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  Saudação do Prof. Antonio Paes de Carvalho a Ricardo Gattass, por ocasião de sua ascensão a Professor Emérito da UFRJ



Convido-os a contemplar uma trajetória de vida no melhor estilo da Ciência Acadêmica Brasileira e Internacional.

É a pureza da trajetória - sempre aliada a excepcionais qualidades de Mestre e de ser humano - que leva a Universidade Federal do Rio de Janeiro a outorgar a Ricardo Gattass o seu mais alto título, o de Professor Emérito.

Todos nós, professores desta Casa, vivemos nossas vidas concentrados na tarefa de pensar, de construir o saber e de transmiti-lo como um conjunto de ensinamentos personalizados e comportamentos profissionais. Todos procuramos desenvolver e repassar um padrão exigente de ciência e de consciência, que visa, em última análise, impactar positivamente a Sociedade e formar as suas lideranças. Acostumados a julgar para promover e para validar o avanço das idéias, chegamos por fim ao seguro porto da aposentadoria, doravante imunes ao exame microscópico de nossas práticas. Prontos, enfim para o “ocium cum dignitate”, que pontua o final da maioria das carreiras e é, para o suposto beneficiário, o caminho melancólico e solitário para o esquecimento e a obsolescência.

Ocorre que a Comunidade Acadêmica não está disposta a deixar partir as suas melhores cabeças. Nem tais cabeças se deixariam colher no ledo engano da ociosidade remunerada. É esse o caso de Ricardo Gattass, surpreendido pela aposentadoria no auge de suas forças mentais e com vigor físico de sobra. Um Homem de tantas excelências, que é chamado a continuar a sua missão de vida, sem interrupção. Para isso, recebe hoje o honroso título de Professor Emérito, de sua gloriosa Alma Mater.

Vejamos quem é esse que merece tanta consideração.

Ricardo nos veio de Mato Grosso, hoje do Sul. Pai médico e fazendeiro, como é comum em nosso interior; mãe, artista plástica de inegáveis qualidades, o que certamente não é comum nessas plagas. Viveu entre a escola e as visitas à fazenda; avançou nos estudos, sempre com excelência, e acabou por bater às portas da Faculdade de Medicina da Praia Vermelha, à qual foi admitido em 1965. E ali, já no primeiro Ano Médico, foi exposto ao pólo irresistível de atração do jovem inteligente, que era o Instituto de Biofísica de Carlos Chagas Filho. Todos os que foram sorvidos por esse poderoso buraco negro de intelectos saíram, como Ricardo, transmutados e ejetados numa outra dimensão: a de cidadãos do mundo, livres pensadores e livres inovadores de idéias. Idéias tanto científicas quanto de transformação de nossa Sociedade ainda primitiva em um País digno do seu futuro de Grande Nação, integrado no concerto global que se prenunciava. Tal deve ser a função da Universidade como um todo, cumprida com perfeição por Carlos Chagas e seu notável Instituto.

Ricardo teve a sorte de entrar no sistema num momento propício. O Instituto de Biofísica recém anexara a Cátedra de Fisiologia, uma das mais importantes da Área Básica do Curso Médico. Preocupados com a nova responsabilidade, montamos desde logo uma estratégia de atração de novos talentos para a Fisiologia, entregando a seleção e o treinamento de nossos Monitores a Isar Oswaldo Cruz. Do seu incrível trabalho nessa área resultou toda uma geração de cientistas de renome, hoje lideranças da Casa ou espalhados aos quatro ventos do País e do Mundo. Dentre eles, um jovem de índole tranqüila mas de insuspeitado potencial, o nosso pecuarista Ricardo Gattass. Ricardo partiu da Monitoria para um breve período de trabalho no meu Laboratório. Não podendo guardar comigo todos os monitores de grande promessa, fui forçado a dividi-los, com pesar, com outros jovens e aguerridos Chefes de Laboratório da Biofísica. Com isso, lá se foi Ricardo Gattass para o novo Laboratório de Neurofisiologia, recém formado por Carlos Eduardo Rocha Miranda e Eduardo Oswaldo Cruz, meus vizinhos no terceiro andar da Praia Vermelha, numa área nova que nos fora gentilmente cedida pelo Departamento de Anatomia. Continuei com isso a ver Ricardo todos os dias, e segui de perto os seus passos.

