Cerimônia de posse, em 05/05/2009

Discurso do Presidente da ABC, Acadêmico Jacob Palis

Discurso do Agraciado com Prêmio Alm. Álvaro Alberto, Acadêmico José Murilo de Carvalho

Quando me disseram que o Ministro Sérgio Resende queria falar-me, pensei logo: lá vem trabalho. Quando, no início da conversa, o Ministro me lembrou que, este ano, o prêmio Almirante Álvaro Alberto seria atribuído a pesquisador da área de Humanas e Sociais, minha suspeita se fortaleceu: ele vai me convocar para compor a comissão encarregada de fazer a lista dos candidatos.

Revelado o verdadeiro conteúdo da conversa, tive alguma dificuldade em acreditar nele. Afinal, os colegas da comissão, o Conselho Deliberativo do CNPq, a Fundação Conrado Wessel e o Ministério da Ciência e Tecnologia, ao me concederem o prêmio Almirante Álvaro Alberto para Ciência e Tecnologia me colocavam na companhia de gigantes da ciência brasileira contemporânea. Para mencionar apenas os que foram anteriormente agraciados na área de Humanas e Sociais, eu estava sendo colocado ao lado do economista Celso Furtado, o grande pensador do desenvolvimento econômico do Brasil e da América Latina e mestre de várias gerações; do historiador Caio Prado Jr., cuja obra-mestra A formação do Brasil contemporâneo, ainda é leitura obrigatória; de Antônio Cândido, o fundador da moderna crítica literária brasileira; do sociólogo Florestan Fernandes, autor do indispensável A revolução burguesa no Brasil; da socióloga Maria Isaura Pereira de Queiroz, pioneira entre nós dos estudos sobre messianismo e religião popular, e do filósofo Benedito Nunes, um dos mais eruditos de nossos pensadores.

Mas era a palavra do Ministro Sérgio Resende, tinha que lhe dar crédito. Absorvi a notícia, sensibilizado. Em nossa profissão, nada é mais gratificante do que o reconhecimento de nossos pares. Para mim, a cena mais emocionante do filme Uma mente brilhante, sobre a vida do matemático John Nash, é aquela em que seus colegas de Princeton depositam na mesa à sua frente suas canetas. Ninguém diz palavra porque o gesto dizia mais que as palavras. Mente brilhante não é a minha, no máximo posso dizer que tenho um crânio brilhante, mas o prêmio tem para mim sentido semelhante ao da cena do filme. Agradeci ao Ministro, a quem volto agora a agradecer de público, ao CNPq na pessoa de seu presidente, e aos membros da Comissão.

Um agradecimento à parte vai para a Fundação Conrado Wessel que se juntou ao CNPq para dar outra dimensão ao prêmio. Qualquer pesquisador brasileiro ficaria muito honrado com a simples concessão da honraria. Mas seria insincero se dissesse que o complemento material trazido pela Fundação Conrado Wessel não é importante. Com seu conhecido bom senso, já sentenciava Santo Tomás de Aquino: primum vivere, deinde philosophari (primeiro viver, depois filosofar). Aliás, até não muito tempo atrás uma das principais demandas dos pesquisadores brasileiros girava em torno do lema: primum vivere, deinde investigare.

O prêmio Almirante Álvaro Alberto é concedido este ano a pesquisador da grande área de Ciências Humanas e Sociais. Esta grande área corresponde hoje a mais de 20% dos cursos de pós-graduação do país. Em matéria de qualidade dos cursos, a área de Humanas apresentou a nota média de 4,1 nos conceitos atribuídos pela CAPES na avaliação trienal concluída em 2007. A melhor avaliação coube às Ciências Biológicas, com média de 4,4, uma distância não muito grande em relação às Humanas. Estas representavam ainda participação de cerca de 20% no número de pesquisadores registrados pelo CNPq e na produção de teses e dissertações. Entre os grupos de pesquisa, a porcentagem subia para 27% em 2006. Na produção bibliográfica, incluindo livros, capítulos, artigos em revistas e trabalhos em anais, as Humanas foram responsáveis por 17% dos autores e 19% das obras no quadriênio 2000-2003.

