Cerimônia de posse, em 04/05/2016

Discurso do Presidente da ABC, Acadêmico Jacob Palis no dia 3.mai.2016

Discurso evento do dia 3 de maio
Local: Museu do Amanhã
Jacob Palis, Presidente

Boa noite. Gostaria de cumprimentar o mesa em nome da Ministra Emília Curi
Caras Acadêmicas e Acadêmicos presentes,
Caras Senhoras, Caros Senhores,

É uma honra e uma imensa satisfação ser o Presidente da Academia Brasileira de Ciências em momento tão especial: No seu aniversário dos 100 anos . Há mais de dois anos temos nos preparado como muita dedicação para esta data. A ABC tem sua mágica. Ela atrai para o seu entorno pessoas de competências inquestionáveis. Além de nossos funcionários, somaram-se à nossa equipe, nossos Acadêmicos e outros cientistas e pesquisadores que dedicaram grande esforço para a realização das comemorações do Centenário.

De fato, as comemorações já começaram. Faz duas semanas, os Acadêmicos Mauro Teixeira e Evaldo Vilela mobilizaram as FAPs para um evento sobre Pesquisa na Agricultura, realizado em Goiânia, que contou com um grande número de pesquisadores e interessados no tema, além da presença do Governador do Estado de Goiás, Marconi Pirillo.

A Reunião Magna que se inicia hoje, sob a Coordenação dos Acadêmicos Debora Foguel e Carlos Alberto Aragão de Carvalho Filho, trará para o auditório do Museu do Amanhã, esse espaço público que é visitado por amantes da Ciência de todas as idades, assuntos de interesse da Sociedade brasileira, como Saúde Global, em especial o combate a Zika, Novas Tecnologias, Educação e a Segurança Alimentar Sustentável, apenas para citar alguns dos grandes temas. De amanhã até sexta-feira, serão apresentadas palestras por grandes cientistas, inclusive detentores da Medalha Fields, na área da Matemática, Prêmio Turing, na área da Computação, e um Prêmio Nobel de 2015, o físico Takaaki Kajita.

Amanhã à noite acontecerá a posse dos 28 novos Acadêmicos, eleitos em 2 de dezembro de 2015. Será na Escola Naval do Rio de Janeiro. Também acontecerá a entrega do Prêmio Alm. Álvaro Alberto, pelo CNPq e pela Fundação Conrado Wessel. E em especial, acontecerá a passagem do comando da ABC. Eu presido esta Academia há nove anos e me considero muito feliz com tudo o que, junto com a Diretoria, os funcionários, e com o apoio dos Acadêmicos, realizemos. Agora é hora de mudanças. São essas mudanças que fazem a Academia renovar-se, mantendo-se moderna mesmo depois de um século de vida.

Também gostaria de agradecer a um grupo especial que muito colaboram para o brilho desta noite, o de Membros Institucionais: BG Brasil, Fapeg, Fapemig, Faperj, Fundação Conrado Wessel, Finep, Impa, Itaú, Vale e o nosso Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, além da SBPC, nossa irmã, e os patrocinadores do Centenário, Vale, Itaú, FCW, Finep, Capes, EMC e LOréal. Gostaria também de agradecer o nosso novo parceiro, o Museu do Amanhã, e outro um pouco mais antigo, mas muito precioso, que é a Marinha do Brasil. Gostaria de agradecer também o apoio do João Moreira Salles, que está produzindo uma série de sessões de cinema, com filmes de fundo tecnológico, que, ao fim, são comentados por cientistas brasileiros. Sugiro que vocês acompanhem este programa especial. As informações podem ser obtidas no site da ABC.

Por fim, eu gostaria de agradecer a todos vocês o carinho e atenção que dedicam a esta Academia. Gostaria agora de convidar ao palco o Acadêmico JOSÉ MURILO DE CARVALHO, juntamente com o físico, ILDEU MOREIRA DE CASTRO, que coordenaram um grupo de pesquisa histórica sobre os 100 anos da ABC, que retratam bastante os últimos 100 anos da Ciência no Brasil. Esse trabalho de pesquisa histórica gerou e ainda vai gerar vários outros produtos, como revistas, gibis infantis, livros eletrônicos, além de uma exposição, cuja a primeira edição será aberta hoje no Museu do Amanhã.

Boa noite a todos. José Murilo e Ildeu, tenham a palavra.