A iniciação Científica sempre foi no Instituto de Biofísica o nosso melhor celeiro de craques para a pósgraduação. Tendo trabalhado a monitoria e estagiado nos laboratórios de Neuro, Ricardo ainda encontrou tempo para uma breve incursão como estagiário acadêmico no Hospital Souza Aguiar, de onde coletou seu primeiro prêmio de excelência científica. No Instituto, apreciado e valorizado, entrou para o Doutorado logo após graduar-se médico em 1971. E iniciou ai uma carreira de 30 anos de ensino e pesquisa, rica e variada, mas sempre ligada umbilicalmente ao seu Instituto e à sua Universidade.

A organização do sistema visual em primatas foi o leit-motif da perquirição científica de Gattass. Os problemas de compreensão desse intrincado sistema eram desafiadores na década de 70 e continuam sendo, ainda hoje, campo fértil para novas descobertas. As contribuições científicas de Gattass foram múltiplas, desde o seu trabalho de tese, concluído em 1976. Sua intensa atividade científica durante o pós-doutoramento no exterior - primeiro em Princeton e depois, já como pesquisador senior, no National Institutes of Health dos Estados Unidos - permitiu-lhe caracterizar com precisão novas projeções corticais do sistema visual e identificar a tríplice avenida de processamento da percepção visual no cérebro. Descreveu pela primeira vez um novo mecanismo, através do qual o cérebro reconstitui a inteireza de uma percepção tridimensional mesmo que a informação visual ponto-a-ponto que lhe é fornecida pelo olho esteja incompleta.

Ricardo voltou ao Brasil em 1983 para consolidar suas conquistas e criar o seu próprio grupo de pesquisa, dando andamento à fase nacional de sua carreira. Os estudos de Gattass e do crescente grupo de jovens por ele formados deram continuidade ao trabalho excruciante de compreensão dos mecanismos da percepção visual e do fenômeno de “completamento” por ele descrito anteriormente. Liderança já reconhecida no ramo, foi chamado por Carlos Chagas para liderar a organização do “Study Week on Pattern Recognition”, promovida em 1985 pela Academia de Ciências do Vaticano. Mais recentemente, a forte equipe de Gattass enveredou por caminhos modernos de estudo da função cerebral, integrando a eletrofisiologia, a bioquímica, a morfologia, a ressonância magnética nuclear e a psicologia, numa busca incessante de maior compreensão do muito ainda desconhecido em percepção visual e função cerebral.

É interessante observar a dinâmica da produção de Ricardo Gattass e de seu grupo. Podemos dividi-la em três décadas entre o Doutorado e a aposentadoria. Na década de 70 - a do arranque nacional - publicou sete trabalhos, compareceu a um conclave internacional e fez 21 comunicações a reuniões científicas brasileiras. Na década de 80 - já agora membro produtivo da confraria internacional da neurofisiologia da visão - publicou onze trabalhos e fez 26 comunicações a reuniões científicas, das quais 10 já eram em conclaves internacionais. Tendo consolidado seu grupo e seu novo Laboratório, partiu na década de 90 para a plena maturação profissional. Produziu 30 trabalhos e 55 comunicações científicas, a maioria dessas em congressos internacionais de difícil acesso. É também interessante notar que nas primeiras duas décadas aparecia com freqüência como o primeiro autor nas publicações. Já na última década, com seu grupo já formado, apenas em 7 trabalhos apareceu como primeiro autor. Este é o sinal característico do sucesso de um líder científico. Formou equipe e liberou-os para a atividade criativa independente. Esse sempre foi aliás o lema do Instituto de Biofísica: nunca sufocar a criatividade dos colegas mais jovens. A habilitação do espaço de pensamento é a mais nobre forma de liberação inovadora da juventude criativa.