Menciono esses poucos números apenas para registrar o grande esforço que tem sido feito na área, com o indispensável apoio dos órgãos de financiamento, no sentido de expandir e melhorar a qualidade do ensino e da pesquisa. Talvez o único ponto em que a área ainda mantenha distância considerável em relação às Biológicas e Exatas e da Terra seja no que se refere à inserção internacional. No mesmo triênio de 2000-2003, a participação das Humanas na publicação de artigos em revistas nacionais era de 16%, número que caía para 4% quando se tratava de revistas internacionais. Mas aqui há sem dúvida uma diferença epistemológica básica entre as áreas. Existem uma matemática, uma biologia, uma física, produzidas, e muito bem produzidas no Brasil, como o atestam os colegas presentes nessa mesa, mas não uma biologia, uma física, uma matemática brasileiras. Elas são internacionalizadas por seus objetos. É motivo de orgulho para todos nós que os colegas dessas áreas compitam em pé de igualdade com outros pesquisadores da comunidade científica internacional.

As Humanas, e isso vale especialmente para a História, possuem estatuto epistemológico distinto. Existe, sim, uma historiografia brasileira, assim como existe uma historiografia norte-americana e francesa. Poderíamos mesmo dizer que existe uma Sociologia e uma Ciência Política brasileiras, uma vez que as sociedades nacionais, sem deixar de pertencer ao mesmo gênero humano, apresentam características únicas que exigem repertórios teóricos e interpretativos distintos. Isto é inevitável no campo da História que tende a valorizar o particular em detrimento do geral. Mas é nessa mesma diferença que reside o maior desafio atual de nossa área. Como acompanhar as imensas transformações do mundo de hoje no campo da ciência e da tecnologia, mas também na sociedade, na economia, no clima e na cultura sem renovar profundamente nossos repertórios interpretativos, nossos métodos e até mesmo nossos alvos de interesse? Como operar tais adaptações mantendo-nos prisioneiros das fronteiras cognitivas do Estado-nação, uma instituição que passa por profundas transformações na aceleração do processo de globalização?

Quando tento imaginar o que seria a formação e a atuação de um cientista social e de um historiador daqui a 50 anos antevejo algo completamente distinto do que existe hoje. Apesar disso, de uma coisa poderemos estar todos certos. O ser humano e seu comportamento permanecerão no centro de nossa preocupação. E a espécie humana é a única que tem consciência de sua história e constrói a ambas, a história e a consciência dela, para o bem ou para o mal. Continuará sendo responsabilidade dos historiadores e cientistas sociais desvendar o mundo em que vivemos, escrutinar os novos horizontes que se abrem e tornar mais claras as opções que se apresentam ao exercício de uma liberdade de que não abrimos mão, por mais que a reduzam as pesquisas de nossos colegas da genética e da neurociência. Nosso tempo já é, e será cada vez mais, um tempo de angústia e temor, mas também é e será um tempo de grandes desafios e de grandes esperanças. Vejo a premiação de hoje como o reconhecimento da importância do esforço desenvolvido por nossos pesquisadores das ciências humanas e sociais.

Muito obrigado.

Saudação aos Acadêmicos, pela Acadêmica Beatriz Leonor Silveira Barbuy

Em nome de todos os acadêmicos, venho saudar os membros recém eleitos da Academia Brasileira de Ciências. Esta incumbência é uma grande honra para mim, pelo que agradeço ao Prof. Jacob Palis e à diretoria da ABC. Isto foi em parte motivado por ser 2009 o Ano da Astronomia, em torno do que vou basear o discurso.

A UNESCO proclama comemorações de um determinado Ano, até 3 temas: 2009 foi proclamado Ano da Astronomia, Ano da Fibra Sintética e Ano da Reconciliação.

O Ano da Astronomia, proposta aprovada pela Assembléia Geral da União Astronômica Internacional em 2003, foi submetida à UNESCO pela Itália, e co-patrocinada por Brasil, França, Japão, e Inglaterra. Gostaria aqui de louvar a atuação do Ministério das Relações Exteriores, em particular nas pessoas dos conselheiros Marcelo Dantas, e Ana Luiza Membrive Martins, da Divisão de Acordos e Assuntos Multilaterais Culturais do Ministério das Relações Exteriores, e pelo apoio posterior na ONU pelo então Embaixador Ronaldo Sardenberg, e sua sucessora a Embaixatriz Maria Luiza Viotti. Anteriormente, o papel do Brasil foi também fundamental na declaração de 2005 como Ano da Física, apresentado à UNESCO por Brasil, França e Portugal. Ocorre que vários dos países desenvolvidos decidiram não mais apoiar celebrações do ANO, limitando-se apenas a não se manifestar contrariamente em casos que eventualmente apoiem. Dos 193 paises membros da UNESCO e ONU, os paises de menor expressão se interessam menos pela questão.