Discurso do Presidente da ABC, Acadêmico Jacob Palis no dia 4.mai.2016

Discurso evento do dia 4 de maio
Jacob Palis, Presidente
Local: Escola Naval

Boa noite. Gostaria de cumprimentar a mesa, em nome da Ministra Emília Curi
Caras Acadêmicas e Acadêmicos presentes,

Caras Senhoras, Caros Senhores,

Em instantes estarei terminando o meu mandato como Presidente da ABC, onde estive por nove anos. Meu principal objetivo nesta noite é agradecer a todos que me auxiliaram neste percurso.

Creio deixar uma Academia mais moderna e com presença nacional para o novo Presidente, uma vez que promovemos uma mudança estatutária que criou as Vice-Presidências Regionais, cujos Vice-Presidentes têm participação direta na Diretoria, com pelo menos duas funções especiais: a de realizar duas atividades científicas dentro de sua região por ano, e a de promover a eleição de Membros Afiliados, uma categoria para cientistas jovens, com idade até 40 anos, que se mantém associados à ABC por cinco anos não renováveis.

Em paralelo, a nossa Diretoria incentivou o aumento da participação de mulheres na ABC, que hoje é de aproximadamente 14% entre os Membros Titulares e de mais de 23% entre os jovens Membros Afiliados.

Na área administrativa, nós promovemos uma redução no quadro de funcionários, tornando a Academia mais eficiente, – hoje temos 27 funcionários – contratamos uma auditoria externa independente para assessorar o nosso Conselho Fiscal, outra ferramenta de controle implementada por nós em 2009, e um plano de carreiras para o funcionários que restringe que parentes de funcionários ou de Acadêmicos sejam contratados, dando mais lisura ao processo de seleção.

Hoje, gostaria de agradecer a todos os Acadêmicos que fizeram parte da Diretoria nesses nove anos, também os que compuseram o Conselho Fiscal. Também gostaria de fazer um especial agradecimento aos Acadêmicos que compuseram o Comitê-Executivo da ABC, responsável pelo dia-a-dia da Academia. Por isso, meu muito obrigado ao Lindolpho de Carvalho Dias, que presidiu esse comitê durante esse anos, e esteve sempre ao meu lado. Gostaria de agradecer também todos e cada um dos funcionários com quem tive um contato sempre direto e franco. Eles foram agentes ativos de todas as nossas atividades, incluindo a cerimônia de hoje. Gostaria de agradecer aos Acadêmicos que participam de nossas reuniões, de nossos grupos de estudo e serviram à ABC durante todos esses anos. Por fim, gostaria de agradecer às empresas que acreditaram em nós, e nos ajudaram a manter a ABC bem servindo à causa da Ciência no país e ao bem estar de nossa Sociedade.

Neste momento, gostaria de fazer uma homenagem a uma pessoa muito especial para a ABC, concedendo-lhe a Medalha Henrique Morize.

Henrique Charles Morize, francês de nascimento, que mudou-se para o Brasil aos quinze anos de idade, ficou conhecido como o fundador da física experimental brasileira, foi Diretor do Observatório Nacional, Professor Catedrático de Física na Escola Politécnica, membro do Clube de Engenharia e de várias outras sociedades científicas e educacionais brasileiras, francesas, americanas e italianas.

A sua importância para a astronomia, para a física e para a ciência em geral é reconhecida até hoje. Um dos fatos de que mais se orgulhou foi ter chefiado a Comissão que, em 1919, foi observar o eclipse do sol, na cidade de Sobral e estudar vários fenômenos referentes à forma e à natureza espectroscópica da coroa solar, observando elementos capazes de verificar uma das mais interessantes consequências da teoria da relatividade.

Na ABC, Morize foi seus primeiro presidente, e assim ficou por 10 anos, tendo sido posteriormente foi eleito Presidente de Honra e Membro Benemérito. Morize promoveu os periódicos da ABC, incentivando seus colegas a publicarem na revista da Academia os resultados de seus experimentos.

Por esses motivos, escolhemos dar o nome de Henrique Morize a uma medalha, que serve como reconhecimento a quem durante muito tempo prestou enorme serviço simultaneamente à Academia Brasileira de Ciências e a nossa Ciência brasileira.

