tratamento e cuidados clínicos.
Ademais, as estratégias nacionais em desenvolvimento deveriam incluir protocolos para a avaliação das intervenções antes e durante uma possível eclosão, para que esse conhecimento possa ser compartilhado com outros paises que ainda não tenham sido afetados. Redes de pesquisa colaborativa e infraestrutura deveriam ser estabelecidas agora.
- Muitos dos fatores que afetam a gripe são também relevantes para um número de outras doenças infecciosas. Deve ser observado que, especialmente no contexto de paises menos desenvolvidos, outras condições como a tuberculose, HIV/AIDS, malaria e ebola têm ampla disseminação, causando elevados prejuízos econômicos. A luta contra essas doenças já dispõe de poucos recursos. A comunidade mundial deve assegurar que ênfase na gripe aviária não venha competir com o desenvolvimento de ampla base e infraestrutura sustentável, mas, ao contrário, motive a sua capacidade de atuar globalmente numa ampla gama de ameaças de doenças infecciosas.
Signatários
Academia Brasileira de Ciências
Royal Society of Canada Chinese Academy of Sciences
Academie des Sciences, France
Deutche Akademie der Naturforscher Leopoldina, Ger.
Accademia Nazionale dei Lincei, It.
Science Council of Japan, Japan
Russia Academy of Sciences, Russia
Academy of Science of South Africa, South Africa
Royal Society, United Kingdom
National Academy of Sciences, USA