Da minha experiência nesse caso, pude concluir que o Brasil mostra postura aberta e atuante, o que contrasta com a atuação da maioria dos paises na UNESCO e na ONU.

2009 é o Ano da Astronomia porque há 400 anos, em 21 de agosto de 1609, em Veneza, Galileo Galilei (15/02/1564-08/01/1642) subiu as escadas do campanário da praça São Marcos: atrás dele estavam os príncipes da cidade, membros da Igreja e da família Médici. Foi sua primeira demonstração oficial de sua luneta astronômica, que iria fascinar toda a Europa.

Com sua luneta, Galileo mostrou as estrelas da Via Láctea, as crateras da Lua, os anéis de Saturno, e em particular os satélites de Jupiter, e também as fases de Vênus, que demonstraram que o sistema heliocêntrico de Copérnico era correto, e derrubava o sistema geocêntrico de Aristóteles e Ptolomeu. Em 1610 publicou a obra Sidereus Nuntius ou Mensageiro das Estrelas, descrevendo suas observações e conclusões e em 1611 foi nomeado membro da Academia dei Lincei.

Em 1616 a Inquisição considerou herética a teoria de Copérnico, e incluiu no Index Librorum Prohibitorum todos os seus escritos. Tornou-se proibido ensinar sobre as idéias de Copérnico, mesmo como uma hipótese.

Em 1632, Galileo publicou o “Dialogo sobre os dois grandes sistemas do mundo”, em que evidenciava a procedência do sistema heliocêntrico. Depois de longo processo, foi obrigado a negar (abjurar) as suas convicções e condenado à prisão por tempo indefinido, que conseguiu transformar em prisão domiciliar em sua residência em Florença. Foi absolvido pelo Vaticano em 1999.

Considera-se hoje que talvez a principal contribuição de Galileo tenha sido o método científico da observação, em contraposição à corrente teorica ou abstrata aristotélica. Porisso, Galileo é considerado por alguns como o “pai da ciência moderna”.

Anteriormente, Giordano Bruno (1548 – 17 fev. 1600), foi um dos primeiros a defender a idéia de um universo infinito, e povoado por milhares de sistemas solares; foi também partidário do sistema heliocêntrico. Giordano Bruno foi condenado à fogueira pela Inquisição, pena aplicada em 17 fevereiro 1600, por crime de heresia, pois sua idéia de universo infinito implicava a negação da idéia teológica da criação.

Na mesma época, o contemporâneo de Galileo, Johannes Kepler (1571-1630), em Praga, era o matemático imperial de Rodolfo II, imperador do Santo Império, rei da Bohêmia, e da Hungria. Em paralelo a Galileo, mas independentemente, Kepler havia deduzido as leis matemáticas do movimento dos planetas no sistema solar, publicando as chamadas leis de Kepler na obra Astronomia Nova, também em 1609.

A Astronomia hoje desenvolve observações em todos os comprimentos de onda, desde ondas em frequência de radio, até raios X e gamma. É uma ciência basicamente observacional, prática iniciada por Galileo, e que avança juntamente com, e colabora no desenvolvimento de tecnologias de ponta. O avanço do conhecimento na área nos últimos anos é impressionante, e isto se deve em boa parte às tecnologias implementadas.

Em 1998 surgiu a primeira publicação sobre a expansão acelerada do Universo, levando à conclusão de que há uma energia escura, cuja natureza ainda desconhecemos. Isto também leva à conclusão de que as galaxias que hoje vemos, futuramente nao serão mais vistas, portanto estamos vivendo uma época especial, em que nos e possível entender a natureza do Universo.

Observam-se hoje as primeiras estrelas que produziram os primeiros elementos químicos. Em 15/abril/2009, o satelite SWIFT detectou em raios gamma, a explosão de uma estrela de alta massa, uma supernova, ocorrido há 13 bilhões de anos, e apenas 600 milhões de anos após o BigBang.