O homenageado de hoje é Américo Fialdini Jr., Diretor Presidente da Fundação Conrado Wessel. A FCW promove anualmente o Prêmio Fundação Conrado Wessel, em uma cerimônia muito prestigiada por nossa comunidade e realizada sempre no mês de junho em São Paulo. A FCW também financia o Prêmio Almirante Álvaro Alberto, do CNPq, um prêmio de nossa Ciência, que hoje está sendo concedido ao destacado cientista Paulo Artaxo.

Para a Academia, o apoio do Fialdini tem sido ao longo dos anos fundamental. Graças a seu ineditismo, fez da FCW nosso primeiro e sempre presente Membro Institucional. Descontando-se o MCTI, que hoje é Membro Institucional em caráter especial, a FCW é a instituição que contribui com o maior valor de anuidade. O relacionamento com a ABC é antigo e constante, já que desde 2008 a FCW promove a cerimônia de Posse de novos Acadêmicos, a partir do Hotel Sofitel no primeiro ano e nos três anos seguintes no Hotel Copacabana Palace e a partir daí nos últimos cinco anos, na Escola Naval. Várias de nossas publicações foram impressas com apoio da Fundação, como, por exemplo, os Anais da ABC e o conjunto dos relatórios de nossos Grupos de Estudos, da série de Estudos Estratégicos da ABC. Em 2013, a FCW, sob o comando do Fialdini, foi a primeira instituição que aceitou nosso convite para patrocinar um dos eventos culturais do Fórum Mundial de Ciência.

Sua sensibilidade quanto à importância da Ciência para o nosso pais, faz de Américo Fialdini Junior merecedor da Medalha Henrique Morize.

E, a partir de agora, boa sorte, caro Luiz e seus Diretores. Muito obrigado a todos. Boa noite.


Discurso do Agraciado com Prêmio Alm. Álvaro Alberto, Acadêmico Paulo Eduardo Artaxo Netto

Senhoras e senhores, boa noite.

Eu gostaria de agradecer ao MCTI, ao CNPq, à Marinha do Brasil e `Fundação Conrado Wessel por esta premiação. Sinto-me extremamente honrado por ter sido escolhido entre milhares de pesquisadores brasileiros bem qualificados.

Uma das áreas do meu trabalho envolve o entendimento das relações entre o funcionamento físico, químico e biológico da floresta amazônica e o clima. Nessa tarefa, eu organizei muitas expedições científicas à Amazônia. Tivemos que contratar pessoal local para operar nossos equipamentos que fazem medidas contínuas por muitos anos. Encontramos pessoas extremamente inteligentes e sábias, que poderiam estar aqui nessa sala conosco, mas não tiveram a chance de frequentar uma escola. Algumas mal aprenderam a escrever. Dedico esse prêmio a essas pessoas e à enorme massa da população brasileira que não teve oportunidade de receber educação formal, mas que faz circular saberes através da oralidade. Todos nós temos uma dívida com esses brasileiros, dívida essa que vem sendo sanada lentamente, por meio dos programas afirmativos de inclusão, tanto das pessoas quanto dos conhecimentos que elas trazem.

Outra área em que trabalho é a das mudanças climáticas globais. Trata-se do maior desafio confrontado pela humanidade até o momento, porque coloca em risco o futuro de nosso planeta. Precisamos de ciência de qualidade para enfrentar adequadamente esse processo, que já está em curso, causando fortes impactos. O sistema socioeconômico fundamentado no lucro a qualquer preço é incompatível com a sustentabilidade do planeta. Ou agimos com celeridade ou nossos filhos, netos e mais de dez bilhões de pessoas viverão em um clima muito mais inóspito, com importantes implicações socioambientais. A ciência vem exercendo um papel fundamental nesta questão e, agora, planos de adaptação e mitigação vão precisar de pesquisas inovadoras.

Como sabemos, nosso país está passando atualmente por momentos difíceis e críticos para seu futuro. A condição fundamental para que a pesquisa científica se desenvolva e o conhecimento avance cada vez mais é garantir as liberdades democráticas. Que o Brasil continue a sua caminhada respeitando os princípios da democracia e que possamos, daqui a algum tempo, comemorar a força de nossas instituições, continuando a fazer ciência de alto nível, com financiamento forte e de longo prazo, algo estratégico par ao futuro do Brasil.

Por fim, dedico este prêmio Almirante Álvaro Alberto à minha família, Ana Paula, minha mulher, Pedro e Carolina, meus filhos. Todos nesta sala sabem que o equilíbrio entre o tempo dedicado à família e ao trabalho é sempre uma questão delicada, principalmente quando temos uma paixão pelo que fazemos. AO longo da vida, tive que me dedicar muito à ciência, subtraindo tempo de convívio com minha família. Por isso, este prêmio também é de vocês, Ana Paula, Pedro e Carolina.