O progresso feito por um cientista no caminho da expansão do conhecimento é uma atividade necessariamente focada na inovação conceitual e demanda 100% da atenção. Mas o verdadeiro cientista consegue segregar outras regiões com 100% de atenção no seu cérebro. Na cabeça de Gattass, a Ciência sempre coexistiu harmonicamente com uma forte presença no ensino de graduação, na administração acadêmica e na administração de ciências em vários órgãos e Conselhos do Ministério de Ciência e Tecnologia e da Academia Brasileira de Ciências.

A partir do Doutorado de 76, Ricardo rapidamente galgou os vários estágios da Carreira Acadêmica na UFRJ. Auxiliar de Ensino em 1975 e Assistente em 76, passou a adjunto em 1980. Ao retomar atividades no Brasil na sua volta de Princeton, foi feito Chefe de Laboratório em 1988, algo tardiamente, pois teimava em não descaracterizar com divisões o Laboratório de seu Mestre Eduardo Oswaldo Cruz. Logo passou a Chefe de Departamento e a Diretor Adjunto de Administração e Finanças no Instituto. Mas foi o ensino da Neurofisiologia nesses anos a responsabilidade mais pesada e mais gratificante do jovem professor. Com breve interregno no NIH, onde esteve em missão científica avançada, conquistou a posição de Professor Titular por concurso público em 1993.

No posto máximo da carreira acadêmica ativa, viu-se chamado a uma crescente responsabilidade na administração institucional no Instituto de Biofísica, e na Academia Brasileira de Ciências, aonde foi feito Membro Titular em 1994, 1o Secretário em 1995 e Vice-Presidente em 1997. Participou ativamente de várias Associações Científicas no Brasil e no exterior, nas quais sempre foi escolhido para posições de trabalho lideraste. Conquistou prêmios e honrarias várias, distinguindo-se entre elas as de Comendador e de Grã-Cruz da Ordem Nacional do Mérito Científico. Em 2000, aceitou com relutância o cargo de Sub-Reitor de Ensino para Graduados e Pesquisas da UFRJ, que exerceu com invulgar capacidade e bom senso até 2002, quando terminou o difícil mandato do Reitor Vilhena. Podemos dizer com tranqüilidade que, não fora Gattass, a UFRJ não teria chegado a bom termo nessa jornada. Sabendo manter sua independência de pensamento e a dignidade de sua função, representou para todos um norte claro no ambiente tempestuoso de então. A Universidade deve muito a ele pelo que deu de si naquele momento crucial.

Deixando a Reitoria em 2002, Ricardo requereu o obteve sua aposentadoria, após 35 anos de trabalho, no Instituto de Biofísica e na Universidade. Não queria aposentar-se, mas foi a isso levado pela ameaça de seus direitos adquiridos, que ceifou precocemente muitas carreiras docentes. Com o advento do novo Governo Nacional, foi imediatamente recrutado pelo Ministério de Ciência e Tecnologia, como Sub-Secretário de Coordenação dos Institutos de Pesquisa. Ali reorganizou o Sistema de vinculação e acompanhamento dos Institutos de Pesquisa da estrutura orgânica desse Ministério. Como homem de ação que é, concluiu essa tarefa com sucesso e foi chamado pela FINEP, onde atua hoje como Superintendente, a cargo das atividades dessa Agência de Fomento junto às Instituições Públicas de Ensino e Pesquisa.

Por onde passou, Ricardo Gattass singularizou-se pelo toque mágico em dois setores. No administrativo, em que o sucesso sempre lhe mereceu os maiores elogios, como se lê na placa que a ele dedicaram os funcionários da sua Secretaria do Ministério de Ciência e Tecnologia:

“Ao Professor Dr. Ricardo Gattass.

Nossa Homenagem ao Secretário, que além de aportar a sua invulgar competência e criatividade, ao dirigir esta Secretaria, revelou um imenso calor humano na interação com todos e cada um de nós. - Funcionários da SECUP - Secretaria de Coordenação das Unidades de Pesquisa - Ministério de Ciência e Tecnologia.”