Com relação a múltiplos sistemas solares, como sugerido por Giordano Bruno, apenas em 1995 foi identificado o primeiro planeta extrasolar, e esta área da astronomia têve uma expansão impressionante desde então, com atualmente 350 planetas descobertos, e há 2 semanas, em 21/abril/2009 foi anunciada a identificação do primeiro planeta semelhante à Terra.

A astronomia, assim como outras ciências, vem avançando a passos largos. E interessante notar que todas essas descobertas vêm sendo amplamente divulgadas na imprensa, o que nos faz crer que há transmissão de conhecimentos e penetração na consciência coletiva e conhecimento geral. De fato, o objetivo principal do Ano da Astronomia, envolvendo 135 paises, tendo no Brasil 120 núcleos, com ação de 2000 cientistas, astronomos amadores e educadores, e forte apoio Governamental, principalmente do MCT, é a transmissão do conhecimento: De fato, ainda há problemas na percepção geral. Por exemplo, por diversos métodos, concluiu-se que o Universo tem 13.7 bilhões de anos, e há várias décadas se sabe que a Terra tem 4.65 bilhões de anos. Porém a sabedoria comum aceita que o Mundo foi criado em 6 dias, e que a Terra tem 4000 anos, deduzido do relato bíblico, somando-se as idades dos patriarcas.

Em nossa reunião Magna, foi adotado o tema: “Galileu e Darwin: luzes da ciência sobre onde estamos e o que somos”. 2009 comemora também o Ano de Darwin, declarado pela União das ciências biológicas IUBS, por ocasião do bicentenário do nascimento de Charles Darwin e sesquicentenário da publicação de sua obra “A origem das espécies”.  Pela UNESCO e ONU foi proclamado 2010 Ano da biodiversidade.

Porém, teria sido possível comemorar 2009 também como o Ano da Evolução das Espécies, pela UNESCO e ONU? Provavelmente não, pois a esta teoria contrapõe-se o criacionismo, que se opõe a ciências que tratam da origem do Universo, e hoje principalmente da origem da vida e da evolução das espécies. Nesses aspectos há obscurantismo presente ainda hoje.

A Academia Brasileira de Ciências tem um papel de liderança no avanço das ciências e combate ao obscurantismo. Os cientistas que congrega trazem em suas trajetorias a marca de um esforço de Estado brasileiro, que se manteve coerente nos últimos quase 60 anos, desde a criação do CNPq, e intensificada nos ultimos anos.

Em recente reunião da Academia de Ciências do Terceiro Mundo (TWAS), no México, uma interessante publicação sobre Ciência no México, mostrava em algumas áreas, a produtividade dos países latino americanos, onde aparecia claramente a liderança do Brasil em várias áreas. Fica claro que tem sido acertada a atuação dos Ministérios da Ciência e Tecnologia e da Educação, principalmente através do CNPq e CAPES, assim como das Fundações de Amparo à Pesquisa. Por apoiarem um número crescente de doutores, formando atualmente mais de 10.000 doutores/ano, esta é provavelmente a ação mais importante neste país, pois pode-se considerar que todas as outras decorrem dela.

Finalizo lembrando que no Ano da Astronomia, a Assembléia Geral da União Astronômica Internacional ocorrerá justamente no Rio de Janeiro, em 3 a 14 de agosto. Temos tido grande apoio do governo deste Estado, principalmente através da Faperj, assim como da Prefeitura do Rio de Janeiro, pelo que agradecemos.

Concluo com as boas vindas aos novos membros, agradecendo a todos eles pelo enriquecimento que trazem a essa Casa, e conclamando-os agora ainda mais a aplicar seus continuados esforços para a construção deste país.

Discurso do Presidente do CNPq, Acadêmico Marco Antonio Zago

Senhor Ministro, Colegas da Academia, Senhoras e Senhores,

A aproximação entre as ciências experimentais, as ciências teóricas, as ciências humanas e sociais e a literatura e uma característica dos períodos de maior progresso da humanidade. Mas, se as experimentais e a tecnologia interagem para promover o progresso material imediato, gerando produtos e procedimentos inovadores, e ao mesmo tempo desvendam conhecimentos fundamentais sobre a natureza, sobre a origem do universo ou sobre o seu funcionamento, as humanidades têm um papel mais central e expressivo sobre o conhecimento e o funcionamento da própria sociedade. Não apenas para fazer avançar nossa compreensão da sociedade e dos fenômenos sociais, entre eles os econômicos e políticos, mas influir decisivamente sobre eles, este e o seu papel .