Obrigado a todos, em especial ao CNPq, MCTI, Marinha do Brasil e à Fundação Conrado Wessel.

Discurso do Acadêmico Luiz Davidovich, Presidente-Eleito da ABC

DISCURSO DE POSSE DO PRESIDENTE
DA ACADEMIA BRASILEIRA DE CIÊNCIAS LUIZ DAVIDOVICH
Local: Escola Naval
Rio de Janeiro, 4 de maio de 2016

É para mim e para a Diretoria que toma posse neste dia uma grande honra servir a esta instituição centenária, que está intimamente associada à excelência e a grandes momentos da ciência brasileira.

É também um grande desafio, por várias razões.

Primeiramente, pela responsabilidade de aprofundar a grande transformação da ABC realizada sob a dinâmica liderança de Jacob Palis, aproveitando a eficiente estrutura que ele nos legou para aumentar ainda mais a capilaridade da Academia, sua visibilidade e seu protagonismo nacional e internacional.

A ABC tem realizado estudos e simpósios que geram propostas de políticas públicas, nacionais e regionais, de grande relevância para o país. A nova diretoria procurará ampliar a participação de seus membros na formulação de novos documentos e de novas propostas.

Continuarão a ser itens fundamentais de nossa agenda e de nossa atuação o cultivo da curiosidade e do fascínio pela ciência e a promoção da educação nessa área, com estímulo aos jovens talentos, essencial para o futuro da ciência no Brasil. Promoveremos o protagonismo internacional da ABC, mantendo e intensificando a sua interação com organizações e associações científicas internacionais. E, é claro, estaremos empenhados em finalizar as obras da nova sede, essencial para garantir à ABC um espaço consistente com sua dimensão nacional e internacional.

Podemos dizer que a ABC tornou-se um importante centro de pensamento sobre o país, mobilizando os melhores pesquisadores para apresentar propostas sobre temas de interesse nacional. Uma instituição que se nutre de sua experiência centenária para construir uma visão de futuro, contribuindo para um projeto de Brasil sustentável nos âmbitos econômico, social e ambiental.

Além dos objetivos que acabamos de mencionar, há desafios que exigem constante atenção e um intenso trabalho da ABC junto aos vários poderes da República e à sociedade em geral. Trata-se da defesa do desenvolvimento científico e tecnológico, ingrediente fundamental do progresso no mundo contemporâneo.

Neste momento de crise, essa atividade ganha especial relevância. Ameaças à atividade científica podem comprometer o futuro do país.

Cortes substanciais nos orçamentos do MCTI e do MEC interrompem redes de pesquisa, reduzem a oferta de bolsas, precarizam a investigação cientifica, a inovação e a educação. Fundações Estaduais de Amparo à Pesquisa sofrem com atrasos de repasses que prejudicam bolsistas e projetos de pesquisa e são ameaçadas, seja por propostas de redução da dotação orçamentária constitucional, seja pela cobrança de resultados imediatos, ignorando tanto a dinâmica da ciência como os inúmeros benefícios para a população que decorreram de pesquisas financiadas por essas mesmas agências.

O Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, que celebrou seu trigésimo aniversário no ano passado, tem tido um papel essencial na articulação de seus institutos de ciência e tecnologia e das várias agências de financiamento à pesquisa. Preservar a sua integridade, individualidade e laicidade é tarefa fundamental de qualquer governo que tenha compromisso com o desenvolvimento sustentável do país. Sem dúvida, será central para esta Diretoria a defesa desse Ministério e de sua missão de Estado.

Ouvimos às vezes o mito de que a crise econômica deve implicar necessariamente em cortes nos investimentos em ciência e tecnologia.

Exemplos de outros países contrariam esse discurso. Em meio à crise global, o primeiro-ministro chinês Li Kekiang anunciou, em março deste ano, que a China vai investir pesadamente em C & T ao longo dos próximos 5 anos, com a esperança de que a inovação ajude o país a enfrentar a sua desaceleração económica. Em 2020 o investimento em ciência e tecnologia deverá alcançar 2,5 % do produto interno bruto, comparado com 2,05% em 2014.

