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  Discurso proferido pelo Dr. Eduardo Krieger durante a abertura da Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação

Abre-se hoje a Conferência Nacional de Ciência e Tecnologia e Inovação, organizada pelo MCT em parceria com a ABC, com enorme expectativa de todos os que acreditam que C&T são instrumentos que possibilitarão as grandes e profundas mudanças econômicas e sociais de que o Brasil necessita. De fato, o que caracteriza a Sociedade do Conhecimento é o crescente emprego da Ciência como insumo para o desenvolvimento, e o que realmente distingue os países do primeiro mundo é o nível médio da educação e a capacidade nacional de utilizar no dia-a-dia os instrumentos fornecidos pela Ciência e Tecnologia na solução dos seus problemas e como agentes de transformação. Encurtou-se o tempo entre a descoberta e a aplicação e o conceito defendido por Pasteur de que não há diferença entre ciência pura e ciência aplicada e sim entre ciência e aplicação da ciência tem hoje aceitação universal. Criaram-se modernos e eficientes sistemas nacionais de C&T que incentivam a Ciência básica, mas simultaneamente facilitam a aplicação do conhecimento na produção, assegurando, consequentemente, o desenvolvimento sócio-econômico do país. Infelizmente, em nosso país não incorporamos plenamente em nossa cultura e em nossas práticas que é pela C&T que se aumenta a produção, se melhora a qualidade de vida da população e se encaminham soluções para a maioria dos problemas sócio-econômicos. Há uma certa incredulidade que essas ações, responsáveis pelo progresso no primeiro mundo, possam ser aqui também praticadas. No entanto, a ciência brasileira já deu provas de sua capacidade ao promover, em parceria com o Governo e com o setor produtivo, o desenvolvimento de diferentes setores nacionais. Podemos citar como exemplos de sucesso os avanços na agricultura, na aeronáutica, na prospecção de petróleo, na telecomunicação, na informática e mais recentemente na bioctenologia e na Genômica. Não esquecendo a grande contribuição que a Ciência brasileira vem dando para melhorar a qualidade da educação em todos os níveis.

Na declaração da Conferência Internacional de Ciência realizada em Budapest em 1999, foi acentuado que nenhum país pode almejar um desenvolvimento autônomo se não contar com uma massa crítica de cientistas e instituições com qualidade científica. Mas, foi também enfatizado que em alguns países que já contam com essa massa crítica de cientistas, a interação entre a ciência e a aplicação é fraca e neles o Conhecimento não está sendo utilizado adequadamente para promover o desenvolvimento. Exemplo de sucesso é a Coréia do Sul, enquanto que o Brasil, a Índia e a China são mencionados como os países com os maiores desafios nesse campo. Aqui, já contamos com uma capacidade científica comprovada mas ainda é geralmente baixo o índice de inovação das empresas, que empregam um número reduzido de cientistas, doutores e engenheiros nas tarefas de pesquisa e desenvolvimento. Este é um dos grandes desafios a ser debatido na conferência: como fazer para que o conhecimento reverta com mais rapidez e eficiência em inovações tecnológicas, mudando o modo de produzir. Simultaneamente, temos que nos preocupar para aproveitar logo os novos doutores, formados em grande número, para aumentar os grupos de pesquisa e distribuí-los mais equitativamente nas diferentes regiões do país. Há que aproveitá-los, também, nas Universidades, pois Universidade com qualidade é condição essencial para um país construir um sistema de C&T eficiente. Aí é que se cria grande parte do conhecimento e se preserva a cultura. E é aí, com exclusividade, que se formam os recursos humanos qualificados responsáveis maiores pelo desenvolvimento das nações no mundo de hoje.

Contamos no país com um sistema de C&T hoje considerado um dos mais avançados dentre aqueles dos países em desenvolvimento, com o MCT ocupando a posição central de coordenação. A criação recente pelo Governo do Presidente Fernando Henrique Cardoso dos fundos setoriais de apoio à Ciência e a Tecnologia, gerenciados pelo MCT, pelo volume e perenidade dos recursos e pela perspectiva de integrar a totalidade da cadeia do Conhecimento no setor, certamente permitirá um notável salto de qualidade. Se os problemas e necessidades são setoriais, os instrumentos, a competência e a cultura para utilizar o conhecimento são comuns. Por isso, a ação integradora do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos, que será criado oficialmente durante a Conferência, é fundamental para otimizar a utilização dos recursos, assegurando que todos os Fundos, ao colaborarem para a eliminação de entraves tecnológicos, dediquem-se, igualmente, à criação de nova ciência, possibilitando o desenvolvimento harmônico da cadeia de criação-aplicação-inovação, sem esquecer que a formação de pessoal qualificado é essencial para o funcionamento do sistema. A experiência internacional já demonstrou ser irreal e fantasioso querer só colher os frutos ou apostar exclusivamente na aplicação do conhecimento existente, sem investir na criação de conhecimentos novos e na formação de pessoal qualificado.

O compromisso dos cientistas do mundo é primordialmente com o avanço do Conhecimento, sim, mas é crescente a preocupação para que a Ciência e os benefícios que dela se originam sejam partilhados por toda a humanidade e não apenas por aqueles que vivem nos países industrializados. Também, para que os recursos naturais sejam utilizados sem degradar o meio-ambiente, preservando-o para as gerações futuras. Na Declaração da Conferência das Academias de Ciências, realizada em Tóquio no ano passado, reconhecemos que os principais desafios para a transição para a sustentabilidade no século XXI são: erradicar a fome e a pobreza;mitigar as alterações climáticas, a deterioração ambiental e as desigualdades econômicas. A Ciência é e sempre foi internacional, mas a responsabilidade de criar uma capacitação científica nacional a serviço dos interesses maiores da sociedade é responsabilidade dos cientistas de cada país. A afirmativa de que "a Ciência não tem pátria, mas o cientista tem" é aceita universalmente. Oswaldo Cruz, Carlos Chagas pai e filho, Mauricio Rocha e Silva e Joana Dobereiner, para citar apenas alguns dos já falecidos, são exemplos do comprometimento dos cientistas brasileiros com o progresso do país.

O que a Comunidade Científica espera da Conferência? Espera muito e por múltiplas razões. Uma delas, e que deve ser destacada, é ver na Conferência a oportunidade impar de consolidar definitivamente o grande pacto nacional envolvendo o Governo, a Universidade, a comunidade científica e tecnológica e o empresariado, com a participação do Congresso Nacional representando a sociedade, para fazer da C&T e Inovação o grande instrumento de desenvolvimento sócio-econômicos do país, visando melhorar a qualidade de vida de cada um dos brasileiros. Fortalecer o sistema de C&T e Inovação é assegurar o presente e o futuro do país como nação soberana, próspera e com maior equidade social.