Essa aproximação nunca foi mais vital do que agora. Uma profunda mudança envolve nosso mundo, com claro deslocamento dos centros de decisão e de poder político e econômico. Ao mesmo tempo, as transformações produzidas pelo progresso cientifico e tecnológico sucedem-se em ritmo extraordinário, quase alucinante, fazendo com que velhas estruturas, entre elas nossas universidades, vejam-se atropeladas ou ultrapassadas, sem terem tempo, vontade ou meios de se atualizarem.

Dessa breve introdução, derivam claras responsabilidades que recaem sobre aqueles que nos reunimos nesta assembléia: cientistas, intelectuais, membros de academias, gestores de educação, de ciência e tecnologia. A primeira diz respeito a necessidade de aproximação das comunidades de cientistas e de humanistas quanta ao estabelecimento e desenvolvimento de políticas de estado. O Brasil fez uma clara opção pela sociedade de conhecimento como estratégia de desenvolvimento; ora, sua concretização não pode prescindir de uma forte intervenção das humanidades e ciências sociais aplicadas. Por outro lado, cabe a estes cientistas e humanistas dar atenção a problemas concretos de nossa sociedade e empenhar-se em propostas que possam se transformar em políticas publicas, como por exemplo, em segurança, violência, educação, impactos da tecnologia na sociedade, as novas feições da soberania nacional, a inserção do país na nova ordem econômica mundial, trabalho e emprego, e a inclusão social e educacional, e particularmente a modernização de nossa universidade. São alguns exemplos de questões que precisam deixar de ser apanágio das discussões amadorísticas, baseadas principalmente em idéias preconcebidas ou de fundo ideológico, para se reforçarem pelas contribuições fundamentadas na lógica e no conhecimento.

O prêmio Almirante Álvaro Alberto é a mais importante distinção outorgada pelo CNPq, em associação com a Fundação Conrado Wessel, para celebrar o conjunto da obra de um pesquisador brasileiro. Sua concessão ao Prof. José Murilo de Carvalho, que comemoramos hoje, mantém a tradição de homenagear pesquisador cuja contribuição para a ciência brasileira seja unanimemente reconhecida. O fato de que o Prof. José Murilo seja Membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Brasileira da Letras documenta que ele realiza o ideal de aproximação de que falamos e, talvez não por mero acaso, ocupa naquela Academia a mesma cadeira que já foi de Oswaldo Cruz.

Suas obras no domínio da história fizeram-no conhecido do grande público. Mas apresentá-lo apenas como um historiador seria desconhecer parte significativa de sua ampla contribuição à vida científica e cultural do país, passando por temas como o papel da imprensa na vida política, a questão da representação na democracia, discussão sobre a função moderna dos militares, educação e cidadania, para citar apenas alguns exemplos. Certamente todos aqui terão lido mais de um de seus textos sobre a vida universitária que, apesar da fina ironia, ou talvez por causa dela, são belas peças de defesa do espírito universitário.

É pois, prof. José Murilo, uma honra para o CNPq contar com seu nome no rol dos agraciados com o prêmio Almirante Álvaro Alberto. É também um claro sinal de que nesta casa humanidades e ciências sociais pesam tanto quanto ciências experimentais e tecnologia, pois o que importa não e o formato, a vestimenta ou a classificação do conhecimento, mas sim a excelência do conhecimento e seu valor intrínseco para a sociedade.

Obrigado!