Em 2012, em meio a uma crise econômica global, aumentou de 26% o investimento chinês em pesquisa básica.

Os EUA têm investido 2,8% do PIB em P&D. Suécia, Japão, mais que 3%. Coréia do Sul e Israel, mais que 4%. Os países da Europa concordaram em alcançar um investimento em P&D de 3% do PIB em 2020. No Brasil, aplica-se em torno de 1,5%.

A proposta da ABC, e também da 4a. Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, realizada em 2010, de atingirmos 2% do PIB em 2020, é ainda uma quimera, e se torna mesmo modesta em face do que perseguem esses outros países.

Não se trata de uma porcentagem arbitrária. O aumento do investimento é necessário para aproveitar plenamente o imenso potencial do país, associado à sua grande extensão territorial, à sua rica diversidade regional, às riquezas de seus biomas, ao tamanho de sua população.

Explorar esse potencial requer aumentar o número e a qualidade de pesquisadores capacitados em todas as áreas. Exige mudanças na estrutura econômica, motivando empresas a inovar e agregar valor à sua produção. Requer atrair para a pesquisa científica e tecnológica jovens brilhantes, e melhorar substancialmente o sistema educacional.

Nesse sentido, é importante lembrar que temos ainda milhões de cérebros desperdiçados, crianças e jovens com educação precária e horizontes limitados, nas comunidades dos morros, dos mangues e da periferia das grandes cidades. Precisamos deles para o desenvolvimento do país. Por isso mesmo, tem sido, e continuará sendo pauta importante da ABC, a defesa da qualidade da educação em todos os níveis, pilar fundamental da inclusão social e da consolidação da democracia.

Devemos enfatizar, por outro lado, que a importância da ciência não se limita às possibilidades de aplicação. Se assim fosse, seria difícil explicar a fascinação pela origem da vida, pela revelação de um novo ancestral da humanidade, ou pela detecção de ondas gravitacionais produzidas por uma colisão de buracos negros há mais de um bilhão de anos atrás.

Desde tempos ancestrais, a curiosidade e a paixão pelo conhecimento caracterizam a humanidade. Devido a uma sutil peculiaridade da evolução da espécie humana, essa curiosidade e essa paixão servem à humanidade, revolucionam seu quotidiano, afetam sua organização social, seus modos e costumes. Frequentemente, é da pesquisa básica, despreocupada com a aplicabilidade, que surgem as grandes revoluções tecnológicas. A história da ciência é pródiga em exemplos nessa direção.

Em 1850, quando perguntado pelo Ministro de Finanças da Inglaterra sobre o valor prático da eletricidade, o famoso físico Faraday respondeu: “Um dia o senhor vai taxá-la”.

Mais tarde, no início do século XX, um grupo de jovens realizou uma revolução conceitual no nosso entendimento da natureza: a física quântica. Guiou-os o a curiosidade e o fascínio pela ciência. Não tinham aplicações em vista, nem se interessavam por elas. Desvelavam os segredos da Natureza.

Artigo publicado na Scientific American no ano 2000, celebrando o centenário da física quântica, revelou que 1/3 do PIB norte-americano estava baseado na física quântica. Ela tornou possíveis os computadores portáteis, o laser, a ressonância magnética utilizada em hospitais, os relógios atômicos essenciais para o funcionamento preciso do GPS.

O local privilegiado onde ocorre esta reunião Magna da ABC, o Museu do Amanhã, faz-me lembrar do poema “Tecendo a Manhã”, de João Cabral de Melo Neto, onde lemos que “Um galo sozinho não tece uma manhã: ele precisará sempre de outros galos. De um que apanhe esse grito e o lance para outros…para que a manhã, desde uma teia tênue, se vá tecendo, entre todos os galos”.

Nosso grito, nosso canto, é a ciência que produzimos e as propostas que proclamamos. Que ajudam a tecer o futuro de um Brasil contemporâneo e equânime, um país que se nutra da ciência e da tecnologia, e que considere direito fundamental de todo adulto e de toda criança experimentar o fascínio com as maravilhas do cosmos.

Sozinhos, nosso canto não irá longe. Precisamos que a ele se juntem outros setores da população, precisamos trazer para o grito da ciência os vários poderes da República. Mais que nunca, precisamos do suporte e da participação dos colegas membros da ABC, que conclamamos a trilhar conosco essa jornada desafiadora e meritória.