A sua segunda excelência já vai citada nessa inscrição: o calor humano.

Humano é exatamente o epíteto que cabe a Ricardo. Seu enorme coração é incapaz de odiar ou de guardar uma mágoa. Longe de ser um cordeiro, é um homem decidido e até impulsivo, que não hesita em usar sua força para remover obstáculos físicos e burocráticos, mas nunca pessoas. Essas, ele as trata sempre com amor fraterno, a todos procurando orientar e ajudar. Sua índole doce não abriga indecisões. É líder inconteste, um chefe querido, um amigo leal e um pai e esposo extremado. Homem de sorte, teve sua vida marcada por mulheres excepcionais: a mãe escultora e a esposa cientista, que ao seu lado seguiu a sua própria carreira independente. Conheceram-se na Posgraduação de Biofísica, e com a cumplicidade dos colegas, passaram de tímidos amigos a namorados e logo se casaram, sendo Gustavo e Rafael gerados e criados nesse muito amor. Como Ricardo, já aposentada, Cerli continua atuação vitoriosa no trabalho, recentemente noticiada na imprensa pela descoberta de um novo princípio ativo anticancerígeno. Ricardo e Cerli, cada um em seu Laboratório, valem-se da sábia tolerância acordada pela tradição do Instituto de Biofísica, que criou a figura do Chefe de Laboratório Emérito, mesmo para aqueles que não se fizeram professores titulares. Seria difícil hoje falar de Ricardo Gattass como ser humano se não tivesse ele a seu lado Cerli, e seus filhos Gustavo e Rafael.

É essa pois a imagem quase completa de Ricardo Gattass, mas ainda precisamos apensar-lhe alguns retoques finais. Primeiro, não compreenderemos Ricardo Gattass completamente se não descobrirmos nele o fazendeiro de gado mato-grossense. Continua com carinho e dedicação a atender a essa obrigação de família, em suas horas vagas. De fato, em mais de uma oportunidade, valeu-se generosamente dessa condição para contornar dificuldades financeiras do seu laboratório, do Instituto e de sua sempre heróica e quixotesca resistência às mesmices casmurras da burocracia governamental. Pressionado na execução de um plano, não era incomum telefonar ao administrador da fazenda e dizer: “Fulano, vende ai dois bois e manda depositar o dinheiro na minha conta, que eu mandar esses burocratas para o inferno.” Nunca lhe passou na cabeça qualquer sentimento mesquinho de espoliação patrimonial. O importante era a missão, era o andar rápido em frente. Esse comportamento raro de fato se observa em mais de um caso na Universidade; seria interessante um dia relatar o quanto de glória institucional tantos devem a tão poucos abnegados idealistas.

Mas junto com o fazendeiro, há escondida ainda mais uma personalidade: a do emérito cozinheiro de pratos árabes, uma tradição familiar que conserva fielmente. Modesto como sempre, Ricardo não inclui na sua longa lista de publicações aquela que vai nos beneficiar diretamente nas próximas horas: o livro “Comida Árabe ao Alcance de Todos”, que editou sozinho em 1978, e já reeditou em 1983 e 1989.

É esse o Homem que hoje homenageamos. É esse o nosso Ricardo Gattass, grande cientista, grande administrador, um Cidadão do Mundo. Mas também um Ser Humano de primeira linha, que certamente cumpre a sua missão de exemplo formador das próximas gerações. Assim se constrói a brasilidade de uma Pátria Moderna. E assim, com esse título honorífico de Professor Emérito, a Universidade Federal do Rio de Janeiro, com o apoio unânime de seus colegas, chama-o a voltar aos nossos Conselhos, com a sua Sabedoria e a sua Bondade.

Antonio Paes de Carvalho é acadêmico da ABC





Saudação do Prof. Walter Araujo Zin a Ricardo Gattass
Palavras do Prof. Ricardo Gattass em agradecimento ao título de Professor Emérito