Discurso dos Recém-empossados, pela Acadêmica Célia Regina Ribeiro da Silva Carlini

Exmo. Sr. Ministro da Ciência e Tecnologia, Sergio Rezende,
Exmo. Sr. Governador do Estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral,
Ilmo. Sr. Presidente do CNPq, Marco Antonio Zago, através do qual cumprimento os demais dirigentes das outras agências de fomento aqui presentes,
Ilmo. Sr. Presidente da Academia Brasileira de Ciências, Jacob Palis Junior, através do qual cumprimento todos os acadêmicos presentes,
Ilmo. Sr. Presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Marco Raupp, através do qual cumprimento os demais membros da mesa,
Familiares, colegas, amigos, alunos,
Meus senhores e minhas senhoras

A Academia Brasileira de Ciências foi fundada em 3 de maio de 1916, tendo como principal objetivo estimular desenvolvimento da pesquisa brasileira e a difusão dos conhecimentos científicos como fatores fundamentais para a promoção do desenvolvimento tecnológico e sócio-econômico do país. Fiel à sua missão, a ABC tem participado de importantes fatos ligados à trajetória da Ciência no âmbito nacional. Apenas para citar alguns entre os mais marcantes, a criação da Universidade de São Paulo, da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, do Instituto de Pesquisas Amazônicas, da Comissão Nacional de Energia Nuclear, bem como da criação de órgãos e agências financiadoras como CNPq, CAPES, FAPESP, FINEP.

A Academia promove periodicamente a expansão e a renovação do seu quadro de acadêmicos por meio da eleição de novos membros indicados e selecionados pelos pares. Trata-se de um processo altamente seletivo e transparente, sem candidaturas de auto-promoção ou resultante de iniciativa de moto próprio.

Meus caros confrades e colegas: Somos neste ano não mais do que 18 pesquisadores selecionados de todas as áreas do conhecimento represen-tadas na Academia, eleitos no final de 2008 e que assumimos nesta solenidade. Entre os 18, somos 6 mulheres, situação não usual nas posses de anos anteriores, evidenciando que a participação da mulher no cenário da Ciência no Brasil é hoje uma realidade. Nessa mesma ocasião, quatro cientistas estrangeiros estão sendo empossados como membros correspondentes. Tendo a honra e a responsabilidade de representá-los nessa oportunidade, agradeço aos que me confiaram tal distinção.

É com profundo sentimento de realização que estamos hoje aqui, como novos membros da Academia Brasileira de Ciências. Aprendemos na infância de nossas carreiras científicas a aceitar e exercitar a crítica e a contestação dos dados das nossas pesquisas, dos fatos e atos. Aprendemos também que a avaliação dos pares é fator fundamental para o estabelecimento e a aceitação de verdades científicas em qualquer área do conhecimento. A Ciência cresce pelas mãos de muitos, independente da relevância da contribuição individual de cada um. Assim, se hoje estamos aqui, é por que nossa dedicação à Ciência foi reconhecida pelos pares, nesse seleto universo que é a ABC, como sendo relevante a contribuição de cada um na sua área de atuação.

São muitos aqueles a quem devemos agradecer nessa jornada, e com os quais devemos dividir a alegria dessa conquista. Em primeiro lugar nossas famílias, pais, mães, irmãos, avós, que nos deram berço, que nos deram conselhos, aqueles que cuidaram para que tivéssemos a melhor educação possível. Esposos, esposas, filhos, que nos incentivaram, que entenderam nossas opções por uma carreira tão bela, mas tão exigente, suportando nossas ausências e q dividindo com o nosso trabalho, momentos de suas vidas. Como mulher e mãe que sou, também tenho que agradecer a outras mulheres, profissionais do lar, que me ajudaram nas lidas domésticas e como segundas mães-enfermeiras para meus filhos, nas minhas ausências. Mestres e professores, que nos levaram da alfabetização até a conclusão da universidade. Nossos orientadores, que ajudaram a moldar nossas mentes investigativas, em muitos casos desde a iniciação científica, até forjar os cientistas que hoje somos. Nossos alunos, colaboradores, técnicos, secretários, que além de nos impor um processo contínuo de aprendizagem e reciclagem, contribuíram diretamente para a construção de nossas carreiras e o reconhecimento da comunidade científica. Às agências de fomento que financiaram nossa caminhada até esse momento. A todos vocês, SOMOS E SEREMOS ETERNAMENTE GRATOS.