Os governos passam, a Academia Brasileira de Ciências continua. Com propostas para o país construídas sobre os sólidos alicerces da competência profissional de seus membros, a ABC mantém seu foco e aponta um rumo, mesmo nos momentos de crise. Certamente será, nos próximos cem anos, paladina da centralidade da ciência, da tecnologia e da educação no processo de desenvolvimento nacional. Visionária, independente e crítica, fará jus ao melhor título que poderia almejar, e que já conquistou, graças ao trabalho que realizou durante os seus cem anos de vida: o título de patrimônio da nação brasileira.

Em meu nome e em nome da diretoria eleita, agradeço o voto de confiança dos colegas. Esperamos corresponder às suas expectativas.

Muito obrigado.


 

Saudação aos Acadêmicos, pela Acadêmica Vanderlan da Silva Bolzani

Discurso de Saudação aos novos membros eleitos para a Academia Brasileira de Ciências (ABC), proferido pela professora Vanderlan Bolzani, na cerimônia de 100 anos da ABC

Sra. Ministra do MCT&I, Sra. Emília Ribeiro Curi, em seu nome saúdo todas autoridades presentes e membros da mesa,
Caríssimos presidentes da ABC, professores Jabob Palis e Luiz Davidovich, em nome dos quais saúdo todos os colegas acadêmicos, senhoras, senhores, tenham uma boa noite!

Ao iniciar esta saudação gostaria de agradecer à ABC o honroso convite para dar as boas vindas aos colegas recém-eleitos. Vocês ingressam na Academia em um momento muito especial. Momento marcado por uma grande emoção pois esta instituição celebra cem anos de sua criação.

A data é revestida de grande simbolismo para nós cientistas e com certeza, para o nosso país, pois esta Academia, ao longo de sua trajetória, foi protagonista de avanços marcantes na nossa educação, ciência, tecnologia e novação.

Sempre à frente nos debates das políticas nacionais de aprimoramento do conhecimento, nossa academia vem provendo o país de ideias e ferramentas para melhoria da educação e o avanço da ciência com criatividade e pensamento ético, desde à sua criação.

Dar continuidade a este legado agora é tarefa dos novos e bem vindos colegas acadêmicos. Caberá a vocês também a histórica missão da Academia de apontar caminhos para o país, nas suas áreas de competência.

A atuação dos colegas que chegam é mais necessária do que nunca. São muitas as mudanças no cenário político e econômico mundial. Fala-se na 4a. revolução industrial, que foi, aliás, o tema do Fórum Econômico Mundial deste ano. Ela é fruto dos avanços em campos estratégicos da ciência, como a genética, a nanotecnologia, biotecnologia inteligência artificial e a robótica. Nós cientistas temos enorme responsabilidade, qual seja, a de prover a ciência que o Brasil necessita para a sua inserção nessa nova revolução industrial.

Talvez possamos encontrar as respostas no nosso trabalho científico, tão bem colocado na obra “A Riqueza e a Pobreza das Nações: Por que algumas são ricas e outras tão pobres”, do respeitado economista David Land. A dinâmica de crescimento e riqueza de uma nação sempre esteve centrada no conhecimento, resultado de um sistema sólido de educação em todos os níveis e de uma ciência robusta em todas as áreas.

Historicamente, o Brasil se destacou como um país com grande capacidade de inovar na agricultura, aeronáutica, exploração do petróleo, que foram áreas onde havia massa crítica de conhecimento, com base sólida no binômio ensino e pesquisa. Foi esse lastro de pesquisa básica de excelência que gerou tecnologia e riqueza e destacou o Brasil entre os demais países da América do Sul. Muitos dos senhores e senhoras que estão aqui foram e são protagonistas desse processo.

Neste início de século, a tarefa de analisar cenários complexos e sinalizar caminhos com base em nosso conhecimento é particularmente desafiadora. Para ilustrar essa reflexão gostaria de citar o professor George Whitesides, da Harvard University, autor do brilhante artigo Reinventado a Química, publicado o ano passado.

Ele nota que após décadas de evolução como geradora de soluções industriais, a química se depara hoje com a necessidade de se reinventar e de mais interação com outras disciplinas. Podemos dizer que essa necessidade de renovação está presente em muitos campos da ciência e exige de nós uma nova compreensão do mundo. Além de muita desenvoltura para explicar sua importância a governantes e à sociedade.

