Abre-se hoje a Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia e Inovação,
organizada pelo MCT em parceria com a ABC, com enorme expectativa de todos
os que acreditam que C&T são instrumentos que possibilitarão as grandes e
profundas mudanças econômicas e sociais de que o Brasil necessita. De fato,
o que caracteriza a Sociedade do Conhecimento é o crescente emprego da
Ciência como insumo para o desenvolvimento, e o que realmente distingue os
países do primeiro mundo é o nível médio da educação e a capacidade nacional
de utilizar no dia-a-dia os instrumentos fornecidos pela Ciência e
Tecnologia na solução dos seus problemas e como agentes de transformação.
Encurtou-se o tempo entre a descoberta e a aplicação e o conceito defendido
por Pasteur de que não há diferença entre ciência pura e ciência aplicada e
sim entre ciência e aplicação da ciência tem hoje aceitação universal.
Criaram-se modernos e eficientes sistemas nacionais de C&T que incentivam a
Ciência básica, mas simultaneamente facilitam a aplicação do conhecimento na
produção, assegurando, consequentemente, o desenvolvimento sócio-econômico
do país. Infelizmente, em nosso país não incorporamos plenamente em nossa
cultura e em nossas práticas que é pela C&T que se aumenta a produção, se
melhora a qualidade de vida da população e se encaminham soluções para a
maioria dos problemas sócio-econômicos. Há uma certa incredulidade que essas
ações, responsáveis pelo progresso no primeiro mundo, possam ser aqui também
praticadas. No entanto, a ciência brasileira já deu provas de sua capacidade
ao promover, em parceria com o Governo e com o setor produtivo, o
desenvolvimento de diferentes setores nacionais. Podemos citar como exemplos
de sucesso os avanços na agricultura, na aeronáutica, na prospecção de
petróleo, na telecomunicação, na informática e mais recentemente na
bioctenologia e na Genômica. Não esquecendo a grande contribuição que a
Ciência brasileira vem dando para melhorar a qualidade da educação em todos
os níveis.
Na declaração da Conferência Internacional de Ciência realizada em Budapest
em 1999, foi acentuado que nenhum país pode almejar um desenvolvimento
autônomo se não contar com uma massa crítica de cientistas e instituições
com qualidade científica. Mas, foi também enfatizado que em alguns países
que já contam com essa massa crítica de cientistas, a interação entre a
ciência e a aplicação é fraca e neles o Conhecimento não está sendo
utilizado adequadamente para promover o desenvolvimento. Exemplo de sucesso
é a Coréia do Sul, enquanto que o Brasil, a Índia e a China são mencionados
como os países com os maiores desafios nesse campo. Aqui, já contamos com
uma capacidade científica comprovada mas ainda é geralmente baixo o índice
de inovação das empresas, que empregam um número reduzido de cientistas,
doutores e engenheiros nas tarefas de pesquisa e desenvolvimento. Este é um
dos grandes desafios a ser debatido na conferência: como fazer para que o
conhecimento reverta com mais rapidez e eficiência em inovações
tecnológicas, mudando o modo de produzir. Simultaneamente, temos que nos
preocupar para aproveitar logo os novos doutores, formados em grande número,
para aumentar os grupos de pesquisa e distribuí-los mais equitativamente nas
diferentes regiões do país. Há que aproveitá-los, também, nas Universidades,
pois Universidade com qualidade é condição essencial para um país construir
um sistema de C&T eficiente. Aí é que se cria grande parte do conhecimento e
se preserva a cultura. E é aí, com exclusividade, que se formam os recursos
humanos qualificados responsáveis maiores pelo desenvolvimento das nações no
mundo de hoje.
Contamos no país com um sistema de C&T hoje considerado um dos mais
avançados dentre aqueles dos países em desenvolvimento, com o MCT ocupando a
posição central de coordenação. A criação recente pelo Governo do Presidente
Fernando Henrique Cardoso dos fundos setoriais de apoio à Ciência e a
Tecnologia, gerenciados pelo MCT, pelo volume e perenidade dos recursos e
pela perspectiva de integrar a totalidade da cadeia do Conhecimento no
setor, certamente permitirá um notável salto de qualidade. Se os problemas e
necessidades são setoriais, os instrumentos, a competência e a cultura para
utilizar o conhecimento são comuns. Por isso, a ação integradora do Centro
de Gestão e Estudos Estratégicos, que será criado oficialmente durante a
Conferência, é fundamental para otimizar a utilização dos recursos,
assegurando que todos os Fundos, ao colaborarem para a eliminação de
entraves tecnológicos, dediquem-se, igualmente, à criação de nova ciência,
possibilitando o desenvolvimento harmônico da cadeia de
criação-aplicação-inovação, sem esquecer que a formação de pessoal
qualificado é essencial para o funcionamento do sistema. A experiência
internacional já demonstrou ser irreal e fantasioso querer só colher os
frutos ou apostar exclusivamente na aplicação do conhecimento existente, sem
investir na criação de conhecimentos novos e na formação de pessoal
qualificado.
O compromisso dos cientistas do mundo é primordialmente com o avanço do
Conhecimento, sim, mas é crescente a preocupação para que a Ciência e os
benefícios que dela se originam sejam partilhados por toda a humanidade e
não apenas por aqueles que vivem nos países industrializados. Também, para
que os recursos naturais sejam utilizados sem degradar o meio-ambiente,
preservando-o para as gerações futuras. Na Declaração da Conferência das
Academias de Ciências, realizada em Tóquio no ano passado, reconhecemos que
os principais desafios para a transição para a sustentabilidade no século
XXI são: erradicar a fome e a pobreza;mitigar as alterações climáticas, a
deterioração ambiental e as desigualdades econômicas. A Ciência é e sempre
foi internacional, mas a responsabilidade de criar uma capacitação
científica nacional a serviço dos interesses maiores da sociedade é
responsabilidade dos cientistas de cada país. A afirmativa de que "a Ciência
não tem pátria, mas o cientista tem" é aceita universalmente. Oswaldo Cruz,
Carlos Chagas pai e filho, Mauricio Rocha e Silva e Joana Dobereiner, para
citar apenas alguns dos já falecidos, são exemplos do comprometimento dos
cientistas brasileiros com o progresso do país.
O que a Comunidade Científica espera da Conferência? Espera muito e por
múltiplas razões. Uma delas, e que deve ser destacada, é ver na Conferência
a oportunidade impar de consolidar definitivamente o grande pacto nacional
envolvendo o Governo, a Universidade, a comunidade científica e tecnológica
e o empresariado, com a participação do Congresso Nacional representando a
sociedade, para fazer da C&T e Inovação o grande instrumento de
desenvolvimento sócio-econômicos do país, visando melhorar a qualidade de
vida de cada um dos brasileiros. Fortalecer o sistema de C&T e Inovação é
assegurar o presente e o futuro do país como nação soberana, próspera e com
maior equidade social.