Mas chegar até aqui não é só uma questão de reconhecimento. Nossos pares que nos elegeram acreditam também que estamos prontos para abraçar o compromisso maior, que é a razão de ser da Academia Brasileira de Ciências, contribuindo para o desenvolvimento científico, tecnológico e social do País. No conjunto da nossa nova casa, somos, todavia, muito poucos, como de resto em todo o país, constituímos ainda uma pequena comunidade científica brasileira. Juntando-nos aos membros veteranos, associados, afiliados e titulares, seremos cerca de 560 acadêmicos, menos de 0,5 % da força de trabalho da ciência brasileira! Há portanto muito o que fazer.

E de que forma podemos contribuir ? De que maneira, nós que somos tão poucos, podemos colaborar de forma efetiva para o desenvolvimento do nosso País ? Considerando o grau de maturidade profissional que atingimos, nossa atuação está sendo requerida em pelo menos seis frentes: 1) dar continuidade às atividades de pesquisa cujo reconhecimento nos legou essa diplomação; 2) priorizar o processo da formação de novos pesquisadores qualificados; 3) atuar na qualificação da educação básica; 4) dar maior subsídio às relações ciência-tecnologia; 5) ampliar o esforço de divulgação da ciência. A 6ª.frente de ação, já claramente sinalizada pela ABC, e na qual todos os acadêmicos devem se envolver, trata da necessidde de reduzir as disparidades regionais. Paulista que sou, e trabalhando há já 12 anos no Rio Grande do Sul, sinto na carne, melhor dizendo no bolso, as diferenças de oportunidades que se apresentam. Trabalhar nesse frente de ação é simples, como mostram os vários modelos já operando eficientemente no âmbito federal. È necessário, todavia, a efetiva colaboração e solidariedade dos Estados mais ricos, e não a crítica descabida e visão egoísta, que infelizmente, temos visto em episódios recentes.

Sabidamente, a ciência brasileira vem avançando de forma significativa, com especial ênfase em no período recente que vivenciamos agora, em que recursos substanciais vêm sem sendo alocados à Ciência, Tecnologia e Inovação e para a formação de recursos humanas no âmbito das três agências federais. Ministros Sergio Resende e Fernando Haddad recebam nossos agradecimentos pelo esforço que vem sendo despendido nos dois ministérios.

Acredito, ainda, que um componente forte a das nossas missões é formar novos parceiros para a batalha educacional e científica. Formar bem os jovens para o ensino e a pesquisa tem um claro efeito exponencial. Somente atuando intensamente na formação de recursos humanos qualificados poderemos dar os saltos de qualidade na educação básica de que tanto necessita nosso país, e que o MEC vem promovendo de maneira exemplar sob uma verdadeira e salutar obsessão do Ministro Fernando Haddad. Eu ainda sou da geração que fez todos os seus estudos em escolas públicas, e tenho enorme orgulho de representar um investimento público que deu certo! Educação de qualidade em todos os níveis é a base de tudo, é a única saída possível para a justiça e a inclusão social, para a boa distribuição de renda e para oferecer igualdade de oportunidades para todos.

Temos uma enorme dívida a saldar com a educação em todos os níveis, tanto em termos quantitativos como qualitativos, já que apenas 2,5 % da população brasileira chega até as portas das Universidades, e apenas 0,1 % obtém formação no nível da pós-graduação. É fácil, então, constatar que somos poucos, muito poucos. Por outro lado, temos e devemos exercer plenamente o enorme poder de multiplicação com que a carreira científica e a de professor nos agracia.

O nosso envolvimento com as frentes de atuação que citei anteriormente é essencial e urgente, qualquer que seja o setor de atividade considerado. Particularmente importante é a conversão de nossos bem sucedidos avanços científicos nos dias de hoje, como foi anunciado a pouco nesta solenidade, em avanços nos processos tecnológicos. Para que isso ocorra é imprescindível atrair o segmento industrial para parcerias estratégicas, atualmente viáveis em sua plenitude. Fato inconstetável hoje, todos os países que produzem patentes e bem sabem explorá-las, são também lideres mundiais na produção científica.

Acredito finalmente que uma das nossas missões como parte desse seleto mundo da Academia é de atuarmos como facilitadores, promovendo a desmistificação da Ciência. Acredito que quanto mais podermos inserir a Ciência no dia-a-dia da sociedade, introduzi-la no cotidiano das pessoas, sobretudo das crianças, estaremos contribuindo não só para educar o cidadão comum, melhorando sua condição de vida, mas também possibilitando o despertar de novos talentos. Esses,eventualmente, se juntarão a nós no esforço hercúleo que precisamos fazer para manter o Brasil na caminhada a passos largos, como vivenciamos hoje, na direção de um futuro melhor para todos, como país economicamente desenvolvido e socialmente justo.