O mesmo texto de Whitesides traz uma reflexão muito interessante no nosso contexto atual, que eu gostaria de partilhar com vocês. Ele retoma a questão pesquisa básica e aplicada que, em sua análise, mostra-se como uma falsa questão. O que deve ser privilegiado com os recursos sempre escassos, a ciência básica ou a ciência aplicada? Para responder, recorre ao exemplo de Pasteur que, ao mesmo tempo, criou novos campos da ciência e com eles resolveu problemas práticos como a imunização através de vacinas. Para Pasteur, não havia distinção entre ciência básica e aplicada, mas apenas boa aplicação da ciência. O que dizer então de Max Planck, Einstein, Heisenberg, Schroedinger, Linus Pauling cujas pesquisas básicas sobre mecânica quântica sedimentaram as bases para o mundo tecnológico que os sucedeu?

Que o centenário desta casa vise o firme compromisso de todos para planejarmos o futuro com o lastro de nosso legado científico. E que a partir de agora conta com vocês, novos acadêmicos.
Antes de concluir, me dirijo às cientistas mulheres. Hoje, não obstante um horizonte cheio de oportunidades para as mulheres de todos os cantos e profissões, somos apenas 30% da ciência mundial. Mesmo com o trabalho incansável do nosso querido presidente Jacob Palis entre os membros acadêmicos da ABC, só 16% são mulheres. Este quadro requer de todos os acadêmicos uma profunda reflexão, dos antigos e dos que hoje ingressam, para reverter este quadro.

Encerro, evocando Fernando Pessoa, meu escritor preferido. “O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso, existem momentos inesquecíveis, coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis.”

Professora Vanderlan Bolzani,
Professora Titular do IQAr-UNESP
Membro da ABC e Vice-presidente da SBPC

Discurso dos Recém-empossados, pela Acadêmica Patricia Rieken Macêdo Rocco

Exma. Ministra de Estado da Ciência, Tecnologia e Inovação, Emilia Ribeiro Curi,
Exmo. Comandante da Marinha do Brasil, Almirante-de-Esquadra Eduardo Bacellar Leal Ferreira,
Exmo. Presidente do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa (INEP), representando o Ministro de Estado da Educação Aloizio Mercadante, Luiz Roberto Curi,
Exmo. Presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Acadêmico Prof. Hernan Chaimovich,
Exmo. Presidente da Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), Acadêmico Prof. Wanderley de Souza,
Exmo. Presidente da Academia Brasileira de Ciências Acadêmico Prof. Jacob Palis Junior,
Exmo. Diretor Presidente da Fundação Conrado Wessel, Acadêmico Prof. Américo Fialdini Junior,
Exma. Presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Acadêmica Prof. Helena Bonciani Nader,
Exmo Diretor Presidente da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo a Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro, Dr. Augusto Raupp,
Autoridades presentes,
Excelentíssimos Acadêmicos e Acadêmicas,
Minhas senhoras e meus senhores

Sinto-me honrada por hoje tomar posse como Membro Titular da Academia Brasileira de Ciências e agradeço ao Presidente Jacob Pallis o convite para falar em nome dos novos membros eleitos da Academia Brasileira de Ciências Anderson, Angela, Bruce, Douglas, Ernesto, Hugo, Jeffrey, João, Joaquim, Luiz, Maria Rita, Marilda, Nadya, Pavel, Rogerio, Sidney, Tércio, Valder, Vasco, Yan e os membros correspondentes. Cada um tem sua história; no entanto, todos nós temos um denominador comum: a responsabilidade que representa ser Membro Titular desta casa.

Nós cientistas entendemos que a ciência é universal e deve ser difundida sem preocupação de fronteiras, de vantagens pessoais ou das instituições que a promovem. Nossas pesquisas são publicadas em revistas de livre circulação e difundidas em congressos. Somos curiosos, buscamos o conhecimento, porém, somos responsáveis por melhorar a vida humana e temos que estar atentos, para que nossas descobertas resultem sempre em fator construtivo na História.

A ciência brasileira vem apresentando diversas conquistas com impacto na sociedade e no cenário mundial. O investimento do Brasil em ciência nos últimos anos fez com que atingíssemos avanços expressivos. É fundamental que a ciência faça parte das decisões políticas, e a Academia Brasileira de Ciências vem desempenhando importante papel, assessorando o poder público para subsidiar essas decisões.