Concluo esse nem tão breve discurso afirmando, em meu nome e dos pares que aqui represento, que a Academia Brasileira da Ciências pode e deve contar conosco, acadêmicos empossados nessa cerimônia, para levar adiante o compromisso de contribuir para o desenvolvimento científico e tecnológico, e o bem social do Brasil. Para todos nós, não se trata apenas de mais um galardão. Estamos aqui, dispostos a arregaçar as mangas, e conscientes dos compromissos que ora assumimos.

Muito Obrigada!

Discurso do Ministro da Educação, Fernando Haddad

Eu gostaria em primeiro lugar de repetir aquilo que disse na tarde de hoje e na reunião da Academia sobre a produção científica brasileira. O nosso teor de conhecimento hoje, graças à nossa Capes, de que o Brasil no ano de 2008 superou duas posições do ranking mundial de produção de conhecimento, atingindo a 130 colocação, superando Holanda e Rússia. Isso se deve, em especial, ao trabalho da Academia Brasileira de Ciências, à sociedade para o desenvolvimento da ciência, enfim, ao trabalho de todos os professores, pesquisadores, às nossas universidades, institutos, que trabalham equivalentes na produção de novos conhecimentos.

Essa nova posição que o Brasil ocupa – e merecida posição – é fruto de um investimento que é feito no desenvolvimento humano no país, no desenvolvimento científico e tecnológico que conta com o apoio do CNPq, da Capes, da Finep, do Ministério da Ciência e da Tecnologia, do Ministério de Educação… que congregam esforços no sentido de elevar a produção brasileira na produção de ciência. O Brasil aumentou em apenas um ano a sua produção de papers publicados nos registros internacionais indexados em mais ou menos 50%.

Nós passamos de menos de 20 mil papers publicados para 30 mil em apenas um ano. É evidente que isso não é mérito do Governo Federal ou dos governos estaduais, é fruto do esforço nacional em proveito da ciência, da expansão das universidades públicas e das bolsas de mestrado e doutorado por todo o país, da contratação de doutores, do compromisso dos jovens professores com o novo horizonte que descortina para as universidades brasileiras, para os institutos de pesquisa, para os agentes de fomento.

É digno de nota, uma solenidade como essa, tão importantes, que o Brasil tenha dado mais esse passo e que olhando para os identificadores de 20 a 30 anos, é possível conceber um momento, no futuro próximo, em que o Brasil esteja entre os dez maiores produtores de ciência no mundo. É óbvio que esse dado nos enche de esperança, sobretudo porque há outros desafios a cumprir, que, para mim, é a nossa pós-graduação, para traduzir conhecimento em ciência aplicada. Nós precisamos agregar valor a nossa produção consumida internamente ou destinada à exportação.

É preciso traduzir esse acúmulo de inteligência e de conhecimento em proveito da educação básica, esse talvez seja o maior desafio brasileiro. Se ocupamos esse lugar de tamanha distinção na produção de conhecimento, não ocupamos lugar semelhante no que diz respeito à qualidade da nossa educação básica, sobretudo pública, do nosso país. Razão pela qual uma das determinações do Ministério da Educação é investir não apenas na formação de recursos humanos para a educação superior, mas, sobretudo no investimento de formação de recursos humanos de nível superior para todos os níveis de ensino, o que, evidentemente, inclui a educação básica.

Eu penso que este desafio da formação de professores seja aquele mais importante, que deve ser enfrentado o quanto antes. A União, neste caso, tem que passar a assumir uma responsabilidade que não pode ser só dos governadores e prefeitos, como no passado. É o próprio regime de colaboração que precisa, definitivamente, ser estabelecido, para que o Magistério tenha acesso à formação inicial e continuada, à altura dos desafios que estão colocados. Então, trago essa boa nova da nossa Capes.

Aproveito para cumprimentar os meus parceiros de governo, me congratulando com todos, por mais esse feito do Brasil no mundo que há de ser comemorado pelas nossas universidades e institutos de ciência.