A ilusão de que a ciência já respondeu às perguntas fundamentais limita o espírito de questionamento. Estamos continuamente buscando respostas, e a humildade deve fazer parte do cotidiano do cientista em detrimento da arrogância, a abertura, em vez do dogmatismo. Temos muito a descobrir e redescobrir e, dessa forma, ajudar a construir a sociedade brasileira que tanto almejamos.

A Academia Brasileira de Ciências faz 100 anos de existência e é um local que congrega os principais expoentes da ciência no Brasil. A Academia tem desempenhado papel relevante em várias atividades ligadas à ciência no Brasil, como, por exemplo, ao liderar e influenciar na criação de diversas instituições, viabilizando publicações científicas, desenvolvendo programas e eventos científicos, estabelecendo convênios internacionais e disponibilizando recursos, para melhor direcionamento da sociedade acadêmica em nosso país.

Nessa inesquecível noite, estou muito feliz ao ver, neste auditório, tantos Acadêmicos reunidos, amigos e familiares. Como Professora Titular do Instituto de Biofísica Carlos Chagas Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro, gostaria de ressaltar o que o Prof. Carlos Chagas Filho sempre disse acerca da ciência no ensino: “na Universidade se ensina porque se pesquisa”. Aprendi, ao longo da minha trajetória, que não adianta trabalhar sem paixão, sem esperança, fé em si e no outro, honestidade, confiança, simplicidade. Sejamos fiéis a nós mesmos, não fiquemos presos a dogmas, não devemos viver do resultado do pensamento de outras pessoas. Tenhamos coragem de seguir nossos corações e nossa intuição. Se quisermos melhorar o mundo, temos que ter foco, determinação e organização. Somente com trabalho, educação e muita ciência, mudaremos nossa sociedade. Immanuel Kant já dizia que Ciência é o conhecimento organizado, mas sabedoria é a vida organizada. Logo, organizem-se. Não se esqueçam de que nossa família é quem nos dá o suporte diário. Por isso, gostaria de dedicar esse discurso aos nossos familiares, aos pais e mães, maridos e esposas, filhos e filhas. Nessa oportunidade agradeço aos meus pais Macedo e Maria Helena, meu marido José Rodolfo, minhas filhas Patricia e Marcella, meus irmãos Luciana e Marcello, meus cunhados Antonio Cid e Carolina e sobrinhas Giovanna e Amanda.

Por fim, agradeço à Marinha do Brasil, que foi minha casa por muitos anos, e por nos receber esta noite.

Senhor Presidente, Senhoras Acadêmicas e Senhores Acadêmicos, esperamos poder auxiliar a Academia Brasileira de Ciências em manter seu objetivo primordial contribuindo para o estudo, a discussão e o desenvolvimento da ciência. Contem conosco!

Muito obrigada,
Patricia Rocco

Mensagem da Presidente da República, Dilma Rousseff

Mensagem da Presidenta Dilma Rousseff por ocasião da Reunião Magna do Centenário da Academia Brasileira de Ciências
Brasília, 2 de maio de 2016

É com grande satisfação que parabenizo toda a comunidade científica brasileira pelo centenário da Academia Brasileira de Ciências. Uma instituição que orgulha a todos os brasileiros e que, nestes 100 anos de existência, tem mobilizado cientistas e pesquisadores em atividades importantes em favor da Nação.

São frutos da atuação dessa Academia, agências públicas de fomento como o CNPq, a Capes e a Finep, centrais em nosso esforço para estimular o desenvolvimento científico e tecnológico e de inovação no Brasil. Também nasceram, com apoio da ABC, instituições de ensino e pesquisa fundamentais para a formação de cientistas para a produção de conhecimento em nosso País, como o Instituto Nacional de Matemática Pura e Aplicada e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, para citar apenas dois exemplos.

Sem abdicar de sua necessária independência, a ABC estreitou, nos últimos anos, laços com o Ministério da Educação e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, como ricas contribuições à formulação de políticas públicas. Uma importante colaboração entre a comunidade científica nacional e instâncias de governo em prol de propostas e soluções para elevar a qualidade de vida da população brasileira.

Neste momento especial, presto minhas homenagens ao Professor Jacob Palis Junior por sua atuação à frente da ABC nos últimos nove anos e desejo muito sucesso ao novo presidente da Academia, Professor Luiz Davidovich.

Vida longa à Academia Brasileira de Ciências!

DILMA ROUSSEFF
Presidenta da
República Federativa do Brasil